NVIDIA prepara megadatacenter com 27.500 GPUs para treinar os “cérebros” dos robôs japoneses

Estrutura de 140 MW terá 27.500 GPUs Rubin e 13.750 CPUs Vera para treinar modelos multimodais voltados a robôs, fábricas e sistemas autônomos.

O Japão terá uma infraestrutura nacional de inteligência artificial equipada com 27.500 GPUs NVIDIA Rubin e 13.750 CPUs Vera, capacidade suficiente para treinar modelos de grande escala destinados a robôs, fábricas automatizadas e outros sistemas capazes de agir no mundo físico. Batizado de AI Factory, o projeto será construído pela Noetra em parceria com a NVIDIA e terá capacidade de datacenter de 140 MW. A obra está prevista para começar em abril de 2027, enquanto o início das operações foi marcado para junho de 2028.

A principal consequência não está apenas na quantidade de chips. A estrutura será a base computacional do FRONTia Project, programa apoiado pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, o METI, para desenvolver modelos multimodais voltados à chamada physical AI.

Nesse tipo de aplicação, a inteligência artificial não se limita a produzir texto ou imagens. Ela precisa interpretar câmeras, áudio, sensores, posição, movimento e condições físicas para controlar máquinas, veículos, braços robóticos ou equipamentos industriais.

A NVIDIA descreve o sistema como a primeira infraestrutura nacional de IA criada especificamente para aplicações de inteligência artificial física. A plataforma deverá atender setores como manufatura, logística, saúde e telecomunicações.

 

Um modelo japonês para texto, imagem, vídeo e áudio

A Noetra já iniciou a pesquisa de um modelo fundamental desenvolvido no Japão. A primeira etapa prevê um modelo de raciocínio com compreensão avançada do idioma japonês, capacidade lógica e interpretação de instruções.

O plano é evoluir até o ano fiscal de 2028 para um modelo “omnimodal”, capaz de processar de forma integrada texto, imagens, vídeo e áudio. Para 2030, a empresa pretende chegar ao que chama de Real-world Native AI, uma inteligência artificial preparada para compreender propriedades físicas e operar em ambientes reais. Esse cronograma ajuda a explicar por que a infraestrutura foi dimensionada com tanta antecedência. Modelos voltados à robótica precisam ser treinados não apenas com grandes volumes de conteúdo digital, mas também com dados industriais, simulações, registros de sensores e informações espaciais.

A AI Factory será montada com racks Vera Rubin NVL72, arquitetura NVIDIA DSX, rede Spectrum-X Ethernet e unidades BlueField. Segundo a NVIDIA, a expansão futura poderá permitir o treinamento de modelos com escala de trilhões de parâmetros.

O número de GPUs também coloca o projeto em outra categoria. Não se trata de um laboratório convencional ou de um cluster destinado a uma única empresa, mas de uma base computacional planejada para atender desenvolvedores, instituições e companhias japonesas.

Sony, Honda, SoftBank e NEC participam da iniciativa

A Noetra reúne como integrantes centrais Sony, SoftBank, NEC e Honda. Ao todo, a empresa recebeu investimentos de 44 companhias e organizações ligadas ao desenvolvimento de IA soberana, manufatura e adoção industrial de inteligência artificial.

Engenheiros cedidos por essas empresas trabalharão ao lado de pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Industrial Avançada do Japão, o AIST, e da desenvolvedora de IA Preferred Networks. A Honda pretende levar ao projeto sua experiência em fabricação, mobilidade e robótica. A Sony cita possíveis aplicações em entretenimento e semicondutores. A NEC contribuirá com conhecimento em desenvolvimento de modelos fundamentais e implantação de sistemas, enquanto a SoftBank fornecerá infraestrutura e outros recursos computacionais.

Há ainda uma preocupação estratégica. Ao treinar modelos dentro do país, as empresas participantes pretendem utilizar dados industriais japoneses sem depender integralmente de serviços ou modelos estrangeiros. A iniciativa também prevê disponibilizar gradualmente os modelos desenvolvidos a organizações locais.

Japão quer recuperar espaço na corrida da IA

O investimento faz parte de uma política industrial mais ampla. A estratégia japonesa para robótica com IA, divulgada em março de 2026, estabeleceu como meta conquistar mais de 30% do mercado mundial de robôs com inteligência artificial até 2040. A NVIDIA estima que esse mercado represente uma oportunidade de US$ 133 bilhões.

A aposta explora uma vantagem que o Japão ainda conserva: sua experiência em robótica, automação industrial, componentes eletrônicos e fabricação de alta precisão. O país perdeu participação na produção mundial de semicondutores desde a década de 1980, mas continua relevante em nichos de materiais e equipamentos usados pelas fabricantes de chips.

A AI Factory tenta ligar esses dois mundos. A NVIDIA fornece a capacidade de processamento; as empresas japonesas entram com dados industriais, conhecimento de fabricação e aplicações práticas. O projeto, porém, ainda está no estágio de planejamento. O valor do investimento não foi divulgado, e tanto o cronograma quanto a configuração final podem sofrer alterações até o início das operações.

Também não está claro como a capacidade computacional será dividida entre empresas privadas, universidades e institutos de pesquisa. A promessa oficial é tornar os pesos pré-treinados dos modelos amplamente disponíveis no Japão, mas as condições de acesso, licenciamento e uso comercial ainda não foram detalhadas. O dado mais revelador está no calendário: o modelo começará a ser desenvolvido antes que o megadatacenter fique pronto. Até junho de 2028, a Noetra pretende usar infraestrutura fornecida por operadores japoneses e migrar gradualmente para o novo sistema.

A AI Factory, portanto, não inaugura o projeto. Ela será o reforço computacional necessário para levá-lo da pesquisa experimental a sistemas capazes de comandar máquinas no mundo real.

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Editor-chefe no Hardware.com.br/GameVicio Aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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