A G.SKILL finalmente se pronunciou sobre o aumento agressivo nos preços das memórias DDR5 nos últimos meses. A fabricante taiwanesa confirmou o que muita gente já suspeitava: a alta está ligada à explosão de demanda por chips de memória DRAM usados em aplicações de inteligência artificial.
A declaração da empresa é curta e direta. Segundo a G.SKILL, o mercado global de DRAM está apertado. A oferta não acompanha o ritmo da procura, especialmente por parte de datacenters e fabricantes de hardware para IA. Com isso, os custos de aquisição de chips DRAM dispararam, e a empresa repassou o aumento para o consumidor final.
O que diz a G-Skill?
A nota oficial cita “restrições severas de fornecimento” e aponta a indústria de IA como motor principal da pressão. A empresa afirma que seus preços refletem os custos dos fornecedores de circuitos integrados (ICs) e que podem mudar sem aviso prévio, conforme o mercado oscilar.
O problema é que a G.SKILL não trouxe respostas para as perguntas que realmente importam: quando os preços devem estabilizar, se a empresa conseguiu garantir estoque para os próximos meses ou quanto do aumento é controlado por ela, e quanto vem de especulação no varejo.
A fabricante também não deu nenhuma projeção de alívio. Não há cronograma, nem intenção clara de segurar margens para proteger o consumidor. É basicamente um “é isso, se vira”.
O panorama da crise
A situação da G.SKILL não é um caso isolado. Na verdade, é só a ponta de um iceberg que envolve toda a cadeia de produção de memória DRAM, e as projeções não são animadoras.
A SK hynix, segunda maior fabricante de DRAM do mundo, projeta que a escassez de memória RAM no mercado consumidor deve se estender até 2028, segundo documentos internos vazados online. A análise mostra que tanto a SK hynix quanto a Samsung realocaram linhas de produção para atender servidores de inteligência artificial e data centers, segmentos que oferecem margens de lucro bem maiores.
Em outubro, a SK hynix admitiu publicamente que seus chips HBM (High Bandwidth Memory), usadas em servidores de IA, estão vendidas até 2026. A empresa deixou claro que será difícil resolver a escassez antes do primeiro semestre de 2027. A Samsung, por sua vez, consegue atender apenas 70% dos pedidos de DRAM que recebe atualmente.
Mesmo com promessas de investir cerca de 30% da receita em expansão de capacidade em 2026, as fabricantes deixaram claro que essas medidas não serão suficientes para equilibrar o mercado. Fábricas novas de DRAM levam no mínimo dois anos para ficarem operacionais, e a expectativa é que capacidade adicional significativa só chegue entre o fim de 2027 e 2028.
A matemática é simples e cruel: a demanda por memória deve crescer 35% em 2026, enquanto a oferta aumentará apenas 23%, segundo projeções de analistas de mercado. A TrendForce, consultoria especializada em semicondutores, projeta alta de 30% nos preços até o fim de 2025 e mais 20% no primeiro semestre de 2026, o que representaria dobrar os valores praticados no início do ano.
Europa registra alta de 252% em três meses
Os números europeus ilustram bem o tamanho do problema. Segundo análise do site alemão ComputerBase, kits de memória RAM para desktops ficaram mais de três vezes mais caros em apenas três meses. O levantamento comparou preços entre meados de setembro e meados de dezembro deste ano. Resultado: alta média de 252% no período. Em valores práticos, um kit que custava €50 em setembro pode estar saindo por €175 agora.
O aumento não ficou restrito à RAM. SSDs registraram alta média de 42% no período analisado. Modelos de entrada com 1 TB de capacidade, que vinham caindo de preço nos últimos anos, agora se aproximam da marca de €100 na Europa. Até os discos rígidos tradicionais (HDs) subiram cerca de um terço em três meses.
A Micron, uma das maiores produtoras globais de memória, anunciou recentemente que vai descontinuar a marca Crucial, voltada justamente para o público geral. A decisão reforça a tendência de concentração nas demandas corporativas. Segundo o ComputerBase, pedidos de consumidores finais estão sendo atendidos “por último” na fila de produção.
Dell e Lenovo repassam custos: PCs até 20% mais caros
O mercado de PCs se aproxima de mais um reajuste de preços. Gigantes como Dell e Lenovo já se movimentam para repassar o impacto ao consumidor. Segundo a TrendForce, a Dell comunicou a parceiros e distribuidores que pretende aumentar seus preços entre 15% e 20% ainda neste mês. A Lenovo segue caminho parecido e deve atualizar sua tabela no início de 2026.
Para os fabricantes, o aumento da memória pesa mais do que parece. Executivos da HP lembram que o componente representa entre 15% e 18% do custo total de um PC. Qualquer oscilação significativa impacta margens e estratégias comerciais. Ainda assim, o setor tenta evitar repassar todo o aumento de uma só vez, por medo de frear a demanda.
Mas a TrendForce já ajustou suas projeções: em vez de um crescimento de 1,7% nas vendas de notebooks em 2026, o cenário agora é de retração de 2,4%. Os próximos trimestres devem trazer um mercado mais cauteloso, especialmente no segmento de PCs e laptops “AI-ready”, que exigem mais memória e hardware avançado.
Fabricantes seguram produção com medo de excesso de oferta
Samsung e SK hynix, responsáveis por mais de 70% da produção global de memória DRAM, avisaram que não pretendem ampliar agressivamente a oferta no curto prazo, mesmo com a demanda em alta. Em meio a um “superciclo” de memória, com a demanda por DRAM em níveis recordes puxada por IA e data centers, o mercado convive com estoques apertados e preços em forte alta.
Relatos da imprensa sul-coreana apontam que Samsung e SK hynix avaliam com cautela qualquer plano de expansão agressiva de capacidade. As empresas argumentam que investimentos pesados agora poderiam resultar em excesso de oferta caso o entusiasmo em torno da IA perca força alguns anos à frente.
A decisão passa por um receio bem conhecido na indústria de semicondutores: o risco de excesso de oferta. Quando fabricantes investem pesado em novas fábricas e a demanda esfria, o resultado costuma ser um mercado abarrotado de chips e uma queda brusca de preços.
Sapphire aposta em estabilização em 8 meses
Nem todo mundo na indústria vê um cenário tão prolongado. Em entrevista ao canal Hardware Unboxed, o gerente de relações públicas da Sapphire, Edward Crisler, desencorajou a “compra por pânico” de memória e outros componentes de PC. Segundo ele, a incerteza é hoje tão nociva quanto a própria falta de chips, alimentando um ciclo em que consumidores correm para comprar “antes que piore” e ajudam a encarecer ainda mais o mercado.
Crisler comparou o momento atual da DRAM à “era das tarifas” no início do ano, quando o temor de novas taxações sobre hardware levou a uma corrida às lojas antes mesmo de qualquer mudança prática. Para o executivo, a situação tende a se repetir caso os gamers reajam apenas com medo.
Apesar do clima de aperto, o representante da Sapphire afirma acreditar que o mercado começará a se estabilizar dentro de seis a oito meses. Ele ressalta que isso não significa necessariamente retorno a preços baixos, mas um ambiente menos volátil. Para quem já tem um PC relativamente recente, segundo Crisler, faz mais sentido “relaxar, jogar e aproveitar o sistema atual” do que entrar numa corrida para garantir RAM a qualquer custo.



