Criminosos estão usando inteligência artificial para vestir golpes de saúde com jaleco branco e selo oficial, surfando na explosão de demanda por remédios para emagrecimento à base de GLP-1, como o Ozempic.
Em novas campanhas detectadas por pesquisadores de cibersegurança da Check Point, grupos organizados criam sites, anúncios e perfis em redes sociais que imitam órgãos públicos de saúde da Europa e clínicas reais para vender versões falsificadas desses medicamentos. A fraude não fica no campo do “golpe online clássico”: quem cai na armadilha acaba injetando ou ingerindo substâncias não aprovadas, sem controle, com risco real para a saúde.
Criminosos clonam identidade de órgãos de saúde com IA
As campanhas observadas reproduzem logotipos, certificados, formulários e linguagem visual de instituições como o NHS (serviço nacional de saúde do Reino Unido) e agências reguladoras de países como Espanha, França, Alemanha e Itália. A identidade visual é copiada com precisão, em páginas “institucionais” que prometem acesso rápido a canetas de emagrecimento e comprimidos supostamente aprovados, com entrega direta ao consumidor. Em muitos casos, golpistas fabricam “profissionais do NHS” e de outros sistemas, com fotos geradas por IA, crachás e selos que passam credibilidade à primeira vista.
Essa estrutura visual é reforçada por textos que simulam laudos, aprovações regulatórias e até números de lotes, criando a sensação de que o usuário está comprando em um canal oficial ou parceiro autorizado. Para quem chega a essas páginas a partir de anúncios em redes sociais ou buscas rápidas, a fronteira entre um site fraudulento e um serviço legítimo fica praticamente invisível.
Deepfakes vendem “milagre” de emagrecimento
O passo seguinte do golpe é dar rosto e voz a essa promessa: criminosos criam depoimentos em vídeo com uso de IA, em que supostos médicos, farmacêuticos e pacientes defendem o uso dos produtos falsos. São deepfakes e avatares sintéticos que olham para a câmera, falam em tom calmo e usam termos médicos para vender a ideia de um tratamento seguro, rápido e “mais acessível” que o canal oficial. Junto disso, aparecem fotos de “antes e depois em 7 dias”, também geradas ou manipuladas, com transformações corporais irreais.
Nos bastidores, a IA generativa permite criar dezenas de versões desses vídeos e imagens em pouco tempo, com variações de idioma, sotaque e cenário. O objetivo é simples: testar o que converte melhor em plataformas como Instagram, TikTok, YouTube e anúncios pagos, até encontrar a combinação que mais leva vítimas ao carrinho de compra.
Anvisa aperta regras, mas falsificação cresce no entorno
Enquanto golpes digitais se sofisticam, o Brasil enfrenta sua própria batalha com o uso e o desvio de remédios à base de GLP-1. A Anvisa já emitiu alertas formais sobre falsificações de Ozempic no país, após a fabricante Novo Nordisk relatar canetas adulteradas com insulina em embalagens rotuladas como semaglutida. Em casos recentes, pacientes foram internados em estado grave depois de usar produtos falsos que derrubaram perigosamente a glicose no sangue.
Além disso, a agência proibiu a manipulação de semaglutida em farmácias e reforçou que não vende medicamentos nem autoriza comércio direto ao consumidor, exigindo prescrição em duas vias e controle rigoroso para produtos como Ozempic, Wegovy e similares. O endurecimento das regras é uma tentativa de conter o uso indevido e reduzir brechas que alimentam o mercado paralelo, mas também empurra parte do público para caminhos informais — onde o crime digital se aproveita.
Infraestrutura de fraude opera como indústria
A investigação de especialistas em cibersegurança mostra que essas campanhas médicas fraudulentas não são ações isoladas, e sim uma rede coordenada com cara de indústria. Uma das evidências é a infraestrutura compartilhada: diversos sites que se passam por clínicas, farmácias e programas governamentais de saúde dividem IPs, hospedagem e padrões de registro de domínio, muitas vezes em países com fiscalização digital mais frágil. Lotes de páginas entram no ar quase ao mesmo tempo, sinal de automação e uso de ferramentas para criação em massa.
O código-fonte dessas páginas revela layouts repetidos, sistemas de pagamento idênticos e textos reaproveitados, sugerindo o uso de kits prontos de fraude. Em mercados clandestinos, esses kits incluem modelos de site, imagens, scripts de automação e traduções, permitindo que até quem tem pouca experiência técnica monte uma “clínica” falsa em poucos cliques. É o mesmo modelo de SaaS, só que aplicado ao crime: quem compra o pacote recebe tudo para começar a vender remédios piratas globalmente.
Risco vai muito além do prejuízo financeiro
Na prática, o golpe une dois tipos de dano: o digital e o físico. Primeiro, a vítima é convencida a pagar caro por algo que acredita ser um medicamento original, muitas vezes desativando alarmes internos porque vê selos oficiais e supostos médicos endossando a compra. Depois, a consequência mais grave: o produto falsificado pode conter desde substâncias inertes até compostos ativos errados, como insulina em canetas que deveriam conter semaglutida.
Casos registrados no Brasil mostram pacientes que acabaram em UTI após aplicarem falsas canetas de Ozempic, com quadros de hipoglicemia severa e risco de morte. Em outros, pessoas com diabetes ou obesidade trocam um tratamento legítimo, acompanhado por médico, por promessas milagrosas vistas em vídeos e anúncios manipulados, atrasando o cuidado adequado. O golpe, assim, se torna também uma forma de desinformação em saúde, corroendo a confiança em sistemas oficiais e na medicina baseada em evidências.
