A arma apontada para o estômago: o negócio ilegal de Steve Jobs antes da Apple que quase terminou em tragédia

O cano de um revólver apontava diretamente para o estômago de Steve Jobs. A porta do carro permanecia aberta no estacionamento escuro de uma pizzaria em Sunnyvale, na Califórnia. Na mão, o jovem segurava uma pequena caixa eletrônica que havia acabado de tentar vender. Em poucos segundos, calculou mentalmente as alternativas: atacar o assaltante usando a porta do veículo ou simplesmente entregar o equipamento. A segunda opção parecia mais plausível para permanecer vivo.

Anos antes de fundar a Apple, e ajudar a transforma-la em uma das empresas mais valiosas do planeta, Jobs ganhava dinheiro vendendo um dispositivo ilegal capaz de enganar o sistema telefônico dos Estados Unidos. A ideia nasceu da genialidade técnica de seu amigo Steve Wozniak, somada ao faro comercial de Jobs, a mesma dupla que, pouco depois, fundaria a Apple.

A história começa em setembro de 1971, quando a mãe de Wozniak deixou sobre a mesa da cozinha um exemplar da revista Esquire. Nele estava a reportagem “Secrets of the Little Blue Box”, que contava como hackers haviam descoberto algo curioso: um apito distribuído dentro das caixas de cereal Cap’n Crunch emitia um tom de exatos 2.600 hertz.

Naquela época, parte da rede telefônica de longa distância funcionava com sinalização em banda, tons de áudio específicos controlavam o roteamento das chamadas. O tom de 2.600 Hz dava acesso a linhas telefônicas e, combinado a outras frequências, permitia fazer ligações interurbanas sem pagar nada.

Wozniak leu a reportagem e correu para o telefone. Ligou para Jobs, na época no último ano do colégio.

“No meio dessa longa reportagem, tive de ligar para meu melhor amigo, Steve Jobs, e ler partes dela para ele”

Os dois mergulharam no funcionamento da rede telefônica, chegando a invadir a biblioteca do Centro do Acelerador Linear de Stanford num domingo só para consultar manuais técnicos restritos. Depois de várias tentativas com componentes analógicos, Wozniak construiu uma versão digital da Blue Box usando diodos e transistores.

“Eu nunca havia projetado um circuito que me desse tanto orgulho. Ainda acho que era incrível”, relembrou ele.

O aparelho funcionava tão bem que a dupla decidiu testá-lo do jeito mais absurdo possível: ligando para o Vaticano. Wozniak engrossou a voz, forçou um sotaque e se fez passar por Henry Kissinger, uma das figuras mais poderosas da política externa americana:

“Estamos no reunion de cúpula em Moscou e precissamos falarr com o papa.”

O papa dormia. Um bispo atendeu e a brincadeira acabou antes de chegar ao destinatário, mas já havia provado o que precisava: o equipamento funcionava!

O instinto comercial

Blue Box

Enquanto Wozniak via a Blue Box como um desafio de engenharia, Jobs enxergou algo diferente: dinheiro. Cada unidade custava cerca de 40 dólares para fabricar. Jobs vendia por 150.

Para se proteger, adotaram pseudônimos, Wozniak virou “Berkeley Blue”, Jobs assinava como “Oaf Tobark”. A venda era direta: os dois rodavam dormitórios universitários e campi da Califórnia fazendo demonstrações ao vivo, ligando de graça para hotéis em Londres ou serviços na Austrália para impressionar compradores em potencial.

O negócio deslanchou rápido.

“Fizemos mais ou menos uma centena de Caixas Azuis e vendemos quase todas.”, relembrou Jobs em sua biografia escrita por Walter Isaacson.

Steve Jobs e Steve Wozniak

O assalto que encerrou o negócio

Foi numa pizzaria de Sunnyvale que tudo desandou. Jobs notou um grupo de jovens que parecia interessado no produto. Depois de uma demonstração bem-sucedida num telefone público, os supostos compradores disseram que iriam buscar o dinheiro no carro. Jobs e Wozniak foram junto.

O próprio Jobs contaria o resto anos depois:

“Então caminhamos até o carro, Woz e eu, e eu estava com a Caixa Azul na mão, e o cara entra, mete a mão sob o assento e saca uma arma.”

Sem desviar o olhar, o assaltante foi direto:

“Então ele aponta a arma direto para o meu estômago e diz: ‘Me dá isso aí, cara’.”

Jobs calculou as opções em frações de segundo:

“Minha mente disparou. A porta do carro estava ali aberta, e pensei que talvez pudesse batê-la nas pernas dele e podíamos correr, mas havia uma alta probabilidade de que ele atiraria em mim. Então devagar lhe entreguei a caixa, com muito cuidado.”

A Blue Box sumiu com o ladrão. Dias depois, porém, o mesmo criminoso ligou para Jobs reclamando que não conseguia fazer o aparelho funcionar, e se ofereceu para pagar pela caixa se recebesse instruções de uso. Jobs até pensou em marcar um encontro público para receber o dinheiro, mas a lembrança da arma apontada para seu estômago falou mais alto. O encontro nunca aconteceu.

A experiência que moldou a futura Apple

Steve Jobs e Steve Wozniak

O episódio pôs fim às vendas das Blue Boxes, mas não à parceria entre Jobs e Wozniak. O projeto tinha provado algo importante: os dois conseguiam desenvolver um produto sofisticado, fabricá-lo em pequena escala e encontrar quem pagasse por ele. Wozniak trazia a engenharia. Jobs transformava aquilo em negócio.

Wozniak resumiria depois o significado daquele período:

“Foi provavelmente uma má ideia vendê-las, mas isso nos deu uma amostra do que poderíamos fazer com minhas habilidades de engenharia e a visão dele.”

Jobs ia mais longe ao avaliar o impacto das Blue Boxes na história da Apple:

“Se não fosse pelas Caixas Azuis, não teria existido uma Apple. Tenho certeza absoluta disso. Woz e eu aprendemos a trabalhar juntos, e ganhamos a confiança de que podíamos resolver problemas técnicos e pôr efetivamente algo em produção.”

E explicou por que uma atividade ilegal deixou uma marca tão profunda:

“Você não acredita quanta confiança isso nos deu.”

A história das Blue Boxes é apenas um dos episódios narrados na biografia de Steve Jobs escrita por Walter Isaacson. O livro reúne relatos do próprio Jobs, de Steve Wozniak e de dezenas de pessoas que acompanharam de perto a criação da Apple, mostrando como experiências improváveis, erros e acertos ajudaram a moldar uma das empresas mais influentes da história da tecnologia.

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Esta postagem foi modificada pela última vez em 08/07/2026 14:18

William R. Plaza: Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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