Em junho de 2013, poucos dias depois de a Microsoft anunciar restrições ao compartilhamento de jogos usados no Xbox One, além de exigir verificações periódicas de conexão com a internet, a Sony respondeu com um vídeo de apenas 21 segundos que está sendo resgatado agora.
Na gravação, Shuhei Yoshida, então presidente da Sony Worldwide Studios, entrega uma caixa de Killzone: Shadow Fall para Adam Boyes, vice-presidente de relações com publishers e desenvolvedores da Sony Computer Entertainment America. Sem dizer quase nada, apenas “This is how you share games on PS4”, ao que Boyes responde com um simples “thanks”, a dupla mostra como seria simples emprestar um jogo físico no PlayStation 4: bastava passar a caixa de uma pessoa para outra.
Mais de uma década depois, esse mesmo vídeo voltou a circular nas redes sociais por um motivo completamente diferente. Em meio às críticas provocadas pela decisão da Sony de abandonar os lançamentos físicos de novos jogos para PlayStation a partir de janeiro de 2028, jogadores passaram a usar o antigo comercial para acusar a empresa de abandonar exatamente o discurso que ajudou a consolidar a marca durante a geração PS4.
Batizado de “Official PlayStation Used Game Instructional Video”, o comercial foi publicado durante a semana da E3 de 2013, quando Sony e Microsoft travavam uma disputa direta pela nova geração de consoles. Na época, a Microsoft previa restrições para empréstimos e revenda de jogos físicos no Xbox One, além de exigir verificações periódicas de conexão com a internet. A reação negativa foi imediata.
Vale notar que, segundo o próprio Yoshida revelou em entrevista ao site Kotaku, no mesmo ano de lançamento do vídeo, que foi uma ideia espontânea de Boyes, criada durante os ensaios da apresentação na E3, e não fazia parte de um plano formal de marketing para provocar a Microsoft diretamente, a intenção era apenas demonstrar de forma simples e bem-humorada como funcionaria o compartilhamento físico de jogos.
Estávamos esperando no ensaio dois dias atrás e o Adam [Boyes, vice-presidente de relações com desenvolvedores da Sony e co-estrela do vídeo] ou alguém teve a ideia e nós pensamos: “E se fizéssemos isso e aquilo?”. Tínhamos um estúdio lá na sala do evento com um computador Macintosh para edição. Gravamos o vídeo e os caras adicionaram a música. Estávamos nos divertindo. O Andy [House, presidente da Sony Computer Entertainment] disse: “Ah, sim, vamos lançar “. Não foi planejado, explicou Yoshida.
Novos tempos, outro discurso
Este mês, a Sony anunciou que deixará de produzir novos jogos em mídia física para consoles PlayStation a partir de janeiro de 2028, justificando a decisão pela predominância das vendas digitais.
Segundo a empresa, os jogos físicos já lançados continuarão recebendo suporte normalmente, mas futuros lançamentos passarão a existir apenas em formato digital.
A decisão provocou críticas de colecionadores, defensores da preservação digital e jogadores que preferem comprar discos para revendê-los, emprestá-los ou manter acesso aos jogos sem depender exclusivamente de servidores online.
Entre as comunidades mais ativas está o subreddit r/PhysicalMediaMatters, no Reddi, dedicado à preservação da mídia física.
Uma das publicações mais comentadas incentiva usuários a cancelarem a assinatura do PlayStation Plus como forma de protesto.
CANCEL YOUR SUBSCRIPTIONS!
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PhysicalMediaMatters
“Depois do furacão, eu ainda podia jogar”
Entre as respostas à publicação, um comentário resumiu um argumento recorrente entre defensores da mídia física.
O autor relembra que, após um furacão atingir sua região, utilizava um gerador apenas para manter a geladeira, a televisão e um PlayStation 2 ligados durante cerca de duas horas por noite.
Segundo ele, aqueles momentos ajudavam a esquecer temporariamente os estragos causados pela tempestade.
Na visão do usuário, uma biblioteca composta apenas por jogos digitais dependeria de internet ou consumiria a bateria do celular caso fosse necessário utilizar dados móveis em uma situação de emergência.
A ironia que impulsionou a campanha
Foi justamente esse contexto que fez o antigo vídeo da Sony voltar a circular.
Em diversas publicações, jogadores passaram a compartilhar novamente o comercial de 2013 como símbolo de uma mudança de posicionamento da empresa.
O contraste chamou atenção porque o vídeo foi criado justamente para destacar uma vantagem do PlayStation sobre o Xbox: a liberdade de comprar, vender, emprestar e manter jogos físicos.
Agora, parte da comunidade usa a mesma gravação para argumentar que a Sony abandonou aquele discurso.
Por que abandonar a mídia física?
Para parte da indústria, a decisão da Sony vai muito além da substituição dos discos por downloads. Rhys Elliott, diretor de pesquisa da consultoria Alinea Analytics, avalia que a mudança amplia o controle da empresa sobre todo o ciclo de venda dos jogos.
Segundo o analista, um disco físico representa uma unidade de valor que continua circulando depois da primeira compra. O proprietário pode revendê-lo, emprestá-lo ou trocá-lo sem que a Sony participe dessas transações. No ambiente totalmente digital, essa dinâmica desaparece. Quem quiser adquirir um jogo dependerá da PlayStation Store ou das promoções autorizadas pela própria plataforma.
Elliott também argumenta que o desaparecimento da mídia física reduz a concorrência de preços criada pelo mercado de usados. Enquanto um disco pode perder valor com o tempo conforme aumenta a oferta, uma licença digital permanece vinculada à política comercial da plataforma.
Na avaliação do analista, essa estratégia fortalece o controle da Sony sobre seu ecossistema, embora elimine opções que muitos consumidores ainda consideram importantes, como revenda, empréstimo e colecionismo.
A mudança de discurso lembra outro caso conhecido
O resgate do comercial de 2013 também remete a outro episódio recente da indústria do entretenimento.
Em 2017, a Netflix usou sua conta oficial no X (então Twitter) para publicar a frase “Love is sharing a password” (“Amar é compartilhar uma senha”), transformando o compartilhamento de contas em uma peça de marketing para reforçar o crescimento da plataforma.
Love is sharing a password.
— Netflix (@netflix) March 10, 2017
Anos depois, com uma estratégia voltada para aumentar a receita por assinante, a empresa passou a restringir o compartilhamento de senhas entre residências diferentes e implementou cobranças adicionais para usuários que dividem a conta fora do mesmo domicílio.
A mudança de postura gerou críticas semelhantes às vistas agora em relação à Sony. Em ambos os casos, consumidores passaram a resgatar campanhas antigas para apontar uma aparente contradição entre o discurso adotado em um momento de expansão e as decisões tomadas quando a estratégia comercial mudou.
Os dois episódios mostram como campanhas publicitárias podem ganhar um novo significado anos depois, quando a empresa passa a defender um modelo diferente daquele que ajudou a construir sua imagem junto aos consumidores.
Esta postagem foi modificada pela última vez em 08/07/2026 20:28