A obsessão de Elon Musk pelo X começou há mais de 20 anos

A obsessão de Elon Musk pelo X começou há mais de 20 anos

Provavelmente você, assim como muitas outras pessoas pelo mundo, está se perguntando qual a engenhosidade por trás da nova estratégia do Elon Musk de simplesmente trocar o logo do Twitter, e até mesmo alterar o nome da rede, que passará a se chamar X, tendo exatamente essa letra como logo.

Alguns consideram essa medida um disparate, uma total anomalia, considerando que o empresário resolveu matar uma marca extremamente consolidada no mercado, enquanto outra parcela entende a alteração como um processo natural, uma cisão, um ultimato ao que era o Twitter antes do Elon Musk, uma confirmação do que pode ser o futuro da plataforma. Provavelmente seguindo os moldes de um superapp, modelo que já é adotado com extremo sucesso pelo WeChat no oriente.

Independente da sua posição sobre essa decisão, há um fator curioso sobre essa mudança. A escolha do X não foi por acaso. Essa letra permeia a carreira de Elon Musk, desde suas primeiras grandes investidas como empreendedor.

O empresário badalado

Musk integra um hall altamente restrito de empresários que também são fenômenos midiáticos. Pense na quantidade de CEOs e empresários no mundo, agora tente listar aqueles que se transformaram em uma figura que transcende o cargo, vistos como celebridades pop. A lista é bem pequena.

No entanto, parte desse apelo midiático que muitos passaram a associar o Elon Musk tem relação com empreendimentos mais recentes em sua carreira, como o SpaceX (olha, o X ai), a Tesla, e até mesmo a compra do Twitter, mas a carreira do sul-africano tem diversas nuances e momentos que muitos sequer conhecem, ou nem lembram do seu envolvimento direto.

O  X da questão

A relação de Elon Musk com o X vem exatamente desses momentos, que estão mais associados a um passado distante.  A primeira vez que Musk resolveu adotar o X em seus empreendimentos foi na década de 90.

Em 1995, quando era estagiário no instituto de pesquisa Pinnacle, uma startup que estudava maneiras de usar ultracapacitores como fonte de combustível para veículos elétricos e híbridos, Musk pensava em abrir um “banco na internet”. Envolto ao hype crescente da web, o sul-africano entendia que a transição para compras online só aconteceria de fato quando os consumidores se sentissem realmente seguros, e ele queria prover isso.

Lembrando que, naquele momento, Musk já tinha outro empreendimento engatilhado, o primeiro grande acerto de sua carreira. Naquele ano ele fundou com seu irmão, Kimbal, e Greg Kouri, a Zip2, uma espécie de guia da cidade, um páginas amarelas voltado para a internet.

O empreendimento teve um enorme sucesso, tanto que foi vendida para a Compaq, em 1999, por US$ 307 milhões. Esse tiro certeiro também revelou o modo centralizador de Musk. Um ano antes da venda, uma possível fusão com o principal concorrente da Zip2, a CitySearch, estava acordada. No início, Musk foi a favor, depois ficou contra a fusão, e entrou num grande atrito com Rich Sorkin, CEO da Zip2 naquele momento.

Musk tentou instilar o conselho a expulsar Sorkin para que ele virasse o CEO. A jogada não deu certo. Elon Musk perdeu o título de presidente e Sorkin foi trocado, Derek Proudian entrou em seu lugar.

Em declaração ao livro “Elon Musk, como o CEO bilionário da SpaceX e da Tesla está mudando o mundo”, Produian afirma que Musk queria ser CEO, mas disse a ele o seguinte: “essa é a sua primeira empresa. Vamos encontrar um comprador e ganhar algum dinheiro, então você poderá abrir uma segunda, terceira e quarta empresa”.

E assim aconteceu. A Compaq comprou a Zip 2, e graças a participação de 7% que Musk tinha no negócio, ele embolsou US$ 22 milhões. Elon Musk era um multimilionário aos 27 anos.

E a tal empresa que traria mais confiança para compras online? Esse foi o segundo grande movimento da carreira de Musk. Ao invés de ficar sentado sobre a grana, ele seguiu aquele projeto que já dividia sua atenção quando ainda tinha a Zip2.

Em março do ano que o acordo com a Compaq foi firmado (1999), ele já tinha a ideia para o nome da sua startatp financeira: X.com. A empresa centralizaria compras digitais, serviços bancários online, investimentos, empréstimos e cartões de crédito. Um verdadeiro gerenciador de transações.

Além de ostentar uma generosa calvície (resolvida anos depois com um transplante), e uma McLaren F1, em entrevista à CNN naquele ano, Musk declarou que poderia comprar uma das ilhas das Bahamas e transformá-la em seu feudo pessoal, porém ele estava mais interessado em tentar construir e criar uma nova empresa, a X.com.

Musk investiu cerca de US$ 12 milhões, do valor que ele ganhou com a venda da Zip2 para a Compaq, na X.com. Enquanto muitos empreendimentos voltados para web foram simplesmente dizimados com o estouro da bolha pontocom, Musk novamente deu um tiro certeiro, e a X.com também emplacou. A fusão que não aconteceu na época da Zip2, veio na era X.com.

A traição, e pela retaguarda

A empresa de Musk uniu forças, em março de 2000, com outra startup de pagamentos, a Confinity, fundada por Max Levchin e Peter Thief (guarde bem esse nome). A Confinity tinha um serviço chamado PayPal.

Com a fusão, a X.com levantou mais de US$ 100 milhões com investidores. Era novamente Musk mostrando que tinha faro para os negócios, e novamente também era Musk tentando seguir com o controle de sua criação.

A animosidade entre Musk, os cofundadores da Confinity, e os demais envolvidos, começou já pelo nome. Elon Musk defendia que a empresa deveria seguir se chamando X.com, enquanto quase todo mundo achava que seria melhor PayPal.

As brigas também se estenderam sobre o design e até mesmo a infraestrutura tecnológica. Musk achava que seria melhor o Windows NT, e considerava a Microsoft um parceiro mais confiável, enquanto Levchin entendia que seria melhor um software de código aberto como o Linux.

A base de clientes ia crescendo, e os problemas internos impediam que a empresa atendesse corretamente aquele panorama. O números de fraudes aumentavam, enquanto a credibilidade do X.com ia caindo.

Em meio a tudo isso, Musk sofreu uma “emboscada corporativa”.  Um grupo de funcionários da empresa se reuniu num bar em Palo Alto e decidiram que iriam propor ao conselho a volta de Peter Thief como CEO.

Musk estava ausente naquele momento, em direção a lua de mel com sua esposa Justine. Quando soube da movimentação na X.com, pegou um voo de volta, mas as tratativas já estavam firmadas. O conselho decidiu a favor de Thief.

Mais um acordo certeiro

Em maio de 2000 o nome do site já aparecia como X Finance

E em outubro já estava como X PayPal

Em junho de 2001 chegou ao fim qualquer relação com X, a empresa virou definitivamente PayPal. A contragosto, Musk seguiu na empresa como consultor e continuou investindo nela. Em julho de 2002, o eBay ofereceu US$ 1,5 bilhão pelo PayPal. O conselho, incluindo Musk, concordaram, e o acordo foi fechado. Era novamente Musk perdendo o controle sobre a companhia, mas embolsando uma bela grana com um acordo matador (Elon Musk levou 250 milhões com o acordo).

O X voltou a aparecer na carreira de Musk com o investimento de US$ 100 milhões na empresa aeroespacial, SpaceX, em 2001. Um dos modelos mais marcantes da história da Tesla, outro empreendimento na vida do sul-africano, também leva o X, o Model X.

O feudo pessoal nas Bahamas

Com a compra de 100% do Twitter, oficializada em outubro do ano passado, e a decisão de fechar o capital da empresa, Musk pôde finalmente colocar em prática todas as suas decisões e anseios, numa empresa que hoje é basicamente seu feudo pessoal nas Bahamas”.

Será que vai dar certo essa transição de Twitter para X? E uma mudança para um modelo de superapp? Vamos aguardar. 

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Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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