A grande responsável por estabelecer todo um mercado e liderar de maneira incontestável por anos a fio passa a enfrentar uma sucessão de crises e tentativas de retomada, buscando restabelecer a confiança em meio a um caos completo de imagem. Essa poderia ser a sinopse de uma série sobre a Intel.
Uma das companhias mais importantes para o desenvolvimento do mercado de tecnologia, enfrenta novamente mais uma crise em sua era recente. Superior até a todo o problema de 2018 com a descoberta das falhas de segurança Meltdown e Spectre, que afetaram diretamente seus chips, ou até mesmo a lenta transição dos 14nm para os 10nm. Uma novela que se arrastou de 2016 a 2019.
Instabilidade nos chips e na imagem pública
Dessa vez é ainda mais severa porque toca diretamente num ponto que é uma marca histórica da companhia: a produção dos chips. Por se manter firme como uma das poucas IDMs (Integrated Device Manufacturer), isto é, administrando suas próprias plantas de produção, a Intel sempre se gabou de fazer seus chips “in house”. Cuidando diretamente e com afinco dos seus principais produtos que chegam ao grande público, terceirizando apenas uma pequena parte.
Toda essa tradição se vê agora com o seguinte posicionamento oficial da empresa sobre os problemas de instabilidade em relação as CPUs de 13ª e 14ª geração: a confirmação que alguns desses chips apresentaram falhas de fabricação, relacionadas à oxidação.
O consumidor é implacável
Embora essas falhas possam representar uma pequena parcela da produção em larga escala, o impacto na percepção do consumidor é devastador. O cliente não quer saber que isso pode fazer parte de uma parcela ínfima de todo o lote, similar ao que acontece, por exemplo, com falhas na bateria de algum smartphone. Esse tipo de situação não passa ilesa, ainda mais nos tempos de hoje, com a divulgação de informação em altíssima velocidade. É o suficiente para que muitos lamentem e saibam o que está acontecendo e tantos outros comemorem, já que torcer contra produtos e empresas parece ser a diversão de muita gente.
Pensando num olhar em que a concorrência é sempre bem-vinda, não é viável, sob nenhum aspecto, comemorar a má fase da Intel. As companhias costumam tentar maneiras se beneficiar (em termos de grana) da má fase ou da ausência de opções, principalmente cobrando mais caro por seus produtos. A Intel mesmo já esteve nessa posição.
Mas o fato é que a teoria do CAOS, no sentido de que “nada é tão ruim não possa piorar”, não poupou a Intel. A falha dos chips de 13ª e 14ª geração não poderão ser solucionadas com uma simples atualização de firmware. Unidades afetadas terão danos permanentes. A Intel também confirmou uma expansão de dois anos na garantia para esses chips.
Concorrência cada vez mais acirrada
O cliente afetado terá que acionar o RMA para conseguir um novo processador. Isso é suficiente para quebrar a relação de confiança entre cliente x empresa. Quantas vezes você já viu ou ouviu relatos de pessoas que tiveram um único problema com determinado produto de uma empresa dizendo que jamais comprariam novamente algo deles? É assim que funciona. A relação comercial, ao mesmo tempo que pode ser sólida e perene, pode desaparecer como grãos de areia no deserto.
A Intel está imersa num lamaçal formado por um conjunto de decisões que parecem evocar falhas de timing da companhia, como uma adaptação lenta ao boom da IA, transições lentas em termos tecnológicos, quando os principais players recorrem a produção totalmente terceirizada, as próprias mudanças do comportamento do mercado, em que a venda de computadores (setor importante para a Intel) é menor, além de perder a parceria com a Apple, fazendo com que sua antiga aliada se transformasse em sua concorrente no mercado de chips para computadores, aplicando com sucesso uma plataforma baseada em ARM que tem despertado interesse de outras companhias a seguir na mesma toada.
Numa entrevista no ano passado, Greg “Joz” Joswiak, Vice-Presidente Sênior de Marketing Mundial na Apple, explicou por que foi feita a transição para chips próprios, abandonando os da Intel: Os chips Intel ainda não oferecem o desempenho que precisamos”, afirmou.
Em termos de produção de chips, o caminho da Intel nos próximos anos seguirá dificílimo, uma concorrência jamais enfrentada pela empresa. Gigantes do mundo tech, como Google, Meta, Amazon, e Microsoft estão desenvolvendo seus próprios chips para o mercado de servidores. Reduzir a dependência da NVIDIA em torno dessas soluções dedicada para IA é uma meta que as Big Tech também agarraram, e a Intel está nesse fogo cruzado, além de também enfrentar a Qualcomm, que vai ainda com mais garra para o segmento dos AI Pcs, computadores que saem de fábrica com chips baseados em ARM.
Muitos analistas consideram Pat Gelsinger, no cargo de CEO da Intel desde 2021, como a pessoa correta para proporcionar mais uma retomada histórica da empresa. O veterano com mais de 30 anos de casa, respeitadíssimo na indústria, está realmente sendo testado a todo momento nesses últimos 3 anos. O que também está sendo testado é a paciência dos acionistas.
Em abril, as ações da Intel caíram 31%, pior desempenho mensal da empresa desde 2002. Na última sexta-feira (02) outra queda assustadora, 29%, após a confirmação da demissão de 15 mil funcionários. Parte das ações para tentar pôr os pés pra fora do lamaçal foi reduzir o quadro de funcionários. E os próximos meses não serão nada animadores. Gelsinger já projeta que o segundo semestre será mais difícil que o esperado.
“Nossos custos estão muito altos, nossas margens estão muito baixas. Precisamos de ações mais enérgicas para lidar com os dois – principalmente devido aos nossos resultados financeiros e perspectivas para o segundo semestre de 2024, que é mais difícil do que o esperado”, afirmou Pat Gelsinger.
É tempo até de reafirmar e se agarrar bastante na fé. O executivo citou Provérbios 4:25-26 em uma postagem na sua conta no X:
“Let your eyes look straight ahead; fix your gaze directly before you. Give careful thought to the paths for your feet and be steadfast in all your ways” Proverbs 4:25-26
— Pat Gelsinger (@PGelsinger) August 4, 2024
‘Olhe sempre para a frente, mantenha o olhar fixo no que está adiante de você. Veja bem por onde anda, e os seus passos serão seguros”.
Trabalho árduo para a retomada
O Olhar da Intel está fixo em tentar retomar sua credibilidade, aumentar o número de contratos para a fabricação de chips para outras empresas, investimento massivo na expansão de suas fábricas e reconquistar uma posição de protagonismo no mercado de semicondutores.
Como o própria Pat Gelsinger já declarou, os chips devem moldar geopolítica mais do que o petróleo nos próximos 50 anos.
Além de um compromisso interno, a recuperação da Intel é crucial para o governo dos EUA, cada vez mais comprometido em vencer qualquer disputa tecnológica que se apresente (principalmente em torno de IA), uma rivalidade que extrapola os chips e circuitos e chega no âmbito político.



