A expansão da inteligência artificial está criando uma demanda inesperada nos Estados Unidos: empresas precisam de centenas de milhares de eletricistas, encanadores, técnicos e outros profissionais especializados para construir a infraestrutura que mantém a IA funcionando. E algumas dessas vagas podem pagar salários comparáveis aos de carreiras tradicionalmente associadas a um diploma universitário.
O motivo está nos data centers. Treinar e executar modelos de inteligência artificial exige instalações gigantescas, com sistemas complexos de energia, refrigeração e comunicação. Conforme empresas ampliam essa infraestrutura, encontrar profissionais capacitados para construí-la tornou-se um dos gargalos do setor.
Eletricistas podem ganhar mais de US$ 200 mil em projetos de data centers
Um dos números que melhor ilustra essa mudança vem de Mike Rowe, apresentador conhecido pelo programa Dirty Jobs. Durante visita a um data center em Plano, no Texas, Rowe afirmou ter encontrado três eletricistas com menos de 30 anos que recebiam entre US$ 240 mil e US$ 280 mil por ano.
O valor, porém, não deve ser interpretado como o salário normal de um eletricista americano. Trata-se de profissionais trabalhando em um mercado com forte demanda e em projetos especializados. Dados citados pela Fortune indicam que trabalhadores da construção em data centers recebem, em média, cerca de US$ 81,8 mil anuais, aproximadamente 32% acima de profissionais de obras convencionais.
A pressão sobre os salários tem uma explicação simples: faltam trabalhadores.
A McKinsey estima que investimentos em infraestrutura podem elevar a demanda nos Estados Unidos em cerca de 130 mil eletricistas e 240 mil trabalhadores da construção até 2030. Ao mesmo tempo, parte relevante da força de trabalho atual está próxima da aposentadoria.
IA precisa de muito mais do que GPUs
O contraste é particularmente interessante porque a própria IA é frequentemente associada à substituição de empregos. Na infraestrutura física, entretanto, ela está produzindo o efeito contrário. Jensen Huang, CEO da Nvidia, já afirmou que eletricistas, encanadores e carpinteiros serão necessários às centenas de milhares para construir fábricas e data centers. São funções difíceis de substituir por software porque envolvem instalações físicas, manutenção e trabalho especializado em campo.
Grandes empresas também começaram a investir diretamente na formação desses profissionais. A BlackRock anunciou US$ 100 milhões para iniciativas destinadas a trabalhadores de áreas como elétrica, encanamento e climatização.
Para quem entra nesse mercado, diploma universitário de quatro anos não é necessariamente um requisito. O caminho normalmente passa por escolas técnicas e programas de aprendizagem profissional, nos quais o trabalhador combina aulas com experiência prática remunerada.
A oportunidade também tem uma limitação: construir um data center exige muito mais gente do que operá-lo depois de pronto. Portanto, os salários elevados registrados durante o atual ciclo de investimentos não significam que cada projeto oferecerá emprego permanente.
Ainda assim, o movimento expõe uma consequência pouco intuitiva da corrida pela IA. Quanto mais bilhões as empresas investem em GPUs e servidores, maior também se torna a necessidade de profissionais capazes de instalar cabos, sistemas elétricos e refrigeração. A infraestrutura da inteligência artificial pode ser digital, mas boa parte do trabalho necessário para construí-la continua sendo essencialmente físico.