A queda do PS Vita: os bastidores de como as trapalhadas da Sony enterraram o seu portátil mais ambicioso

Quando a Sony apresentou o PlayStation Vita na E3 de 2011, o objetivo era claro: repetir, ou até superar, o sucesso do PSP. O nome “Vita” (vida, em latim) simbolizava a ideia de dar novo fôlego ao mercado de portáteis.

Mesmo após o terremoto mais forte já registrado no Japão, em março de 2011,  responsável por provocar um tsunami de mais de 10 metros de altura, a empresa manteve o cronograma: lançamento em 17 de dezembro de 2011 no Japão e 22 de fevereiro de 2012 na América do Norte e Europa. O Brasil recebeu o produto nesse mesmo período, fevereiro de 2012.  

O hardware impressionava. Tela OLED de 5 polegadas, processador quad-core, dois joysticks analógicos, painel de toque traseiro, sensores de movimento, câmeras frontais e traseiras, Wi-Fi, Bluetooth e até opção de modelo com 3G. A promessa era simples: “console gaming on the go”, entregando jogos com qualidade próxima à de um PlayStation de mesa, em qualquer lugar.

O preço também surpreendeu positivamente: US$ 249 (Wi-Fi) e US$ 299 (3G), igualando o Nintendo 3DS no lançamento e sinalizando um subsídio de custo. Executivos como Kaz Hirai projetavam vender o Vita até com prejuízo inicial, recuperando o investimento com escala e software, mirando, inclusive, números próximos aos 80 milhões de unidades que o PSP havia alcançado. Mas não foi isso que aconteceu!

Assim como fizemos recentemente no dossiê sobre a queda do Dreamcast, hoje revisitaremos a trajetória que levou ao desfecho melancólico — e à sensação de subutilização — que o PS Vita deixou no mercado e na memória dos gamers. Vamos nessa!

Primeiras fissuras: vendas abaixo do esperado e alerta do mercado

 

O lançamento trouxe elogios da crítica para a tela vibrante e controles precisos, mas já nos primeiros meses havia sinais de alerta. Entre fevereiro e março de 2012, o Vita vendeu apenas 1,8 milhão de unidades no mundo. No Japão, o ritmo despencou 78% da primeira para a segunda semana. E nos EUA, após um início promissor, a adoção desacelerou rapidamente.

Enquanto o PSP havia ultrapassado 80 milhões de unidades em seu ciclo, o Vita encerraria a vida útil com cerca de 15 a 16 milhões, segundo estimativas. Em 2013, a Sony parou de divulgar números separados do Vita, misturando-os ao PSP nos relatórios, sinal claro de que o portátil não atingia as metas.

A tempestade perfeita que derrubou o PS Vita

O insucesso do Vita não teve uma única causa. Foi o acúmulo de decisões, contextos e mudanças de mercado que, somados, o colocaram em um ciclo difícil de reverter.

Falta de apoio das grandes desenvolvedoras

 

Nos primeiros meses, o Vita recebeu títulos como Uncharted : Golden Abyss, WipeOut 2048 e Unit 13, mas rapidamente perdeu o apoio dos grandes estúdios. Publishers como EA, Ubisoft, Activision e Capcom reduziram drasticamente o suporte. Monster Hunter, que havia sido um fenômeno no PSP, migrou para o 3DS. Sem “system sellers” de peso, o Vita perdeu tração, e a base instalada pequena afugentou ainda mais as third-parties.

A guinada para os jogos indies

Sem grandes blockbusters, a Sony posicionou o Vita como “máquina de indies”, trazendo títulos como Hotline Miami, Spelunky e Shovel Knight. Alguns desses indies eram realmente muito bons, lembro de jogar bastante Sound Shapes!

A comunidade hardcore abraçou a proposta, mas o apelo de massa nunca veio — e muitos desses jogos também estavam em outras plataformas. 

Cartões de memória proprietários e decisões polêmicas

O Vita exigia cartões de memória proprietários, caros e obrigatórios para salvar jogos e instalar conteúdo digital. Um cartão de 32 GB custava cerca de US$ 100 no lançamento. Essa barreira de entrada gerou frustração e afastou consumidores.

Modelos base do Vita nem incluíam armazenamento interno (exceto a revisão PCH-2000 depois, que veio com 1 GB insuficiente), forçando praticamente todo usuário a gastar mais em memória. A Sony justificou publicamente essa escolha alegando motivos de desempenho e segurança”.

Smartphones e a mudança no mercado portátil

Entre 2011 e 2013, jogos mobile gratuitos ou baratos para iOS e Android dominaram o entretenimento casual. O público disposto a pagar caro por um portátil dedicado encolheu, e o 3DS, mais barato e com franquias de peso, ocupou o espaço restante. 

Em 2015, Shuhei Yoshida, CEO da Sony Entertainment System Worldwide Studios na época chegou a afirmar que provavelmente a Sony não lançaria um novo console. A justificativa do executivo foi na linha da maturidade elevada que os jogos para dispositivos móveis tinham alcançado. 

No ano seguinte, Jack Tretton, ex-presidente da Sony Computer Entertainment America, adotou um discurso parecido em entrevista à IGN. Ele definiu o PS Vita como um grande aparelho, mas que chegou tarde. 

“Agora que não trabalho mais lá, eu acho que o pensamento interno foi que ‘é um grande aparelho, só chegou muito tarde’. O mundo tinha mudado para dispositivos portáteis como smartphones que não eram apenas dedicados a games”, afirmou.

Quanto o PS Vita custava no Brasil?

O PS Vita chegou ao Brasil em fevereiro de 2012. O preço recomendado era R$ 1.599. A própria Sony entendia que o custo era elevado. A empresa chegou a falar publicamente sobre o valor:

Há uma série de impostos cobrados sobre os videogames e os jogos, por isso, o valor do Vita no Brasil é mais elevado em comparação com outros países”, explicou Glauco Rozner, gerente-geral de PlayStation da Sony Brasil, no evento de lançamento do PS Vita, que ocorreu nesta terça-feira (28) em São Caetano do Sul (SP).

Conforme informava a Folha de S.Paulo naquele momento, até abril o console só será vendido em um pacote, que inclui, além do PS Vita, o jogo Modnation Racers, um cartão de memória de 4 GB e um estojo para o videogame. “Quem se dispuser a desembolsar a quantia para ter em mãos o portátil vai ter que pagar ainda até R$ 200 por certos jogos. E na versão virtual, ou seja, por download, os valores não diminuem muito: os jogos custam cerca de R$ 169”, relatava a matéria.

O anúncio do fim e o adeus silencioso

Para tentar impulsionar as vendas, a Sony fez cortes significativos. Em fevereiro de 2013, anunciou no Japão que os modelos Wi‑Fi e 3G custariam ¥ 19 980 (~US$ 215). Em agosto do mesmo ano, a empresa baixou o preço para US$ 199/€ 199 no Ocidente e reduziu o custo dos cartões de memória. Apesar do esforço, o corte não recuperou o mercado ocidental, pois poucos jogos AAA estavam em desenvolvimento.

Em maio de 2018, chegou o primeiro sinal claro do fim: a Sony informou aos desenvolvedores que seu último lote de cartuchos físicos seria produzido até o fim do ano fiscal, encerrando-se em 31 de março de 2019.

No estande da Tokyo Game Show, em setembro de 2018, Hiroyuki Oda confirmou que a fabricação e envio do Vita terminariam no ano seguinte, e que não havia planos para um sucessor.

A consumação do destino veio discretamente em 1º de março de 2019, com a página oficial do produto atualizada para mostrar que os últimos modelos — SKUs PCH-2000 em variantes como preto e azul aquático — estavam “shipment complete”, indicando o fim da produção e dos envios. 

A notícia se espalhou por comunicados pontuais e atualização no site oficial, marcando o fim de pouco mais de sete anos de mercado. Para muitos, foi apenas a formalização de um destino já traçado.

Além dos polêmicos cartões de memória proprietários, outros erros cruciais ajudaram a enterrar o Vita. Shuhei Yoshida criticou a inclusão de componentes que só elevaram os custos — como o sensível painel traseiro e a tela OLED — e lamentou a remoção da saída de vídeo da versão final do aparelho. Ele também apontou que a escassez de equipes dedicadas fixou o PS4 como prioridade, relegando o Vita a segundo plano.

Analistas destacam ainda que a empresa subestimou o poder dos smartphones como concorrentes, e não se esforçou o suficiente para desenvolver linhas exclusivas de peso, insistindo em portar jogos em vez de criar conteúdos próprios

O legado do PS Vita

Mesmo com vendas modestas, o Vita conquistou um público apaixonado. Jogos como Persona 4 Golden, Gravity Rush e Tearaway viraram símbolos do console. A cena homebrew, impulsionada pelo exploit HENkaku, manteve o hardware vivo para emulação e projetos caseiros.

Em março de 2021, a empresa anunciou de forma repentina que fecharia as lojas digitais de PS3 e Vita, o que obrigaria desenvolvedores independentes a cancelar jogos. Estúdios (como Lillymo Games) tiveram que abandonar projetos; jogos como Thief’s Roulette e Lazr foram cancelados; outros correram para terminar títulos antes do prazo.

A falta de comunicação indignou a comunidade, evidenciando o descompasso entre Sony e desenvolvedores independentes. A repercussão negativa levou Jim Ryan, CEO da SIE, a voltar atrás: em 19 de abril de 2021, ele admitiu que a decisão de encerrar as lojas tinha sido “equivocada” e anunciou que manteria as lojas de PS3 e PS Vita funcionando.

“Ficou claro que muitos de vocês são incrivelmente apaixonados por poder continuar comprando jogos clássicos no Vita… Estou feliz que conseguimos encontrar uma solução, declarou Ryan.

O episódio de 2021, quando a Sony recuou do fechamento da PS Store após pressão dos jogadores, mostrou que o Vita ainda tinha relevância histórica. Para colecionadores, edições limitadas e modelos OLED originais se tornaram itens valorizados. Comunidades no Reddit também mantém vivo o legado do console.

 

THE PS VITA IS VERY COOL
byu/AlternateCris inVitaPiracy

Hoje, o PS Vita é lembrado como um portátil à frente de seu tempo, mas lançado no momento errado — ou talvez uma vítima de decisões corporativas que contribuíram para o seu fracasso. Um console que caiu cedo, mas cujo legado persiste nas mãos de quem nunca deixou de acreditar nele.

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William R. Plaza: Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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