A odisseia das distribuições Linux, parte 1

A distro odyssey – looking for the best fit, part 1
Autor original: Michael Raugh
Publicado originalmente no:
distrowatch.com
Tradução: Roberto Bechtlufft

Mais cedo ou mais tarde isso acontece com todo mundo: meu desktop de fé, a máquina com a qual eu passei mais tempo do que qualquer outra aqui em casa, pifou. Chegou a hora de trocar de PC. Minha impaciência natural, somada à minha necessidade de estar operacional novamente, me fizeram comprar um PC novo no mesmo dia, mas antes mesmo de chegar em casa eu já estava pensando: qual distro Linux vou usar?

Como era uma noite de domingo, esperei amanhecer e pedi umas dicas no DistroWatch (comentário 12). Com base na sabedoria do grupo que respondeu, percebi que essa era uma boa oportunidade de experimentar a maior quantidade possível de distros, na esperança de encontrar uma que se adequasse às minhas necessidades. Talvez seja até uma boa oportunidade de retribuir, documentando a minha experiência em um artigo para o DistroWatch. Aposto que há outros que, como eu, têm mais curiosidade do que tempo disponível.

Vamos a alguns fatos rápidos para dar um contexto:

  • O hardware: um desktop genérico, montado em uma loja com CPU Intel Core 2 Quad, 4 GB de RAM, dois HDs SATA de 500 GB, porta ethernet 10/100/1000, placa de som genérica, gravador de DVD de camada dupla e um desses leitores de cartão de mídia seis-em-um inserido em um pequeno compartimento. O PC veio com placa de vídeo NVIDIA 7100 onboard, mas eu instalei a NVIDIA GeForce 9500GT do computador antigo, porque eu precisava de duas saídas digitais para meus dois monitores 1680×1050.

  • O usuário: Eu me considero um usuário do Linux razoavelmente experiente. Há seis anos eu monto, dou suporte a e gerencio servidores Linux, e uso Linux no meu desktop principal há cinco. A linha de comando é minha amiga, e já trabalhei com os dois lados da moeda do gerenciamento de pacotes: RPM e DEB. Já instalei pequenos aplicativos a partir dos fontes, e cacei pacotes obscuros para necessidades especiais, mas nunca tentei configurar manualmente o X nem compilar o meu próprio kernel. Até hoje não tive essa necessidade. Como usuário do Linux,eu não me esquento em ter que configurar algumas coisas, mas prefiro fazer isso tudo do meu jeito, ou seja, não me incomodo em fazer pesquisas no Google e tentar descobrir como fazer o que eu quero, mas me irrita muito quando algo dá errado e eu tenho que entrar em “modo de manutenção” para consertar. Eu espero aprender muito nessa jornada.

  • Os aplicativos: todo mundo tem seus aplicativos críticos, aqueles que a gente usa todos os dias, e que têm a obrigação de funcionar bem na distro escolhida. A minha lista é bem pequena:

    • VMware – Eu ainda dependo de alguns aplicativos velhos de Windows para minha tarefa de mestrar RPGs (eu já comentei que sou meio nerd?) e alguns desses programas não rodam via WINE. Felizmente, o PC novo veio com uma licença do Windows Vista Business com direito a downgrade para o XP. Como eu comprei o VMware Workstation para o Linux, ainda não senti muita vontade de brincar com o KVM ou com o VirtualBox.

    • Skype – Tá, ele é fechado e proprietário, mas funciona bem e as pessoas com as quais eu converso costumam usar o Skype. Isso o torna essencial para mim.

    • vpnc – Eu trabalho diariamente com suporte de TI; poder acessar remotamente os meus sistemas é vital, e o cliente vpnc me oferece a conectividade Cisco da qual eu preciso.

    • Audacity – Eu tenho outro emprego, e preciso editar e gravar bastante áudio nele. Tenho um microfone com qualidade de estúdio e um pré-amplificador/mixer conectado ao PC via USB para gravar voz, além de lidar com batidas binaurais e outros truques de mixagem. Para essa tarefa, minha ferramenta favorita é o Audacity.

    • AcidRip, Avidemux, mkvtoolnix – eu também sou um novato fascinado por manipulação de vídeos. Volta e meia eu ripo um DVD que comprei para poder ver no meu tablet Nokia N810, ou baixo (legalmente!) vídeos de sites de grupos de legendagem de animes para depois convertê-los a um formato que o tablet possa rodar com seu processador de baixo desempenho. O velho sistema não tinha força para esse processamento todo, o que me forçava a fazer todo o trabalho no meu laptop Dell (com o Ubuntu “Hardy”); eu quero que meu novo sistema possa fazer essas coisas.

    • Multimídia básica – Como todo usuário, eu quero que meu sistema seja capaz de reproduzir DVDs comerciais e arquivos de música nos formatos mais comuns. Por mim, não tem problema se eu tiver que procurar alguns codecs para isso.

    • Programas básicos de escritório – Como todo usuário, tenho minhas necessidades de autoria de textos, uso de email e navegação na web. Meus favoritos são OpenOffice.org, Thunderbird e Firefox, respectivamente. Também tenho um carinho especial pelo Eterm, graças a um relacionamento duradouro com o Enlightenment 17 há pouco tempo.

É de acordo com esse hardware, com esses requisitos e com esse nível de experiência que vou julgar as distros que eu experimentar. Qualquer distro que atenda a todas as minhas necessidades vai ter direito a pelo menos uma semana de uso, provavelmente mais, para que eu tenha uma boa ideia de como ela se sai após algumas atualizações e surpresas do cotidiano. As que não atenderem às necessidades serão excluídas sem piedade. Que comece a competição!

O padrão: Ubuntu 9.04 “Jaunty Jackalope” de 64 bits

Antes de começar para valer os meus testes de distros, tenho que encarar a realidade: meu PC antigo morreu abruptamente, e eu preciso de um que funcione agora mesmo, e não depois de experimentar meia dúzia de distros para escolher minha favorita. Eu precisava de algo que eu pudesse botar para funcionar rápido, que eu soubesse que ia me oferecer o que eu precisasse, e que talvez pudesse servir como base para as próximas distros que vou avaliar. Para essa função, o escolhido foi o Ubuntu 9.04 “Jaunty Jackalope”. E por quê? Porque a máquina antiga rodava o Xubuntu 8.10 “Intrepid Ibex”, e eu sabia que os pacotes e aplicativos de que eu precisava estariam prontamente disponíveis nos repositórios, com um mínimo de surpresas a serem encontradas.

Para essa primeira instalação eu zerei os discos rígidos, que vieram com o XP pré-instalado, e mudei a configuração inicial de RAID1 para discos separados sem redundância. Pretendo pôr minhas distros de teste no primeiro disco e usar o segundo para armazenar os dados locais que precisam estar disponíveis em todas as distros, como os arquivos de máquina virtual (e talvez mais distros, porque 500 GB é um bocado de espaço para dados locais).

Baseado nos comentários da turma do fórum do DistroWatch, optei pela edição de 64 bits do Jaunty para fazer o melhor uso possível do meu processador e da RAM. O Ubuntu iniciou e instalou sem problemas. Dei 100 GB ao Ubuntu no primeiro disco, e configurei um espaço de 8 GB de swap no segundo disco. Só levou dez minutos para instalar e reiniciar o sistema Ubuntu padrão, plenamente funcional. O tempo de inicialização bateu em impressionantes 24 segundos, do POST ao login pelo GDM. A nova arte da tela de login do Jaunty é terrivelmente atraente. Mas o GNOME continua sendo o GNOME, e o familiar tema Human do Ubuntu, em marrom e laranja, parece idêntico ao de versões anteriores.

Depois veio o primeiro desafio que as próximas distros vão enfrentar: a configuração do X para dois monitores. Pela minhas péssimas experiências anteriores, já sei que é melhor deixar o segundo monitor desconectado até que eu possa baixar e instalar o driver binário proprietário da NVIDIA. Mas o Jaunty se ofereceu para instalar o pacote do driver proprietário para mim. O pacote era a versão 180.44 do driver da NVIDIA, e era esse que eu usava no meu sistema antigo, então deixei o Ubuntu cuidar disso. Reiniciei com o segundo monitor conectado, e mais uma vez cheguei ao desktop do GNOME com apenas uma tela funcionando, mas foi só iniciar o utilitário de configuração da NVIDIA para ativar o segundo monitor e configurar o Twinview. Como o X.Org desativa por padrão a capacidade de reiniciar o X com Ctrl-Alt-Backspace, o jeito mais fácil de reiniciar o X é reiniciando o micro.

No login seguinte, o desktop GNOME surgiu nos dois monitores. O Compiz estava instalado e rodando graças à autodetecção, mas o Ubuntu não oferece o habitual utilitário de configuração simplificada para os efeitos de desktop . Eu instalei o gerenciador de configurações do Compiz (CCSM) pelos repositórios e configurei rapidamente meu grupo favorito de efeitos mirabolantes. Uma mudança que eu notei em relação ao Intrepid foi que, embora o GNOME mostre as duas telas como um único desktop, com uma única imagem de fundo esticada atravessando os monitores, o efeito de cubo do Compiz trata cada tela como um cubo separado. O efeito de rotação fica interessante assim, mas pode ser mudado para um único cubo largo no CCSM.

A instalação do VMware Workstation 6.5.2 se deu sem problemas. Eu criei uma partição de dados em /dev/sdb, montei a partição e coloquei minha máquina virtual com o XP nela, para que as próximas distros pudessem usá-la. Um dos recursos interessantes do VMware 6.5.x é o modo Unity, um modo de exibição que esconde o desktop Windows virtual e permite que os aplicativos da máquina virtual se alojem no desktop Linux. Esse modo é análogo ao Fusion do OS/X, e quando funciona é bem legal. Não funcionou no Intrepid por causa de problemas entre o VMware e o X.Org, portanto a minha expectativa era das piores quando eu cliquei no botão Unity da minha nova instalação. Mas para minha surpresa, o modo Unity funcionou exatamente como o esperado, o que foi um bônus agradável.

O resto foi bem simples, porque eu já estava familiarizado com o Ubuntu no meu PC velho. Foi muito fácil instalar o pacote smbfs para poder montar os compartilhamentos do Samba do meu servidor doméstico que roda o CentOS, e isso me deu acesso a dados vitais que eu tenho no servidor e aos meus volumes de mídia. Adicionei o repositório do Medibuntu, que me forneceu todos os aplicativos e codecs multimídia de que eu precisava, além do Skype. Não demorou para que eu pudesse assistir a um DVD de teste, rodar alguns arquivos de vídeo e alguns MP3s. O PackageKit se ofereceu para baixar o codec de MP3 para mim, e assim o fez sem dificuldades. O maior desafio foi o Skype: a versão mais recente tem um ano de idade e não acompanhou o desenvolvimento do PulseAudio, e foi preciso muito chute para que uma combinação de configurações desse certo.

Com o básico funcionando, voltei minhas atenções a alguns confortos adicionais. O OpenOffice 3.0.1 e o Firefox 3.0 são legais, mas há versões mais recentes que são mais legais ainda. No Ubuntu é bem fácil obter esses pacotes pelo sistema de PPA. Essas instalações não apresentaram problema algum, o que é sempre uma boa.

Depois eu pensei no ambiente de desktop. O GNOME é um bom ambiente de desktop para muita gente, mas a implementação do Ubuntu sempre me pareceu muito sem graça. Parte disso se deve ao visual, e isso pode ser alterado facilmente com uma visita ao gnome-look.org, mas eu ainda não achei um ambiente de desktop que me atraísse como o Enlightenment 17, e até ele tinha grandes desvantagens, como o fato de estar sempre em alfa, resultando em panes frequentes e em muita configuração manual para rodar. No Intrepid eu tinha configurado o Xfce de um jeito que lembrava o E17, usando só um painelzinho com as ferramentas necessárias e deixando a maior parte da tela disponível.

Eu já tinha brincado um pouco com o KDE 4.0, e achei que faltava muita perfumaria nele, fora o fato dele também ser meio confuso. Mas lendo os comentários dos leitores do DistroWatch, achei que valia a pena dar mais uma olhada. Em vez de entupir o novo sistema de pacotes do KDE que eu não queria, testei o KDE em um laptop que eu tinha sobrando com o Jaunty instalado.

O KDE melhorou bastante desde a versão 4.0. A versão 4.2 que acompanha o Jaunty é impressionante visualmente, assim como a 4.0, mas agora os plasmoids e perfumarias disponíveis na interface cresceram ao ponto de me causar uma surpresa agradável. O recurso de Atividades, do qual eu ainda não tinha ouvido falar, é uma forma maravilhosa de basicamente sumir com os gadgets do desktop e trazê-los de volta, dependo do que você estiver fazendo no momento. A composição integrada do Kwin é capaz de realizar muitos dos truques do Compiz, como o popular cubo do desktop, sem precisar de configurações adicionais. O KDE 4.2 até tem um detalhezinho que alegrou o meu coração: o uso da roda do mouse para girar o cubo. Pode parecer uma coisa simples, mas se você já teve que mover o mouse por todo um desktop widescreen duplo para mudar de tela, deve imaginar a utilidade que isso tem. O KDE 4.2 é o primeiro ambiente de desktop em que esse recurso funcionou com o cubo. Isso, somado às Atividades e à beleza geral do KDE, me fez ficar ansioso para instalá-lo no sistema novo.

Mas em nosso segundo encontro, o KDE me decepcionou. Alguns dos recursos que eu amei no laptop não se saíram tão bem no desktop de duas telas. O KDE 4.2 não me permite esticar uma única imagem ao longo das duas telas, por exemplo. Procurei uma solução no Google, e algumas pessoas conseguiram fazer isso funcionar, então parece haver algum mal-entendido entre o KDE, o X e provavelmente o meu driver binário da NVIDIA. O Xinerama, que aparentemente é compatível, não parece funcionar nessa combinação. O Twinview me deu duas telas, que o KDE tratou como desktops isolados. Diminuindo o zoom eu via os dois painéis iguaizinhos em cada tela, e quando eu clicava para criar uma nova atividade o novo painel aparecia muito embaixo no monitor para que eu conseguisse acessar os controles. Atualizar o driver da NVIDIA, baixando uma versão mais recente em formato binário do site da NVIDIA, matou o X e me forçou a ter que mexer em um monte de coisas para o sistema voltar ao ponto em que estava. Ao menos por enquanto eu não vou usar as Atividades no desktop.

Tirando essa decepção, o KDE 4.2 está funcionando e continua lindo, mesmo com o tema padrão. Estou aprendendo o jeito que o KDE 4 tem de fazer as coisas e estou achando mais fácil desta vez. O cubo do meu desktop gira com a roda do mouse e eu tenho duas das minhas imagens favoritas lado a lado, em vez de uma grande imagem esticada. Dá para levar isso numa boa.

Agora já estou com meu sistema funcionando de novo e posso fazer o que eu preciso. O Jaunty vai ser o meu quartel-general, um lugar para onde eu posso correr quando tiver dificuldades que me impeçam de trabalhar. Agora vem a parte mais empolgante: experimentar distros novas e ver como elas se saem comparadas ao Ubuntu.

Leia a segunda parte da odisseia das distribuições de Michael Raugh em: https://www.hardware.com.br/artigos/odisseia-distribuicoes-linux-2/

Créditos a Michael Raugh https://distrowatch.com
Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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Esta postagem foi modificada pela última vez em 17/09/2009 21:57