Quem viveu a internet discada provavelmente se lembra de uma cena parecida: você começava a baixar um arquivo, olhava para a janela de progresso e encontrava uma previsão completamente absurda. “Tempo restante: 39 anos”, como aparece no meme abaixo.
A imagem que circula pela internet parece ter sido modificada, a velocidade e o tamanho do arquivo mostrados na tela não resultariam em 39 anos de espera. Ainda assim, o meme recupera uma experiência bastante real daquela época: as estimativas de download podiam enlouquecer, saltando de minutos para horas, dias ou números ainda mais absurdos quando a velocidade da conexão despencava. E era justamente isso que tornava aquela pequena caixa de “tempo restante” tão pouco confiável.
Não significava, claro, que o computador realmente acreditava que aquele download terminaria décadas depois. Era consequência de uma conexão cuja velocidade podia variar bastante, e de uma estimativa calculada a partir do ritmo de transferência naquele momento.
Por que o tempo restante mudava tanto?
Programas de download calculavam aproximadamente quanto faltava para terminar usando informações simples: tamanho do arquivo, quantidade já recebida e velocidade de transferência. O próprio manual do GetRight descrevia o campo “Time Remaining” como uma indicação do tempo aproximado restante, acompanhada da velocidade atual da transferência. Se a velocidade despencasse momentaneamente, a estimativa disparava. Se voltasse a subir, aqueles dias ou anos podiam desaparecer tão rapidamente quanto surgiram.
Isso era especialmente perceptível em uma conexão discada. O padrão V.90, aprovado em 1998, previa até 56.000 bit/s no sentido do provedor para o usuário e até 33.600 bit/s no sentido contrário. Eram valores máximos da tecnologia, não uma garantia de que toda conexão trabalharia nessa velocidade.
Na prática, alguns megabytes já eram suficientes para transformar um download em um martírio.
E foi aí que os “aceleradores de download” ficaram famosos
A lentidão criou também um pequeno mercado de programas que prometiam aproveitar melhor cada minuto conectado. Quem viveu aquela época pode se lembrar de nomes como GetRight, FlashGet e FMDownloader, entre tantos gerenciadores que circulavam pelos computadores brasileiros.
GetRight e FlashGet usavam recursos como dividir um arquivo em partes, abrir múltiplas conexões e, em alguns casos, procurar servidores espelho. Isso podia ajudar quando o servidor não entregava toda a velocidade disponível ou tornar o download mais resistente a interrupções. Não fazia milagre: um modem de 56 Kbps continuava limitado pela conexão telefônica.
Para quem passava horas baixando um arquivo, porém, havia uma função ainda mais preciosa: retomar o download do ponto onde ele havia parado, quando o servidor permitia. Era a diferença entre continuar nos 87% ou voltar para o zero depois de uma queda na conexão.
A palavra “acelerador” também virou argumento dos próprios provedores de internet discada. Serviços como Click21 e POP ofereciam aceleradores voltados principalmente à navegação. A lógica era diferente da usada pelos gerenciadores de download: em vez de transformar magicamente uma linha de 56 Kbps em banda larga, o conteúdo das páginas passava por servidores intermediários e podia ser comprimido antes de chegar ao computador.
Imagens podiam chegar com qualidade reduzida e outros elementos das páginas eram comprimidos para transmitir menos dados. Em uma época de sites majoritariamente formados por HTML, texto e imagens, isso podia fazer uma página aparecer mais rapidamente na tela. O POP chegou a anunciar que seu acelerador deixava a navegação discada até 19 vezes mais rápida.
O ganho vinha principalmente da redução da quantidade de dados que precisava atravessar aquela conexão. Para baixar um ZIP, MP3, programa ou outro arquivo que não pudesse ser reduzido dessa maneira, o velho limite da linha telefônica continuava lá.
O pior não eram os “39 anos”. Era perder tudo no final
Hoje é fácil esquecer como uma interrupção podia ser desastrosa. Para continuar um arquivo de onde a transferência parou, servidor e programa precisam permitir a obtenção apenas da parte que falta. No HTTP, isso é feito por meio de requisições de intervalos de bytes, mecanismo que permite justamente pausar e retomar downloads. Se o servidor não oferecer esse suporte, essa retomada não era permitida.
Gerenciadores de download transformaram essa capacidade em um enorme atrativo: fechar o programa, perder a conexão ou deixar o computador desligado não precisava necessariamente significar começar tudo novamente.
Mesmo assim, havia outro pesadelo: o arquivo terminar e estar corrompido. Até downloads parciais retomados incorretamente podem resultar em um arquivo inválido se o conteúdo no servidor mudar entre uma transferência e outra, um problema que protocolos modernos possuem mecanismos para evitar.
Depois de horas esperando, descobrir que o ZIP não abria ou que era preciso baixar tudo novamente doía mais do que qualquer estimativa de “39 anos”.
Você viveu essa era da internet discada? Já se irritou muito baixando alguma coisa? E vou além: você lembra o primeiro “grande” arquivo que baixou pela internet? Vou iniciar essa discussão citando o meu primeiro download: Street Chaves. Lembro que vi o jogo sendo comentado em uma matéria de um jornal impresso (acho que era o jornal “O Dia”), fui voando pra casa baixar.