Em 2026, a Universidade do Tennessee vai inaugurar um curso que promete chamar atenção dentro e fora do mundo acadêmico: a história recente dos Estados Unidos contada através da franquia Grand Theft Auto.
Batizado de “Grand Theft America: U.S. History Since 1980 through the GTA Video Games”, o seminário será conduzido pelo professor Tore Olsson, que já se destacou por aproximar cultura pop e sala de aula ao criar disciplinas sobre Red Dead Redemption e pelo livro Red Dead’s History, acompanhado de audiobook narrado por Roger Clark, voz de Arthur Morgan.
Jogos como lentes da sociedade
A proposta parte de uma premissa ousada: videogames não apenas retratam mundos fictícios, mas ajudam a moldar como enxergamos a realidade. Assim como Red Dead Redemption 2 transformou o imaginário do faroeste e Ghost of Tsushima projetou uma versão visual do Japão feudal, milhões de jogadores associam sua visão da América moderna às cidades de Liberty City e Los Santos.
Não é à toa que turistas relatam um reconhecimento quase instantâneo de bairros de Nova York ou Los Angeles depois de explorá-los no universo digital da Rockstar.
Como será o curso
O objetivo não é “aprender jogando”. Os alunos não precisarão terminar missões ou sequer ter os jogos em mãos. O material será conduzido por Olsson com vídeos, capturas de tela e sessões curtas em sala de aula, sempre como ponto de partida para discussões de temas históricos.
Entre os tópicos centrais estão:
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desigualdade econômica e disparidade salarial;
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imigração e mudanças demográficas;
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expansão da mídia e da cultura digital;
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encarceramento em massa e política criminal.
Segundo Olsson, os últimos 45 anos formam um período histórico coeso para entender a polarização atual nos EUA. Ele lembra que, nos anos 1980, um CEO recebia em média 25 vezes o salário de um funcionário; hoje, o abismo chega a quase 400 vezes. No mesmo intervalo, a população carcerária quadruplicou e o número de imigrantes triplicou.
GTA como linha do tempo
A saga da Rockstar se encaixa como recurso didático, oferecendo recortes narrativos de diferentes épocas:
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Vice City Stories (1984) e Vice City (1986) ilustram os anos 1980;
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San Andreas (1992) e Liberty City Stories (1998) retratam os anos 1990;
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GTA III, IV e V são janelas para o novo milênio.
Olsson planejava incluir GTA VI já no currículo, mas o adiamento do lançamento para maio de 2026 frustrou os planos. “Será curioso discutir a série em sala antes mesmo de jogarmos o novo capítulo”, ironizou o professor, apontando que a estreia pode coincidir com as provas finais.
Muito além da violência
Apesar da fama da franquia por sua violência e humor ácido, Olsson afirma que a disciplina adotará rigor acadêmico. A intenção é usar GTA como espelho das contradições americanas — econômicas, culturais e sociais — sem qualquer apologia aos excessos do jogo.
“Não estamos celebrando a violência”, afirmou em entrevista para a IGN. “O ponto é entender como essa sociedade se dividiu nos últimos 40 anos e se ainda existe espaço para um futuro mais equilibrado.”
A experiência reforça o papel crescente dos videogames dentro do meio acadêmico. Cursos sobre rock, uma vez vistos como excêntricos, hoje são comuns; e, para Olsson, daqui a algumas décadas pode soar igualmente óbvio examinar a história e a cultura por meio das narrativas digitais interativas.
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