O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), fez duras críticas às big techs e ao uso das redes sociais para “atacar os pilares da democracia” durante um discurso nesta segunda-feira (24), em São Paulo.
A fala ocorre em um momento de crescente tensão entre as gigantes da tecnologia e as decisões judiciais do magistrado. Nos Estados Unidos, Moraes é alvo de ações judiciais movidas pela plataforma de vídeos Rumble e pela Trump Media & Technology Group, empresa do presidente Donald Trump.
O que são as Big Techs?
Em termos conceituais, Big Tech é o termo aplicado utilizado para se referir às maiores empresas de tecnologias do mundo. Essas empresas compartilham algumas características:
- Domínio de mercado
- Forte apelo para o quesito inovação
- Apoio de negócios cada vez mais centrado no uso de dados.
Além do core business, como, por exemplo, as pesquisas com o Google, as Big Techs também são conhecidas por atuar em uma variedade de outros negócios capazes de impactar seus ativos ou expandir o mercado.
Como pontua este paper da FCA (Financial Conduct Authority), as Big Techs atuam como neo-conglomerados. “Grandes empresas de tecnologia que muitas vezes operam com ecossistemas diversificados em várias linhas de negócios, nem sempre limitados a pesquisa, publicidade, comércio eletrônico, mídia social, realidade virtual, nuvem e infraestrutura.“
As Big Techs e a política global
Sem citar diretamente os processos movidos contra ele, Moraes condenou o que chamou de “populismo digital extremista” e apontou que os algoritmos têm sido usados para desestabilizar democracias, incluindo o Brasil.
Moraes destacou que as grandes empresas de tecnologia não são neutras e operam com interesses econômicos e políticos. “As big techs não são enviadas de Deus, como alguns querem, não são neutras. São grupos econômicos que querem dominar a economia e a política mundial, ignorando fronteiras, a soberania nacional de cada país e as legislações para terem poder e lucro”, afirmou.
Ele também acusou essas empresas de distorcer conceitos como democracia e liberdade. “Liberdade para fazerem o que querem, porque são os maiores grupos econômicos do mundo”, criticou. “Democracia é um negócio, dizem as big techs. Porque tudo para elas é dinheiro, é negócio: ‘Assim como vendemos carros, vamos vender candidatos’.”
“No mundo todo, as big techs foram usadas para atacar os três pilares da democracia”, acrescentou o ministro. Ele destacou um padrão global em que certos grupos alegam que há fraudes eleitorais sempre que perdem, usando essa narrativa para justificar tentativas de tomada de poder. “Esse é o discurso: ‘Se eu perder, não vale, só tem democracia se eu ganhar’.”
A exploração do ressentimento
Moraes apontou que determinados grupos políticos exploram ressentimentos sociais e econômicos para amplificar discursos de ódio e polarização. “Não foram as big techs que geraram esse sentimento de rancor, mas elas souberam captar e transformar as redes sociais em um mecanismo de doutrinação em massa”, afirmou.
Ele também ironizou críticas que o rotulam como “comunista”, citando como exemplo a compra de uma “blusa vermelha” e a maneira como os algoritmos rastreiam e sugerem produtos com base no comportamento online dos usuários.
A manutenção da resiliência
Apesar dos desafios, Moraes concluiu seu discurso enfatizando a resistência das instituições democráticas no Brasil. Ele destacou que, mesmo diante de crises políticas, a Constituição de 1988 permaneceu firme. “Nós podemos criticar a nossa Constituição à vontade, mas, com todas as chuvas e trovoadas ao longo desses quase 37 anos, ela aguentou dois impeachments e uma tentativa de golpe”, afirmou.
Para o ministro, as instituições devem continuar atuando como barreiras contra extremismos e tentativas de subverter a ordem democrática. “O que o Brasil demonstrou foi a resiliência das instituições”, finalizou.
