A expectativa era de um evento voltado para inteligência artificial, novos computadores e a expansão da plataforma RTX Spark no Japão. Mas Jensen Huang resolveu começar por outro assunto.
No palco, em Tóquio, o CEO da NVIDIA deixou as especificações técnicas em segundo plano e voltou quase trinta anos no tempo para agradecer publicamente à Sega por uma decisão que, segundo ele, mudou o destino da empresa. O momento aconteceu durante uma apresentação que reuniu alguns dos principais nomes da indústria japonesa de games. Ao lado de Huang estavam Haruki Satomi, presidente e CEO da Sega Sammy Holdings; Shuji Utsumi, presidente da Sega Corporation; Yu Suzuki, criador de Virtua Fighter; e Shoichiro Irimajiri, ex-presidente da Sega Enterprises. Foi justamente para Irimajiri que Huang dirigiu boa parte de seu discurso.
Nvidia CEO Jensen Huang met former Sega CEO Shoichiro Irimajiri and game designer Yu Suzuki in Tokyo to thank them for a $5 million investment in 1995 that saved Nvidia from bankruptcy after the company failed to deliver a chip Sega had ordered pic.twitter.com/Q29x31ZcvT
— Reuters Business (@ReutersBiz) July 15, 2026
“Sem a Sega e o apoio deles naquela época, a NVIDIA não existiria hoje”.
A frase resume uma história que já contamos aqui no Hardware.com.br. A SEGA fez nos anos 90 um investimento de US$ 5 milhões que foi determinante para salvar a NVIDIA da falência.
Um evento sobre o futuro que começou olhando para o passado
O encontro em Tóquio tinha um objetivo claro. A NVIDIA apresentou oficialmente ao público japonês o RTX Spark, sua nova plataforma voltada para PCs com Windows baseados em arquitetura Arm, capaz de executar cargas de trabalho de inteligência artificial localmente. A companhia também anunciou uma colaboração com a Sega para otimizar jogos da desenvolvedora para a nova plataforma, começando por Virtua Fighter Crossroads, exibido durante o evento rodando em um protótipo equipado com o novo hardware. A empresa japonesa confirmou que Virtua Fighter Crossroads será um dos primeiros jogos adaptados para explorar os recursos do RTX Spark, incluindo aceleração por IA e tecnologias gráficas da NVIDIA.
Mas Huang decidiu interromper esse roteiro para contar uma história iniciada quando a empresa ainda lutava para sobreviver. Em vez de abrir a apresentação falando sobre chips, bilhões de parâmetros ou desempenho em inteligência artificial, preferiu dedicar os primeiros minutos a agradecer pessoas que estavam sentadas ao seu lado no palco.
Quando a NVIDIA era apenas uma startup
Antes de se tornar protagonista da corrida pela inteligência artificial, a NVIDIA era uma empresa pequena tentando encontrar espaço em um mercado dominado por fabricantes muito maiores. Fundada em 1993, a companhia apostava que os gráficos tridimensionais seriam o futuro dos computadores pessoais.
A SEGA enxergou potencial nessa tecnologia. Da parceria nasceu o NV1, primeiro chip multimídia desenvolvido pela NVIDIA e utilizado em placas para PC compatíveis com tecnologias da fabricante japonesa.
O projeto, porém, seguiu um caminho diferente daquele adotado pelo restante da indústria. Enquanto a Microsoft consolidava o DirectX baseado em polígonos triangulares, o NV1 utilizava superfícies quadráticas. Tecnicamente era uma abordagem sofisticada, mas acabou isolada do padrão que dominaria o mercado. O fracasso comercial colocou a jovem empresa em uma situação extremamente delicada.
“Vim para o Japão em 1994 e conheci o Sr. Irimajiri e o Sr. Suzuki. Naquela época, a NVIDIA ainda estava em seus primórdios. Tínhamos acabado de começar a fazer jogos com gráficos 3D, mas ninguém estava tentando fazer jogos 3D para PCs, e eles só existiam em fliperamas”, relembrou Jensen.
A decisão que mudou a história
Quando a parceria envolvendo o NV1 chegou ao fim, a SEGA poderia simplesmente encerrar a relação, mas não foi o que aconteceu. A gigante japonesa resolveu investir cerca de US$ 5 milhões na NVIDIA. O valor não representava apenas um aporte financeiro, na verdade o efeito prático era “comprar tempo”.
Tempo para manter engenheiros, desenvolver uma nova arquitetura, uma segunda chance. Poucos anos depois surgiriam chips como o RIVA 128 e, posteriormente, a linha GeForce, responsável por transformar a NVIDIA em uma das principais fabricantes de processadores gráficos do mundo.
Durante o evento em Tóquio, Huang voltou a afirmar que aquele investimento foi determinante para a sobrevivência da companhia.
A inversão de papéis
E ainda existe um detalhe curioso nessa história, quando a Sega decidiu apostar na NVIDIA, era uma das empresas mais influentes da indústria de videogames. A NVIDIA era apenas uma startup tentando sobreviver, mas hoje a relação é praticamente inversa.
A fabricante americana tornou-se uma das empresas mais valiosas do planeta, impulsionada pela explosão da inteligência artificial.
A SEGA continua sendo uma desenvolvedora respeitada, dona de franquias importantes e presença constante no mercado, mas muito distante da posição dominante que ocupava nos anos 1990.
“O Sr. Irimajiri e sua equipe me fizeram perceber que a NVIDIA havia escolhido as pessoas certas. Sr. Irimajiri, Sr. Suzuki, a amizade de vocês significa tudo para mim, e o Japão e a Sega permanecerão para sempre em meu coração. E espero que vocês se orgulhem de que ainda estamos trabalhando juntos até hoje”, concluiu Jensen.
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