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IE9 reconhecerá apenas H264 no elemento video do HTML 5

Até parece piada quando certas empresas dizem colaborar com padrões. Sempre tem alguma coisa que na hora “H” fica faltando. A Microsoft fez um trabalho médio no IE8, e promete alto grau de compatibilidade com o HTML 5, CSS 3 e padrões da web no Internet Explorer 9. Mas está caminhando um pouco longe do ideal, do realmente livre e aberto, pelo menos no que diz respeito à web.

O IE é o navegador mais usado e tende a ser o primeiro navegador de muita gente que compra o primeiro computador (na Europa diversos órgãos tentam mudar isso). Às vezes a pessoa o utiliza por anos, sem saber que há soluções alternativas – de qualidade questionável por poucos, afinal a velocidade e inúmeras outras qualidades se comprovam na prática. Muita coisa que vem no IE ou a forma como ele trabalha influencia diversas pessoas, especialmente pessoas que lidam com tecnologia, quem faz os sites que os visitantes acessam. Essas pessoas, na hora de escolher a forma de publicação de conteúdo para seus sites, definem mais ou menos o trabalho que o público terá para ver ao escolher uma tecnologia que não é aberta (ao requerer um plugin específico para Windows, por exemplo, ou um formato de arquivo proprietário).

Antigamente era o ActiveX, uma espécie de “plugin específico para o IE” (que pode em geral ser usado em outros programas) que roda como executável no Windows (o que trazia problemas de segurança), além de modificações na forma de lidar com os scripts e o VBScript, algo que o Netscape não reconhecia mas o IE sim. Felizmente o VBScript não foi para frente. Agora será o HTML 5 e seu elemento <video>, não só pela MS mas também por outras empresas – só que a MS é a de maior influência, em se tratando de navegadores.

Enfim, a notícia. A MS divulgou que o IE9 tratará com a tag <video> do HTML 5 apenas vídeos codificados no “padrão” H264. Apenas no padrão H264.

“The future of the web is HTML5. Microsoft is deeply engaged in the HTML5 process with the W3C. HTML5 will be very important in advancing rich, interactive web applications and site design. The HTML5 specification describes video support without specifying a particular video format. We think H.264 is an excellent format. In its HTML5 support, IE9 will support playback of H.264 video only.”

Para começar a crítica, seria tão difícil o IE identificar o formato do vídeo e usar um codec livre, se aplicável?

Esse formato que o IE9 reconhecerá como único é proprietário e pode exigir licenciamento (funciona como shareware até 2015, mas o mundo não deve acabar até lá, em 2016 você verá…), onde os criadores de conteúdo teriam que pagar royalties pelo seu uso. Ou seja, não é livre, fere alguns princípios que deveriam ser aplicados na web – onde todos podem postar e acessar os mais diversas informações.

O H264 pode até ser conhecido como um “padrão da indústria” por ser usado comercialmente, vir embutido em diversos softwares e hardwares, mas está longe de poder agradar a todos. A Mozilla não pode incluir suporte a ele no seu navegador, por exemplo, em todas as plataformas – se quiser fazer isso terá que pagar pelos direitos de uso. Se fosse só para Windows ela poderia utilizar recursos do próprio sistema para tocar os arquivos (visto que a MS pagou pelo codec que vem no Windows). Mas como ficariam o Linux e as versões móveis dos navegadores, onde os produtores não teriam recursos para pagar as licenças (ou não iriam querer, afinal é um direito)?

Se o site X colocar um vídeo com H264 o IE9, Safari e Chrome poderão reproduzi-lo, mas o Opera e o Firefox talvez não, nem mesmo os navegadores derivados do Chrome – que apesar de ser open source tem um licenciamento diferenciado, o Google paga pelo H264 mas isso não se aplica aos derivados. E se ele publicar o vídeo em Theora/OGG o Firefox e Opera tocariam, mas os outros não. Situação complicada. Isso é só um exemplo, muita coisa (de ruim?) está por vir conforme o HTML 5 estiver sendo usado em massa.

Tudo isso ocorre porque a W3C não especifica um codec para o elemento de vídeo embutido do HTML 5. O produtor do navegador que escolhe. Não seria mais fácil usar um reprodutor externo embutido ou os codecs existentes no sistema do usuário, de forma transparente? Imagino que é isso que vai acontecer, pelo menos no mundo do software livre (onde quem sabe utilizem o MPlayer, já esperando os mais diversos tipos de arquivos variando de site para site). Melhor do que ficar restrito ao livre, mas ainda pouco usado Theora/OGG, e do que gastar uma fortuna para incluir suporte a arquivos em H264, o que inviabiliza a publicação de projetos independentes e de pequenos grupos de desenvolvedores.

Lembre-se que isso não se aplica apenas a navegadores na forma de software para computador, mas também em hardware decodificador de vídeo e dispositivos móveis, gadgets, etc, o que aumenta muito o problema. Os padrões abertos (como as especificações do HTML, CSS e Javascript) se fazem necessários para que os produtores de sites não precisem ficar criando “versões” das páginas para cada plataforma, dispositivo ou ambiente. Simplesmente utilizariam um conjunto de instruções e pronto, o site seria renderizado em cada dispositivo quase que da mesma forma, sem perder suas funcionalidades.

Um outro caso parecido seria da Apple versus Adobe. A Apple não quer o Flash nos seus produtos porque é fechado e não agrada Jobs. Ela diz apoiar padrões abertos, criticando duramente o Flash, mas também é a favor do uso geral do H264 – o que é um tanto quanto contraditório.

A web está evoluindo, os sites de hoje são verdadeiros sistemas quase-operacionais em vez de puro texto com imagens sem suavização num fundo cinza. Mas o velho problema de um site funcionar num navegador e não em outro parece que não quer nos deixar tão cedo.

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