A Comissão Europeia deu sua resposta ao movimento Stop Killing Games no último dia 16: não. O órgão anunciou que não levará adiante a proposta que obrigaria estúdios a manter videogames jogáveis mesmo após o encerramento do suporte comercial.
O argumento central foi a proteção à propriedade intelectual, o que, na prática, coloca os direitos das empresas acima dos direitos de quem pagou pelo produto. Para uma União Europeia que se posicionou como a grande reguladora do ambiente digital global, a decisão soa como uma inconsistência difícil de ignorar.
Da desativação de The Crew à petição com 1,3 milhão de assinaturas
O movimento foi iniciado em 2024 pelo youtuber americano Ross Scott, depois que a Ubisoft desativou os servidores de The Crew, um jogo de corrida que dependia de infraestrutura online até para o modo de jogador único. Com os servidores desligados, o título se tornou completamente inutilizável, independentemente de o usuário ter comprado a licença. A situação gerou reclamações inclusive no Brasil, e escancarou uma prática que a indústria adota há anos com pouca ou nenhuma prestação de contas.
A premissa do movimento é direta: se um jogo depende de serviços online para funcionar, o estúdio deve, no mínimo, garantir uma rota de saída viável, seja pela liberação de ferramentas para servidores privados, seja por uma atualização que permita a execução offline. Não se trata de manter servidores oficiais para sempre, mas de não tornar o produto adquirido deliberadamente inutilizável. Na União Europeia, a campanha foi rebatizada de Stop Destroying Videogames para evitar o uso da palavra “killing” em documentos oficiais, e chegou a acumular 1,3 milhão de assinaturas em uma petição formal ao bloco.
O argumento da Comissão e a contradição que ele carrega
A justificativa do órgão foi explícita: “De acordo com a legislação de direitos autorais da UE, os detentores de direitos gozam de direitos exclusivos sobre suas criações. Além dos direitos autorais, outros direitos de propriedade intelectual também podem ser relevantes, pois podem proteger diferentes aspectos visuais e tecnológicos de um videogame.” Em outras palavras, a Comissão reconhece o problema, mas entende que forçar os estúdios a manter a jogabilidade entraria em conflito com o arcabouço de propriedade intelectual vigente.
O argumento tem coerência jurídica, mas uma fragilidade ética evidente. A lógica aplicada aqui permite que uma empresa venda um produto, decida por conta própria quando esse produto para de funcionar e ainda seja protegida pela lei para fazê-lo. É um entendimento que trata o consumidor como arrendatário permanente de algo pelo qual pagou integralmente, e não como proprietário de coisa alguma.
O movimento não sai de campo
This decision is not unexpected. But we were prepared. Hence, we're pushing forward with @Europarl_EN ammending #StopKillingGames to the Digital Fairness Act. We can move on without the Commission and their non-decision, as @accursedfarms mentioned before: https://t.co/UqQ9AsJo4J https://t.co/3yCboNzOih
— Stop Killing Games Official (@StopKilingGames) June 16, 2026
O Stop Killing Games sinalizou via X que a rejeição não foi surpresa, e que a estratégia agora muda de endereço: “É por isso que, juntamente com o Parlamento Europeu, estamos pressionando para que a iniciativa Stop Killing Games seja incluída na Lei de Equidade Digital. Podemos continuar mesmo sem a Comissão e sua indecisão.” A menção à Lei de Equidade Digital é relevante: se o movimento conseguir inserir exigências nesse instrumento legislativo, o alcance regulatório seria substancialmente maior do que o da petição original.
Do outro lado, os estúdios seguem confortáveis, pelo menos por enquanto. O CEO da Ubisoft, Yves Guillemot, já havia dado o tom ao comentar a campanha no ano passado com a frase de que “nada é eterno”, uma declaração que, lida à luz da decisão da Comissão, soa menos como filosofia e mais como política corporativa validada pelo silêncio regulatório.
Fonte: 80level
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