O iPhone usado pelo terrorista responsável pelo ataque que matou 16 pessoas, em 2015, na cidade de San Bernardino, na Califórnia, foi desbloqueado por uma pequena empresa australiana que recebeu US$ 900 mil do FBI.
A empresa chamada Azimuth Security, pouco conhecida devido à sua discrição no mercado, afirma trabalhar apenas para governos democráticos, desenvolvendo, de maneira secreta, a solução que o FBI utilizou para obter acesso ao iPhone do criminoso, de acordo com uma reportagem do Washington Post desta semana.
Antes de encontrar a solução da Azimuth em 2016, um ano após os ataques, o governo americano e a Apple travaram uma extensa batalha judicial para desbloquear os celulares de um dos terrorista.
Em março de 2016, O FBI pediu para a Apple criar um software para permitir que a agência desbloqueasse o iPhone 5G utilizado por um dos atiradores do ataque em San Bernardino.
No dia 28 de março, o governo americano anunciou que o FBI havia conseguido desbloquear o iPhone, desistindo do processo em seguida.
A empresa australiana conseguiu desbloquear o celular devido a uma falha no código aberto do Mozilla.
FBI x Apple: entenda o caso
A Apple lançou o iOS 9 em setembro de 2015, afirmando que o novo sistema teria recursos de segurança aprimorados para proteger os dados do usuário. Esse era o sistema operacional do iPhone 5C de Syed Rizwan Farook, um dos atiradores do ataque terrorista em San Bernardo, que trabalha como agente de saúde no condado de mesmo nome.
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Após os ataques, o FBI alegou que o iPhone 5G poderia ter informações valiosas sobre a motivação de Farook e sua esposa, Tashfeen Malik, que mataram 14 pessoas em uma festa no departamento de saúde onde Farook trabalhava.
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Malik, antes dos ataques, postou uma mensagem afirmando sua lealdade ao líder do grupo terrorista Estado Islâmico. Portanto, o FBI afirmou que poderia obter informações úteis através dos dados do iPhone 5C do terrorista, como cúmplices ou mandantes do crime.
No entanto, o aparelho pertencia ao chefe do criminoso e, como dito anteriormente, estava bloqueado como o novo sistema da Apple. Desse modo, após dez tentativas erradas de senha, o FBI perderia todos os dados presentes no celular.
Isso desencadeou na batalha judicial entre o FBI e Apple, pois o órgão do governo acreditava que a Apple deveria ser obrigada legalmente a tentar desbloquear o iPhone.
Além disso, o Departamento de Justiça Americano entendeu que este caso seria juridicamente embasado para ganhar a causa.
Em fevereiro de 2016, o Departamento de Justiça obteve uma ordem judicial obrigando que a Apple criasse um software para passar por cima do novo recurso de segurança e desbloquear o aparelho.
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A Apple, à época, afirmou que entraria com um recurso para contestar a ordem. Segundo a empresa, o governo estaria tentando forçar que a empresa quebrasse seu próprio sistema de segurança, o que poderia se tornar uma ameaça à privacidade de seus clientes.
Tim Cook, CEO da Apple, afirmou em um comunicado que “o governo americano estaria pedindo por algo que a empresa não possui e considera seu desenvolvimento muito perigoso”.
De acordo com Cook, o governo americano poderia obrigar à Apple a criar um software de vigilância para interceptar as mensagens dos usuários, acessar seus dados financeiros, rastrear suas localizações e acessar seus microfones e câmeras.
Empresa australiana descobriu falha antes dos ataques terroristas
Mark Dowd, fundador da Azimuth, encontrou uma falha no código aberto do Mozilla que a Apple utilizava para permitir que acessórios fossem plugados na entrada de energia do iPhone.
Um fato curioso é que Dowd descobriu essa falha antes mesmo dos ataques terroristas acontecerem, mas não desenvolveu uma ferramenta, pois, no período, a Azimuth estava trabalhando em outros projetos.
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Em 28 de março de 2016, o FBI informou haver conseguido desbloquear o iPhone, mas não revelou nenhum detalhes sobre a Azimuth, tampouco sobre as técnicas utilizadas no desbloqueio.
A agência de segurança não informou nem à Apple, segundo o porta-voz da empresa, Todd Wilder.
No entanto, em fevereiro de 2016, o então diretor do FBI, testemunhou no Congresso americano afirmando que os investigadores não conseguiram desbloquear o iPhone do terrorista.
Desse modo, Mark Dowd, após ver os noticiários e “percebeu que teria como ajudar nas investigações”. Curiosamente, na mesma época, o FBI o contactou e ele designou a tarefa à David Wang, especialista em explorar falhas de segurança do iOS.
Utilizando a falha encontrada por Dowd, Wang criou um exploit (sequência de comandos que conseguem tirar proveitos de falhas de software) que possibilitava o acesso inicial ao iPhone.
Após isso, ele criou outro exploit que permitia maior controle, por fim, interligando-o a um exploit final que outro pesquisador da Azimuth havia criado para o iPhone, obtendo total acesso ao processador do celular.
Com isso, ele criou um software que conseguia testar todas as combinações de senha, mas era capaz de ignorar o recurso que apagava todos os dados após 10 tentativas incorretas.
O exploit foi testado em mais de 10 iPhones e Wang o deu o nome “Condor”.
Condor custou ao governo US$ 900 mil, mas não foi muito útil
Em meados de março, a empresa australiana Azimuth apresentou uma demonstração do Condor na sede do FBI, contando com a presença do diretor James Comey.
A eficácia do exploit no desbloqueio do iPhone 5C foi provada e, na mesma semana, o FBI realizou uma série de testes com a ferramenta para garantir que esta iria funcionar sem destruir os dados do celular.
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Os testes também foram bem sucedidos e, de acordo com a Senadora da California, Diane Feinsein, o FBI pagou US$ 900 dólares à empresa australiana.
Em 2018, o Los Angeles Times revelou que o celular do terrorista não continha informações relevantes sobre o ataque. Além disso, os agentes, embora aliviados, ficaram um pouco desapontados.
Fontes informam que o FBI perdeu a oportunidade de obter uma normatização legal sobre o poder do governo em obrigar que empresas de tecnologias a quebrar seus sistemas de segurança por propósitos judiciais e investigativos.
Por fim, um mês após o FBI conseguir desbloquear o iPhone 5C do terrorista, o Mozilla descobriu a falha e lançou um patch em uma atualização de rotina. Portanto, em pouco tempo, o exploit se tornou inutilizável.