Você sabia que a AMD já teve a chance de comprar a NVIDIA?

Em julho de 2006, foi oficializado que a AMD adquiriu a canadense ATI. Movimento que colocou a gigante norte-americana definitivamente no mercado de chips gráficos.

A aquisição, firmada por US$ 5,4 bilhões, tinha como objetivo, segundo comunicado da AMD, “usar o conhecimento compartilhado de ambas as empresas para criar inovações de produtos e soluções de plataformas mais integradas”. Dessa fusão, surgiu o que conhecemos hoje como placas Radeon. E o nome ATI sumiu em 2010.

Segundo Hemant Mohapatra, ex-engenheiro da AMD, o rumo dessa prosa poderia ter sido totalmente diferente. A ATI não foi a primeira escolha da AMD ao pensar numa aquisição para investir no mercado de chips gráficos. A fusão poderia ter sido com a NVIDIA. Isso mesmo. Imagine como seria o mundo se a NVIDIA tivesse sido comprada pela AMD.

 

Mohapatra contou em um post em sua conta no X, que a negociação entre as duas empresas aconteceu por volta de meados dos anos 2000.

Xbox de um lado e a corrida do Gigahertz do outro

Em 2000, a NVIDIA estava investindo na sua série de placas GeForce 2, e também circulavam as informações de que a companhia estava colaborando com a Microsoft no hardware do primeiro Xbox. O que se confirmou, já que o console utiliza um chip gráfico da NVIDIA, o MCPX3, de 233 MHz, com suporte ao DirectX 8. Analisamos em detalhes o hardware da primeira geração do Xbox, confira aqui.

Og Xbox, Adding a (10x25x25mm) Heatsink to the nVIDIA MCPX X3 Chip to make it run cooler.
byu/iVirtualZero inoriginalxbox

 

Já com a AMD, um fato notável que entrou para a história dos processadores. Naquele ano, a empresa colocou no mercado o primeiro processador com clock de 1 GHz, chip que ficou conhecido como Athlon 1000, A AMD comemorou o fato dizendo que queria liderar a era dos gigahertz.

Imagem do processador Athlon 1000, primeiro modelo a alcançar 1 GHz
Athlon 1000, em slot-A

 

A Intel não deixou barato, desmentiu a AMD sobre essa honraria de ter lançado o primeiro chip de 1 GHz. A empresa disse que havia enviado aos seus parceiros comerciais o Pentium III de 1 GHz uma semana antes da AMD apregoar para si o título de campeã na corrida dos gigahertz.  Tínhamos aí a “guerra de narrativas”. O fato, do ponto de vista tecnológico, é que os processadores estavam ficando melhores para o consumidor.

Mirando nas GPUs

Em meio a tudo isso, pintou a possibilidade da AMD adquirir a NVIDIA. Mohapatra conta em sua thread que, naquele momento, e nos anos seguintes, com a aquisição da ATi, esse movimento da AMD não fazia muito sentido pra ele, já que o mercado estava voltado para CPU e servidores, e que GPUs ainda eram um nicho.

No entanto, alguém na AMD teve esse olhar para um panorama em que a GPU poderia se transformar em algo realmente importante para o futuro.

Quem também defendia suas convicções, e não estava disposto a sair do trilho, em termos da sua visão do futuro do mercado, era Jensen Huang, confudador e CEO da NVIDIA. O acordo com a AMD em 2000 não aconteceu por um detalhe de gestão.

Huang só aceitaria a fusão se ele fosse a pessoa que comandaria a empresa, tomando o lugar de Hector Ruiz, que assumiu o posto de CEO da AMD em 2002. Ruiz era chefe da divisão de semicondutores da Motorola e migrou para a AMD em 2000, dois anos depois já era CEO, posto que ocupou até 2008.

Ruiz chegou a ser rebaixado. Dirk Meyer, que era presidente e COO da AMD, assumiu o cargo de CEO em 2008, na missão de contornar a gigantesca crise que a empresa enfrentava, acumulando uma sucessão de trimestres no vermelho. Ruiz permaneceu apenas com uma função diretiva. Naquele momento, uma possível aquisição da NVIDIA já estava descartado há muito tempo, e a AMD já tinha comprado a ATI.

A crise e o renascimento

Enquanto a AMD já trabalhava com a ATI no desenvolvimento de uma APU, solução que combinava CPU + GPU, algumas “eras” importantes de mercado foram perdidas, O ex-engenheiro da AMD menciona que a gigante dos processadores perde a onda do iPhone, a migração do mercado dos chips de desktop para notebooks, a onda dos tablets e até mesmo a dos celulares.

As falhas de timing de conseguir “surfar” nas ondas do mercado penalizaram duramente a AMD, os investimentos da empresa também eram questionados publicamente. A aquisição da ATI em 2006 por US$ 5,4 bilhões foi classificada por diversos analistas como um valor alto demais. As ações da AMD chegaram a despencar na época do anúncio.

 AMD já teve a chance de comprar a NVIDIA

Nos bastidores, a Intel também usava de sua posição dominante para infligir ainda mais dano à AMD. Segundo Fran Barton, ex-CFO da AMD, a Intel utilizava algumas artimanhas, como pagar as integradoras de PCs, como Toshiba e Hitachi, para que elas não utilizassem chips da AMD.

Atualmente, um panorama de tentar frear e prejudicar diretamente os concorrentes também é atrelado à NVIDIA, só que no segmento de IA. Em declaração ao Wall Street Journal, Johnathan Ross, cofundador e CEO da QroQ, desenvolvedora de chips de IA, afirmou que as empresas estão receosas em buscar hardwares alternativos para seus sistemas de IA, temendo que a NVIDIA possa seguir com alguma retaliação, atrasando o envio de produtos que já foram encomendados.

Scott Herkelman, ex-chefe da divisão da AMD Radeon, comentando o que Ross divulgou, afirmou que esse tipo de coisa acontece mais do que as pessoas pensam, e que a NVIDIA faz isso com clientes do setor de data centers, OEMs, parceiros para o lançamento de placas com suas GPUs, (AIB), imprensa e revendedores.

O panorama catastrófico em que a AMD estava inserida foi potencializado com a crise de 2008. Momento em que a AMD foi atropelada de forma avassaladora. “Depois disso, a AMD basicamente perdeu o mercado para praticamente todo mundo: Intel, ARM, Nvidia”, relembra Mohapatra.

Salva pelo consoles

Foto do PlayStation 4

Se lá em 2001, a colaboração da NVIDIA no projeto da Microsoft de lançar um console foi um passo importante em termos de visibilidade para a empresa de Huang, podemos também colocar que os console foram importantes para AMD, para sua sobrevivência.

Segundo Renato Fragale, que ocupa atualmente o posto de diretor sênior de negócios para consumo e jogos da AMD, e tem mais de 22 anos de casa, a aliança com a Sony, para o fornecimento de chips para o PS4, ajudou a salvar a AMD da falência.

Fato corroborado por Phil Park, arquiteto da AMD. Em declaração na sua conta no X, Park afirmou que a “crise financeira global de 2008 colocou-nos (referindo-se a AMD) numa posição incrivelmente má, especialmente depois da recuperação da Intel com Merom/Conroe/Woodcrest e Nehalem. Vendemos vários IPs como Adreno para arrecadar dinheiro. A maioria de nós sofreu cortes temporários nos salários”.

O buraco em que a AMD se meteu parecia não ter fundo. Em 2011, a empresa viu sua receita encolher 75%, e no ano seguinte chegou a entrar com um plano de reestruturação. Em meio a esse caos, surge o acordo com a Sony, para o fornecimento do chip personalizado para o PS4, e não somente ele. A AMD também foi a responsável pela CPU/GPU do Xbox One, concorrente direto do modelo da gigante japonesa.

Esse gás permitiu que a AMD renascesse e tivesse condição de lançar um dos produtos mais bem sucedidos e elogiados de sua história, os processadores Ryzen, que chegaram ao mercado em 2017.

AMD já teve a chance de comprar a NVIDIA

Valores de liderança

Foto de Jensen Huang, CEO da NVIDIA
Jensen Huang, cofundador e CEO da NVIDIA

O post do ex-engenheiro da AMD, relembrando essa quase aliança entre AMD e NVIDIA, vem em meio ao crescimento exponencial que a gigante das GPUs vem acumulando com a consolidação do mercado de IA. Coroando o chip gráfico como um elemento fundamental que possibilitou colocar de pé produtos de extremo sucesso, como o ChatGPT, da OpenAI.

A NVIDIA hoje vale muito mais que a AMD, e do que a própria Intel. Mohapatra diz que a NVIDIA se manteve firme no mercado e a IA acabou chegando e os colocando no patamar em que estão hoje.

“Acreditar em sua visão e uma busca incansável de seus objetivos é uma habilidade altamente subestimada. A maioria desiste, Jensen apenas continuou se esforçando mais”, disse o ex-engenheiro da AMD.

Em 2011, durante um bate-papo com estudantes de Stanford, o CEO da NVIDIA condensou sua visão de perseverança da seguinte maneira:

“Espero que, se eu deixar algo para vocês, seja que dinheiro é a única razão singular para não iniciar uma empresa, porque iniciar uma empresa tem uma probabilidade muito baixa de sucesso. E então, se essa for sua razão para fazê-lo, você provavelmente se arrependerá da experiência. Você deve construir uma empresa porque acredita na sua ideia, é apaixonado por ela e quer construir algo grande…Você tem que ter uma perspectiva única e sentir-se realmente forte sobre ela, para estar disposto a perseverar a quase qualquer desafio para torná-la realidade.

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Editor-chefe no Hardware.com.br/GameVicio Aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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