Advogado espanhol usou IA sem revisar e inventou 24 citações jurídicas. O tribunal abriu processo por má-fé processual

O TSXG identificou 24 referências jurídicas falsas em recurso escrito com IA sem revisão. O caso se soma a outro nas Canárias com 48 citações inventadas e levou o CGPJ a criar regras formais de uso.

Um tribunal espanhol identificou 24 referências jurídicas falsas em um recurso apresentado por um advogado do país, todas atribuídas ao uso de inteligência artificial generativa sem qualquer verificação posterior. O caso, julgado pelo Tribunal Superior de Xustiza de Galicia (TSXG), não é isolado: em fevereiro, o Tribunal Superior de Justiça das Canárias havia multado outro advogado por 48 citações jurisprudenciais inventadas pela IA em um recurso de apelação.

O TSXG descreveu o recurso com “múltiplas citações espúrias, resoluções inexistentes, outras que não têm relação com o discutido, ou diretamente inventadas”. A sala identificou também uma “curiosa estrutura na maneira de redigir” que associou ao uso de IA generativa gratuita.

O que levou o tribunal a abrir a peça por má-fé processual não foi intenção de fraude, mas o oposto: o advogado simplesmente não verificou nada. Na avaliação do TSXG, a conduta revela “uma negligência clara de quem, tendo por especialista em normas processuais (…) confiou seu trabalho, sem maior revisão, ao que o algoritmo propôs”.

Quando confrontado com as falsidades, o advogado apresentou uma emenda ao recurso, mas acrescentou quatro novas citações, também falsas.

O caso das Canárias: 48 citações, multa de 420 euros

O Tribunal Superior de Justiça das Canárias registrou o episódio em fevereiro de 2026 e aplicou uma sanção de 420 euros ao advogado, metade do valor máximo possível, levando em conta o reconhecimento dos fatos e o arrependimento do profissional. O recurso de apelação continha 48 citações jurisprudenciais inexistentes, todas geradas por IA.

Os dois casos seguem um padrão: a IA produz texto juridicamente fluente, recheado de referências que parecem reais, mas não existem. O sistema não tem acesso a bases de dados jurídicos verificadas em tempo real, nem mecanismo interno para distinguir uma sentença real de uma inventada com numeração plausível.

O CGPJ respondeu com uma instrução formal

O volume de incidentes levou o Conselho Geral do Poder Judicial (CGPJ) a aprovar, em 28 de janeiro de 2026, a Instrução 2/2026, publicada no Boletim Oficial do Estado no dia 30 do mesmo mês. O texto fixa os critérios de uso de IA por juízes e magistrados no exercício da atividade jurisdicional e se aplica a todos os sistemas de IA generativa, sejam eles homologados ou não.

A instrução proíbe explicitamente que a IA substitua o juiz na tomada de decisões, na valoração de provas ou na redação final de sentenças. Os usos permitidos ficam restritos a buscas de informação jurídica, organização de documentação e elaboração de esboços internos, desde que não tenham caráter decisório. Juízes só podem usar ferramentas fornecidas pelas administrações competentes ou pelo próprio CGPJ, submetidas a controle de qualidade e auditoria.

O que o caso dos programadores já antecipou

O deslocamento de papel que a advocacia enfrenta agora foi ensaiado primeiro pela engenharia de software. Google, Microsoft e Anthropic já informaram publicamente que parcelas expressivas do código produzido internamente têm origem em IA: o Google declarou que 75% do novo código vem de máquinas; a Anthropic indicou 80%. Em ambos os casos, o engenheiro não desapareceu, mas deixou de escrever código para passar a revisar o que a IA entrega.

O efeito colateral desse modelo foi a redução de contratações de profissionais júnior, que antes executavam as tarefas mais repetitivas. As empresas aceleraram a contratação de sênior, com mais capacidade para detectar erros e incoerências no output gerado automaticamente. Na advocacia, o movimento começa a se repetir: escritórios já exigem de associados júnior conhecimento sobre uso e supervisão de IA.

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Editor-chefe no Hardware.com.br/GameVicio Aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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