How not to sell embedded Linux
Autor original: Jonathan Corbet
Publicado originalmente no: https://lwn.net/
Tradução: Roberto Bechtlufft
Volta e meia é bom darmos uma olhada em alguns artigos que espalham medo, incerteza e dúvida (ou FUD, como nós o conhecemos). É bom saber o que o outro lado anda dizendo, o nível de humor não intencional costuma ser alto e, por vezes, dá até para aprender algumas coisinhas. A indicação de seu editor para FUD da semana vai para este artigo do Embedded.com escrito por Dan O’Dowd. Nele, vamos aprender sobre a morte iminente do Linux embarcado, contada pelas próprias empresas que o vendem.
O sr. O’Dowd analisou material publicitário da MontaVista e da Wind River e concluiu:
É fácil encontrar inconsistências no artigo, a começar pela afirmação de que a MontaVista e a Wind River são as maiores proponentes do Linux embarcado.” Também é fácil lembrar que já ouvimos tudo isso antes; em 2004, o sr. O’Dowd (que por acaso é fundador e CEO de uma fabricante de software para sistema embarcados proprietários) foi muito solícito ao nos avisar que “terroristas e agências de inteligência” contribuíam com “software subversivo” para o Linux e nos deu uma aula sobre a necessidade de manter o código fonte em segredo para obter segurança de verdade. Pode-se dizer que muitas das observações do sr. O’Dowd parecem pura fantasia. Mas se nos basearmos nesse contra-argumento, corremos o risco de perder um ponto importante do artigo – embora não seja o ponto que o sr. O’Dowd está tentando demonstrar.
O sr. O’Dowd obteve esses “fatos” de duas fontes: de uma propaganda da Wind River Systems (que eu não encontrei na internet) e, principalmente, de uma coluna do fundador da MontaVista, Jim Ready, na revista Military Embedded Systems. O propósito evidente do sr. Ready é aterrorizar os fabricantes de sistemas embarcados para que eles contratem os serviços de sua empresa; para isso, ele capricha no exagero:
Só o kernel.org deve ter umas 5.000 mensagens por dia, sendo que umas 1.000 são patches que devem ser avaliados e possivelmente aplicados à base de código. Ignorar o tráfego de email, achando que o sistema em uso parece funcionar bem, pode levar a conseqüências desastrosas. Por exemplo, um patch de segurança recente de 13 linhas de código para sistemas Linux embarcados teria mais de 800 mil linhas de patches se os patches anteriores tivessem sido ignorados. É um caso clássico de pague agora ou pague bem mais caro depois.
Alguém deve ter se divertido à beça juntando esses números todos. A geração tradicional de números aleatórios pode se dar por alguns lances de dados, pelo sorteio de papeizinhos numerados de dentro de um chapéu ou pela leitura de estimativas de ganhos de empresas. Uma aleatoriedade nesta escala, no entanto, só pode ser atingida com o uso de software específico.
Mesmo para os padrões do kernel.org, 5 mil mensagens é bastante coisa, ainda que este editor, assinante das listas linux-kernel, git-commits-head e mm-commits, possa atestar que ao menos a ordem de magnitude está correta. Mas este editor não pode nem sonhar com os mecanismos do pensamento que transforma treze linhas de um patch de segurança em 800 mil linhas de código. Imagine postar essa coisa na linux-kernel. “Pague agora ou pague bem mais caro depois”, sem dúvida.
Mas nossa intenção não é descobrir a origem desses números. O sr. Ready está disseminando a falácia de que, para montar um sistema embarcado com Linux, deve-se começar integrando seus vários componentes, um a um. Se uma empresa tomasse esse caminho, teria grandes chances de cair nos altos custos alertados pelo sr. Ready. Criar sua própria distribuição – e mantê-la ao longo do tempo de vida de um produto – é, com certeza, um trabalho duro e caro.
Mas é raro um fabricante fazer isso; até os usuários do Gentoo deixam boa parte do trabalho de integração para o distribuidor. Por que algum fabricante criaria sua própria distribuição com tantas outras disponíveis como base? Personalizar uma distribuição para um aplicação embarcada não é um trabalho trivial, mas também não é engenharia espacial. O distribuidor vai acompanhar boa parte das lista de email, e ainda vai dar um jeito de distribuir atualizações de segurança que não envolvam 800 mil linhas de código. Não há motivos para os fabricantes de sistemas embarcados se envolverem nessa bagunça caríssima descrita pelo sr. Ready; a criação de uma distribuição adequada é bem mais fácil do que isso.
Mesmo assim, muitos fabricantes podem decidir que, de fato, não querem entrar na área de personalização de distribuições. Ao invés disso, eles podem procurar um fabricante que faça isso para eles. Faz todo o sentido do mundo para empresas como a MontaVista e a Wind River (dentre outras) oferecer uma plataforma estável, integrada e com suporte a fabricantes de sistemas embarcados por uma taxa. Há um valor honesto nessa linha de negócios.
Mas é preciso se perguntar por que essas empresas sentem a necessidade de aterrorizar outras empresas para que contratem seus serviços. Esses serviços, quando realizados de maneira adequada, têm um valor real que pode ser vendido sem que se recorra a um FUD descarado. A incapacidade de se focar nesse valor encoraja pessoas como o sr. O’Dowd, que ficaria muito satisfeito se o Linux embarcado sumisse do mapa. Essa não parece ser uma estratégia de negócios razoável. Empresas que pretendem fazer dinheiro com o Linux talvez devam pensar duas vezes antes de envenenar a água do poço do qual estão tentando beber. Essa é a verdadeira lição a ser aprendida com esse tipo de artigo.
Créditos a Jonathan Corbet – https://lwn.net/
Tradução por Roberto Bechtlufft <robertobech at gmail.com>
Esta postagem foi modificada pela última vez em 02/06/2009 22:26