Instagram lança vídeos de até 90 minutos, mas falta de monetização desanima criadores
O Instagram Features chegou com um argumento de venda simples: vídeos horizontais de até 90 minutos, voltados para atrair criadores do YouTube para dentro do ecossistema da Meta. O problema é que o formato foi anunciado sem nenhuma resposta clara sobre como esses criadores serão pagos, e a reação das comunidades de criadores de conteúdo foi rápida e furiosa, no Threads e no Reddit.
O formato está sendo testado por um grupo restrito de criadores nos Estados Unidos e no Brasil. Diferente dos Reels, que têm limite de 20 minutos e formato vertical, o Features aposta no modo paisagem, o que o torna compatível com os aplicativos de TV do Instagram, parte de uma estratégia da Meta de disputar atenção em múltiplas telas. Até aí, tudo faz sentido do ponto de vista estratégico da plataforma. O problema começa quando os criadores se perguntaram: “o que ganho com isso?”
O criador Sidney Raskind, conhecido como Sidneyraz, resumiu o sentimento geral em um post no Threads: “Vocês sabem como isso funciona e sabem como funciona a receita de anúncios, e sabem que criadores de conteúdo longo precisam de receita publicitária para sobreviver, mas estão pedindo que todos façam upload de conteúdo longo de graça só para existir na sua plataforma. Isso é insano.” O criador M. Brandon Lee, do canal tech This is Tech Today, foi na mesma direção: sem compartilhamento de receita publicitária e sem possibilidade de inserir links de afiliados sem pagar à plataforma, o incentivo para migrar conteúdo para o Features simplesmente não existe.
O chefe do Instagram, Adam Mosseri, respondeu às críticas em um post no Threads reconhecendo que “a economia importa muito” e que a empresa está “explorando múltiplas opções para ajudar criadores de conteúdo longo a serem pagos”. O que essas opções serão, não foi especificado. Em um podcast com Samir Chaudry e Colin Rosenblum, Mosseri foi mais explícito sobre por que propagandas estão fora de cogitação por enquanto: seriam “problemáticos do ponto de vista da experiência do usuário“. Sobre escalar o programa de pagamento por performance já existente, a justificativa foi ainda mais direta: a Meta gasta mais do que arrecada com ele.
A lógica da Meta
A fala mais reveladora de Mosseri veio nesse mesmo podcast. Segundo ele, existem três formas de um criador ser pago: pela plataforma, pelos fãs ou por marcas. No Instagram, o modelo dominante é o das marcas, e Mosseri acrescentou que “criadores não produzem muito mais quando pagamos, em comparação com o que já criam“. É uma declaração que expõe com clareza a equação da Meta: se o criador publica de qualquer jeito para manter alcance, por que a plataforma pagaria por isso?
O contexto agrava a situação. A Meta encerrou o modelo de compartilhamento de receita publicitária do Facebook para vídeos em 2024, migrando para um sistema baseado em performance. Criadores que antes relatavam bons ganhos com esse modelo viram a torneira fechar. Agora, o Instagram apresenta um novo formato de vídeo longo sem monetização direta, e o conteúdo publicado pode ser usado para treinar os modelos de IA da empresa, conforme a política de privacidade da Meta. O YouTube também usa vídeos para treinar IA, mas ao menos remunera os criadores pelo conteúdo publicado.
O que está em jogo além do dinheiro
O Features revela uma tensão estrutural que a Meta ainda não resolveu: a plataforma quer o inventário de vídeo longo do YouTube, com todo o tempo de visualização e os dados de comportamento que ele gera, mas não está disposta a replicar o modelo econômico que tornou o YouTube a escolha padrão de quem cria conteúdo profissionalmente.
O alcance do Instagram é real e relevante, mas alcance sem receita é um argumento que só funciona para quem ainda está construindo audiência. Criadores consolidados, que já têm canal no YouTube e vivem da plataforma do Google, não têm motivo para migrar horas de produção para um formato sem retorno financeiro direto.
Fonte: The Verge
Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
Newsletter do Hardware
Tecnologia, games, IA e internet: nossa seleção de conteúdo direto no seu e-mail.
Inscrição feita!As próximas edições chegam no seu e-mail.

