Nos anos em que comandava a Apple, Steve Jobs era visto com frequência dirigindo de Palo Alto até Cupertino em seu Mercedes-Benz SL55 AMG, avaliado em mais de US$ 120 mil. O detalhe que chamava a atenção? O carro não tinha placa.
O segredo estava em uma brecha da lei da Califórnia. Até 2019, veículos novos podiam circular por até 180 dias sem identificação, desde que ainda não tivessem recebido a matrícula definitiva. Jobs explorava essa exceção de forma engenhosa: fazia leasing e trocava de Mercedes idêntico a cada seis meses. Dessa forma, mantinha a imagem do carro sem placa e garantia uma camada extra de privacidade.
“Jobs tinha um acordo com a locadora: a cada seis meses trocava um Mercedes SL55 AMG prateado por outro igual. Em nenhum momento ele dirigia um carro mais velho que isso, e assim não havia exigência legal de placas”, explicou Jon Callas, ex-diretor de segurança da Apple, em uma entrevista ao iTWire em 2011.
O fim da brecha legal em 2019
Esse truque, que virou quase lenda em Cupertino, não seria possível hoje. Em 2016, a Califórnia aprovou a lei AB 516, que entrou em vigor em 2019 e tornou obrigatória a instalação de placas temporárias visíveis em todos os veículos vendidos ou alugados.
Essas placas temporárias (TLP) devem ser fixadas no ato da compra e têm validade máxima de 90 dias, prazo em que o motorista precisa receber as definitivas. O sistema foi criado para fechar justamente a lacuna que permitia circular sem identificação, algo que Jobs usava para se proteger de olhares curiosos — mas que também facilitava fraudes em pedágios e crimes de trânsito.
E no Brasil?: Até 15 dias sem placa, mas com fortes restrições
Se na Califórnia a brecha que Steve Jobs explorava foi fechada em 2019, no Brasil a situação sempre foi diferente. Aqui, um carro zero pode circular sem placa por até 15 dias a partir da emissão da nota fiscal, mas apenas em condições bastante restritas.
A regra, prevista no Código de Trânsito Brasileiro, permite que o veículo vá da concessionária até a residência do comprador e, depois, até o local de emplacamento. Durante esse período, o motorista deve portar a nota fiscal e não pode circular em finais de semana, feriados ou no período noturno, quando os Detrans estão fechados.
Quem descumpre essas exigências corre risco de receber uma multa gravíssima, perder 7 pontos na CNH e ainda ter o carro removido ao pátio. Em algumas regiões do Norte, os prazos podem se estender até 30 dias, mas sempre com a mesma lógica: o carro sem placa é exceção temporária, não um privilégio para prolongar indefinidamente.
Mais do que luxo, uma questão de privacidade
Apesar da fortuna bilionária, Steve Jobs não acumulava carros aleatoriamente. Segundo ex-colegas, ele mantinha o mesmo modelo de Mercedes e renovava apenas para continuar sem placa. Entre 2006 e 2010, recebeu apenas duas multas por excesso de velocidade em Santa Clara — um contraste curioso para alguém que gostava de dirigir rápido.
Influência do pai e o olhar para o design automotivo
O fascínio de Steve Jobs por carros tinha raízes familiares. Seu pai adotivo, Paul Jobs, era mecânico e marceneiro, e ensinou ao filho a importância de cuidar dos detalhes invisíveis, como a parte de trás de um armário ou as pastilhas de freio de um Chevy. Essa obsessão pelo acabamento perfeito influenciou tanto sua visão de automóveis quanto o design da Apple.
Jobs via os carros como modelos de excelência: poderosos, elegantes, intuitivos e eficientes. Não à toa, usava referências automotivas para inspirar sua equipe no Macintosh, citando o “clássico indestrutível” do Fusca da Volkswagen ou defendendo os cantos arredondados como forma fundamental do design digital.
Os veículos que marcaram sua trajetória
Embora a Mercedes sem placa seja o ícone mais lembrado, Jobs teve outros veículos emblemáticos:
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Mercedes-Benz 450SL — seu favorito, que ele comparava ao ideal de como deveriam ser os computadores.
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Porsche 928 e Porsche 911 cinza — símbolos de sua fase mais ousada.
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BMW R60/2 (1966) — motocicleta personalizada com borlas no guidão.
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Jeep Cherokee em Sonoma — usado para momentos mais familiares.
Sua relação com os automóveis nem sempre era de bom exemplo. Ele era conhecido por estacionar em vagas de deficientes, atitude que virou piada dentro da Apple, reforçando a imagem de gênio genial, mas egocêntrico.
Carros como reflexo de personalidade
Os veículos de Jobs não eram apenas meios de transporte. Representavam um equilíbrio entre simplicidade, luxo seletivo e sua eterna busca por perfeição. Enquanto mantinha uma casa quase sem móveis, não hesitava em gastar milhões em um iate minimalista ou em exigir um jato Gulfstream da Apple.
Em outros momentos, mostrava empatia. Ao visitar John Lasseter, da Pixar, e ver seu Honda Civic caindo aos pedaços, Jobs ficou preocupado com a segurança do amigo e o ajudou a comprar um Volvo novo.
No fim, seus carros funcionavam como extensão de sua filosofia: design impecável, funcionalidade absoluta e uma pitada de rebeldia contra convenções sociais.
Quando a Apple também tentou entrar no mundo dos carros
Em meados dos anos 90, a própria Apple flertou com o setor de forma curiosa — e até desesperada.
Em 1996, durante a gestão de Michael Spindler como CEO, a empresa atravessava um período crítico, acumulando prejuízos e testando saídas improváveis para se manter viva. Uma dessas tentativas foi uma parceria com a Renault, que resultou no Clio Apple, lançado apenas na Espanha.
O modelo tinha como diferencial não apenas o logotipo clássico da maçã colorida estampado na lateral, mas também um pacote promocional ousado: o carro vinha acompanhado de um PowerBook 190 e até de um celular. Em alguns lotes, quando os estoques acabaram, a oferta passou a incluir o Performa 5260.
A Renault posicionava o Clio Apple dentro de sua campanha JASP (Jóvenes Aunque Sobradamente Preparados), que exaltava a nova geração de jovens bem formados e ambiciosos. O slogan publicitário destacava o carro como “o primeiro veículo com computador portátil”.
Poucas unidades foram fabricadas, e o projeto nunca ganhou relevância internacional. Com o retorno de Steve Jobs à Apple em 1997, iniciativas desse tipo foram rapidamente engavetadas. Curiosamente, a própria Renault voltou a se associar à marca anos depois, em 2006, com o Clio i-Music, que trazia de fábrica um iPod de 30 GB.
Esse episódio mostra como, enquanto Jobs explorava sua relação pessoal com carros em busca de design e privacidade, a Apple corporativa ensaiava movimentos no setor automotivo de maneira quase improvisada. Hoje, quase 30 anos depois, a expectativa é pelo Apple Car, previsto para 2026, um projeto que finalmente promete colocar Cupertino de verdade nas ruas.
Uma das melhores formas de mergulhar nas histórias, decisões e bastidores da carreira e vida de Steve Jobs é através dos livros. Pensando nisso, montamos uma seleção com 4 publicações essenciais que ajudam a entender de perto sua visão, seus dilemas e o impacto que deixou no mundo da tecnologia. Clique abaixo e confira:
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