Se você estava a planear montar um computador gamer de última geração, fazer um upgrade de memória RAM ou simplesmente trocar o seu smartphone em 2026, é bom preparar o bolso. O cenário tributário brasileiro para o setor de tecnologia, que já nunca foi amigável, acaba de ficar consideravelmente mais hostil.
O Ministério da Fazenda confirmou que espera arrecadar expressivos R$ 14 bilhões a mais neste ano graças ao aumento da tarifa de importação incidente sobre mais de mil produtos. A medida engloba bens de capital, telecomunicações e bens de informática. Na prática, isso atinge diversos produtos, incluindo processadores (CPUs), placas de vídeo (GPUs), placas-mãe, memórias e, claro, smartphones.
A justificativa do Governo: “Proteger a indústria nacional”
De acordo com os dados oficiais divulgados pelo governo, a elevação das alíquotas com um objetivo claro: conter a invasão estrangeira e proteger a indústria brasileira. O Ministério da Fazenda argumenta que as importações desses bens cresceram 33,4% desde 2022, atingindo uma penetração de mais de 45% no consumo nacional.
Na visão da equipa econômica, este volume de entrada de produtos importados estaria ameaçando “colapsar os elos da cadeia produtiva e provocar regressões produtivas e tecnológicas no país”. O governo defende que a nova taxação reequilibra os preços, ajudando a indústria local a manter-se competitiva face aos produtos vindos dos Estados Unidos, China, Singapura e França. Além disso, o montante bilionário arrecadado é peça-chave para a tentativa do governo federal de cumprir a sua meta de superávit nas contas públicas em 2026.
A realidade: Uma “indústria” inexistente
Embora o discurso protecionista utilizado, a narrativa desmorona quando olhamos para as prateleiras de hardware de alto desempenho.
A comunidade Geek e os entusiastas de PC conhecem bem esta dor: o Brasil não fabrica silício avançado. Não existe uma “indústria nacional” de processadores capazes de rivalizar com a AMD ou com a Intel. Não temos fábricas locais montando wafers de memória GDDR6 ou chips gráficos para concorrer com a NVIDIA. Quando o governo aumenta o imposto de importação de uma RTX 5080 ou de um Ryzen 9, ele não está incentivando o consumidor a comprar um equivalente nacional — porque esse produto simplesmente não existe.
O resultado não é a substituição do produto estrangeiro pelo nacional, mas sim a pura e simples penalização do consumidor e do profissional de tecnologia, que se vê obrigado a pagar muito mais caro pela mesma ferramenta de trabalho ou entretenimento.
O efeito cascata e o impacto na inflação
O setor de smartphones também foi duramente atingido. Embora marcas como Samsung e Motorola tenham linhas de montagem no Brasil (utilizando componentes importados via incentivos da Zona Franca de Manaus), aparelhos de nicho ou que vêm totalmente montados de fora sofrerão reajustes imediatos.
O impacto real é muito pior do apenas a alíquota da taxação. O sistema tributário brasileiro funciona num efeito cascata. O imposto de importação entra na base de cálculo de outros tributos, como o IPI, PIS, Cofins e o famigerado ICMS estadual. Quando a alíquota base de importação sobe na alfândega, o preço final na prateleira do varejo multiplica-se exponencialmente, asfixiando o poder de compra do brasileiro.