Quando se fala em profissões ameaçadas pela tecnologia, o debate quase sempre recai sobre inteligência artificial, automação e robótica. O relato do brasileiro Eddie Marx, técnico de informática autônomo, em um grupo no Facebook, aponta para um mecanismo diferente, e, em certos aspectos, mais difícil de combater: a transformação silenciosa no comportamento do consumidor que simplesmente retira a demanda de um mercado inteiro.
Marx construiu durante anos um modelo de atendimento técnico domiciliar e remoto focado em manutenção preventiva de computadores. O argumento era sólido: manter funcionando custa menos do que comprar um equipamento novo. Durante anos, funcionou. O problema é que a premissa deixou de ser verdadeira, não porque a manutenção ficou cara demais, mas porque o computador em si deixou de ser um objeto central na vida da maioria das pessoas. “Fiz centenas de parcerias e clientes assim, porém agora está todo mundo usando celular. Computador é coisa de quem joga ou trabalha pesado, não anda compensando mais ter um desktop o laptop só por ter. Está tudo ficando onboard (que, quando quebra, já não é mais manutenção preventiva, é corretiva – cara e demorada), pouco durável e descartável.
Os números do IBGE confirmam o cenário descrito por Marx. No quarto trimestre de 2024, apenas 33,4% das pessoas conectadas à internet no Brasil usavam um computador para isso, o menor percentual desde o início da série histórica em 2016, quando esse índice era de 63,2%. No mesmo período, o celular foi utilizado por 98,8% dos usuários de internet. A posse de PCs nos lares chegou a 38,6% dos domicílios em 2024, número que vinha caindo progressivamente desde a pandemia, quando já havia recuado de 41,4% para 40,7% entre 2019 e 2021.
Globalmente, as vendas de PCs passaram de aproximadamente 300 milhões de unidades anuais para cerca de 273 milhões em uma década, e a previsão da IDC para os próximos anos é de crescimento inferior a 1% ao ano até 2029. Globalmente, as vendas de PCs atingiram 270,2 milhões de unidades em 2025, com alta de 9,1% ante 2024, segundo a Gartner. O fim do suporte ao Windows 10 e a crise de memórias para IA aceleraram compras empresariais. No Brasil, o setor de TI cresceu 18,5% em 2025, superando projeções de 9,5%; hardware representou 47,9% desse total, com alta de 20,6% e US$ 32,5 bilhões movimentados, impulsionado por data centers e renovação tecnológica. Em janeiro de 2025, foram vendidas 430 mil unidades no país, crescimento de 4% ante janeiro de 2024, majoritariamente notebooks. Para 2026, analistas preveem queda global por preços de memória mais altos e tarifas, sem ênfase no consumidor doméstico comum.
Hardware descartável, manutenção Inviável
Mesmo para quem ainda usa computador, o modelo de negócio da manutenção preventiva sofreu outro golpe estrutural: o hardware moderno. Marx descreve o problema com precisão técnica: os componentes que mais impactam o desempenho de uma máquina (SSD, memória RAM e placa de vídeo) atingiram preços que tornam o upgrade economicamente inviável para a maioria dos usuários. Enquanto isso, os fabricantes migraram para designs em que CPU, GPU e memória estão integrados diretamente na placa-mãe (o que a indústria chama de arquitetura onboard), eliminando a possibilidade de substituição simples. Quando esse tipo de componente falha, a manutenção deixa de ser preventiva e passa a ser corretiva, cara, demorada e, frequentemente, mais cara do que o equipamento vale.
“Ainda surge uma limpeza ali, uma troca de pasta térmica e thermal pads acolá, uma otimização no sistema operacional, remoção de vírus, e só, diz o técnico.
A saída que o próprio Marx aponta é a solda fina, reparo em nível de componentes eletrônicos de superfície (SMD) e reballing de chips BGA, uma especialização que exige equipamentos específicos, treinamento avançado e atende justamente o mercado de dispositivos que não permitem manutenção convencional. É o caminho técnico disponível, mas representa uma ruptura completa com o modelo de negócio que ele construiu ao longo de mais de duas décadas.
