No calor da jornada rumo à União Europeia, a Albânia lançou mão de uma proposta no mínimo inusitada: colocar a inteligência artificial à frente de ministérios. Essa ideia foi expressa pelo primeiro‑ministro Edi Rama em julho, durante um evento sobre digitalização em Berat.
Segundo ele, a IA poderia ser o integrante mais eficiente do governo, “livre de nepotismo e conflitos de interesse” — e até sugeriu que desenvolvedores locais criem um modelo capaz de ser “eleito” para exercer o cargo de ministro, pavimentando o caminho para um governo inteiro , ministros e até premiê, formado por algoritmos.
A declaração, ainda que sem qualquer cronograma oficial ou base legislativa, rapidamente ganhou manchetes internacionais. Não por acaso: a Albânia atravessa há três décadas um histórico de corrupção que já levou ex-primeiros-ministros, como Ilir Meta e Sali Berisha, ao centro de escândalos judiciais. Berisha, inclusive, enfrenta desde julho um julgamento por favorecimento imobiliário a familiares.
Entre utopia e pragmatismo
Se um governo digital completo ainda soa distante, a aplicação prática da IA já faz parte da rotina do Estado albanês. O governo tem usado algoritmos para monitorar compras públicas, processos tributários e operações alfandegárias em tempo real — uma exigência de Bruxelas como parte da agenda de adesão à União Europeia.
Além disso, drones e satélites controlados por IA fiscalizam obras irregulares, ocupações ilegais de praias e até plantações clandestinas de cannabis.
Essa digitalização crescente se insere na estratégia batizada de “Albania 2030”, uma visão de futuro que pretende modernizar a administração pública e alinhar o país às exigências da UE. Rama apresenta a IA não apenas como uma ferramenta tecnológica, mas como um sinal de ruptura diante de um sistema político marcado por clientelismo e corrupção.
Dinheiro e estratégia para acelerar
Não se trata apenas de discurso. Em 2024, a Albânia firmou um contrato com a consultoria francesa Inetum para desenhar um roadmap nacional de inteligência artificial com viés sustentável — o chamado green AI. O plano prevê uma “fábrica de IA”, hubs de dados voltados a turismo e mobilidade, além de centros de dados verdes para reduzir o impacto energético. A fase de implementação começou em meados de 2025 e já está em andamento.
No mesmo período, o país anunciou um investimento de € 8,8 milhões na Machine Thinking Lab, startup criada por Mira Murati, ex-CTO da OpenAI e uma das figuras mais influentes do setor. O objetivo é transformar a Albânia em um polo de inovação na região dos Bálcãs, reforçando a narrativa de que o país não apenas consome tecnologia, mas também ajuda a desenvolvê-la.
Pressão europeia e carta política
Essa corrida digital, porém, não se explica apenas pela ambição tecnológica. Ela está diretamente ligada ao maior desafio político da Albânia: convencer a União Europeia de que é capaz de se livrar do estigma da corrupção sistêmica. Para Bruxelas, avanços sólidos em transparência e Estado de direito são condições obrigatórias para o ingresso do país no bloco até 2030.
Nesse contexto, a provocação de Rama sobre ministérios comandados por IA funciona como uma carta política de alto impacto. Não significa que veremos, nos próximos anos, ministros substituídos por softwares, mas a mensagem é clara: a Albânia está disposta a usar tecnologia como vitrine de mudança institucional.
