A odisseia das distribuições 2 – a doutrina do Arch

A odisseia das distribuições 2 – a doutrina do Arch

A distro odyssey, part 2 – the Arch way
Autor original: Michael Raugh
Publicado originalmente no:
distrowatch.com
Tradução: Roberto Bechtlufft

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Clique aqui para ler a primeira parte

Depois de estabelecer uma base confortável com o Ubuntu (9.04 de 64 bits, “Jaunty Jackalope”), tive liberdade suficiente para começar para valer minhas experiências na máquina nova. O primeiro candidato, escolhido após a leitura de um bocado de opiniões e comentários dos usuários do DistroWatch, foi o Arch Linux.

O Arch é bem diferente das distros que eu usei no passado sob diversos aspectos. Para começar, ele não se baseia em nenhuma outra distribuição. Também é um sistema de atualização contínua, ou seja, os pacotes vão sempre sendo atualizados e não é preciso reinstalar para atualizar para a versão mais recente de seus aplicativos, como ocorre com a maioria das distros. Consequentemente, o Arch é uma distribuição com tecnologia de ponta, o que pode ser uma coisa boa ou uma coisa perigosa.

O clima e o jeitão do Arch também são muito diferentes dos de outras distros com as quais eu já trabalhei. O Ubuntu, o Fedora, o Mandriva e outras se esforçam para receber bem os novatos e facilitar sua transição para o Linux. O Arch não faz isso. Ele não é hostil com os novatos de forma alguma, mas a documentação e o site da comunidade deixam bem claro, de maneira polida e razoável, que o Arch é voltado para o “usuário competente do Linux”, e espera-se que os usuários do Arch assumam a responsabilidade pela maneira como gerenciam o sistema. Em troca, o Arch oferece a eles um sistema elegante, atualizado e que só faz o que o usuário o configura para fazer. A filosofia do Arch é chamada de “The Arch Way” (a doutrina do Arch) e é explicada claramente no wiki do projeto. Resumindo, a doutrina do Arch enfatiza um código limpo e sem funcionalidades escondidas do usuário (ainda que, por vezes, o usuário possa preferir o contrário) e um forte respeito pela abertura e pela liberdade nas escolhas e na distribuição do software. Ler e entender essa doutrina ajuda um bocado a preparar um novo usuário do Arch para o que ele está prestes a experimentar.

A instalação

Minha primeira tentativa de instalar o Arch Linux no meu sistema fracassou. Inicializei pelo CD de instalação via rede e passei pelo instalador em modo texto só para ver todas as tentativas de conexão aos mirrors falharem. Consegui dar ping nos mirrors usando a mesma linha de comando na qual o instalador me abandonou, então não se tratava de um simples problema de rede. Acabei atribuindo tudo a alguma esquisitice inexplicável e tentei novamente usando o CD “core”, que instala um sistema básico sem baixar nada da rede. O Arch libera imagens novas dessa versão básica periodicamente, e a mais recente foi lançada em agosto de 2009.

Inicializando pelo CD básico eu fui parar em um prompt de login de texto. Sim, o Arch espera que você faça login como root (até oferece a senha antes do prompt de login) e inicie o instalador digitando o comando por conta própria. O instalador em modo texto é bem organizado e segue as etapas de maneira lógica, mas não explica nada; se você não souber particionar uma unidade, não reconhecer os nomes dos pacotes que deseja ou não deseja e não tiver muita certeza de onde ou como configurar um gerenciador de inicialização, o instalador não vai ajudar. Se você souber – ou se, como eu, tiver um laptop por perto com um navegador aberto no wiki do Arch para tirar dúvidas – vai perceber que o instalador é extremamente flexível e que não é tão difícil de ser seguido.

A sequência básica é linear. Navegando pelos menus de texto, defini o fuso horário e a hora do sistema, criei uma nova partição de 100 GB (/dev/sda2) para abrigar o Arch e configurei-a com um sistema de arquivos ext3 a ser montado como raiz, e usei a partição de swap de 8 GB em /dev/sdb1 que o Ubuntu já tinha configurado para mim. Escolhi os dois grupos de pacotes disponíveis (core e core-dev) e também alguns pacotes manualmente: incluí sudo, xinetd e OpenSSH, por exemplo, e removi os pacotes pcmcia e Bluetooth, já que minha máquina não tem hardware desse tipo. Eu provavelmente instalei algumas coisas das quais não preciso porque não reconheci os nomes dos pacotes ou não sabia o que eles faziam, e o instalador não me deu muitas pistas, mas de modo geral o padrão do instalador não vai causar problemas. A instalação dos pacotes se deu em alta velocidade.

Depois veio uma etapa que eu nunca tinha visto em instalador nenhum: uma lista de arquivos de configuração vitais, que me permitia editá-los ali mesmo. Editei o /etc/rc.conf, que controla o sistema init nos moldes do BSD, os arquivos de configuração básicos, como /etc/hosts, /etc/hosts.allow e /etc/hosts.deny, e configurei a rede, tudo por essa etapa do instalador. Na parte de baixo da lista de arquivos havia uma opção para definir a senha de root. A maioria dos arquivos não precisou de muita edição, já que as configurações padrão do Arch são ótimas para uso geral, mas o processo é educativo porque a maioria das outras distros cuida da edição desses arquivos por baixo dos panos da interface gráfica do instalador.

A última etapa de instalação foi instalar um gerenciador de inicialização. O Arch vem com o GRUB, mas o LILO também está disponível, para quem preferir. O instalador não presumiu nada; ele examinou o sistema, apresentou um arquivo grub.conf para que eu editasse como quisesse com as configurações detectadas já inseridas, e me fez escolher onde eu queria instalá-lo. Seguindo o conselho do Landor na seção de comentários da edição 318 do DistroWatch Weekly, escolhi /dev/sda2 para que meu gerenciador de inicialização do Ubuntu não fosse alterado ou perturbado. Depois, com tudo funcionando, modifiquei o menu.lst, acrescentando algumas linhas ao final:

title Arch Linux
root (hd0,1)
chainloader +1

Isso colocou um item no menu de inicialização do Ubuntu que passa o controle para o gerenciador de inicialização do Arch; desse jeito eu posso continuar inicializando o Ubuntu se quiser.

om tudo isso resolvido, reiniciei o meu novo sistema Arch básico recém-instalado. O sistema básico é exatamente isso: básico. Não há nenhuma interface gráfica, nem serviços em execução além do mínimo necessário para inicializar, fazer login e executar um shell. Essa é a doutrina do Arch – pegue essa configuração básica e instale o que quiser para construir o seu sistema sem tranqueiras e desperdícios. Eu abri o Guia para novatos do Arch – no caso, “novato” quer dizer alguém que chegou agora ao Arch, e não um novato no Linux – e fui lendo para construir meu sistema.

Primeiro eu tive que configurar o sistema para usar os mirrors que eu queria. O Arch oferece um arquivo de configuração de modelo com todos os mirrors listados por país, o que já é um bom começo. Ele também oferece um script em Python chamado “rankmirrors” que testa os mirrors que você selecionar e os classifica em ordem de velocidade de resposta. Esse script me fez conseguir um bom grupo de mirrors com downloads rápidos e instalações de pacotes velozes, o que é importante quando você está baixando um pouco de tudo. Fiz uma atualização inicial em poucos minutos, e notei que o kernel foi atualizado. Criei uma conta de usuário comum para mim, configurei o OpenNTPD e o sudo e reiniciei para que o novo kernel assumisse o posto e eu pudesse continuar trabalhando pela minha conta sem privilégios.

Seguindo o Guia dos Novatos, eu logo botei o som para funcionar e comecei a configurar o X. O Arch oferece acesso pelo repositório aos drivers binários produzidos pela NVIDIA, e eu consegui instalá-los usando o utilitário de gerenciamento de pacotes Pacman. Defini o Xterm como shell gráfico e tive sucesso ao testar o X. Aí chegou a hora de instalar um ambiente de desktop.

Escolhi o KDE 4. Sou um recém-convertido e ainda estou muito feliz com ele, embora ele tenha muita coisa que eu não uso. O Arch, que é uma distro moderníssima, traz o KDE 4.3, e eu estava interessado em experimentar essa versão, que é a mais recente. Instalei o pacote “kde-workspace” que, de acordo com o wiki, instala o desktop KDE básico mas não todos os extras como o KDE PIM e o KMail, mas eu não uso a maioria dessas coisas mesmo. Levou menos de cinco minutos para baixar e instalar o pacote e suas dependências, e logo eu estava pronto para iniciar o KDE.

O KDE abriu na tela com o visual padrão do 4.3. A versão do Arch, conforme propagandeada, contém pouquíssimos itens extras – nada de Network Manager, nem de Folder View ou do gerenciador de arquivos Dolphin, e nem do emulador de terminal Konsole. Foi fácil e rápido adicionar as partes que eu queria com o Pacman. E agora, o que fazer para meu segundo monitor funcionar?

Está bem, eu trapaceei. A interface gráfica do gerenciador de configurações da NVIDIA dependia das bibliotecas do GTK+, que eu não tinha instalado, e portanto não ia rodar. Eu podia ter instalado as bibliotecas do GTK+, mas eu não queria, porque não pretendo usar o GNOME. Em vez disso, eu montei o sistema de arquivos do Ubuntu só para leitura em um ponto de montagem temporário e copiei o xorg.conf dele para o diretório /etc/X11 do Arch. Ao reiniciar o X, o KDE abriu lindamente nos dois monitores, pronto para o trabalho.

Depois eu fui explorar o menu de aplicativos. Geralmente, depois de instalar uma distro nova, há dezenas de aplicativos no menu, muitos dos quais eu não uso e às vezes nem reconheço. No Arch, porém, todos os itens do menu eram coisas que eu mesmo instalei ou que eu reconhecia claramente como um componente do KDE. Foi aí que eu comecei a dar valor à doutrina do Arch.

Comecei a trabalhar com o Pacman em uma sessão do terminal e instalei alguns aplicativos: Firefox, Thunderbird, OpenOffice.org e umas coisinhas multimídia. O Firefox ainda estava na versão 3.5.2, o que me surpreendeu, já que o Arch tem essa reputação de ser moderníssimo. Achar os codecs necessários para minhas necessidades multimídia foi relativamente simples, com uma ajudinha do wiki, e logo eu estava ouvindo músicas e assistindo a vídeos de teste pelos compartilhamentos do Samba hospedados no meu servidor doméstico do CentOS.

O VMware já deu um pouco de trabalho. O instalador do VMware presume que a máquina hospedeira usa o sistema init SystemV normal da maioria das distribuições Linux: uma série de diretórios com links simbólicos para scripts de serviços localizados em /etc/init.d, com cada diretório definindo o que deve ser iniciado no runlevel correspondente. Mas o Arch não funciona assim. Ele usa um sistema init nos moldes do BSD, onde os serviços a serem iniciados são controlados por um único arquivo de configuração (/etc/rc.conf). Isso demandou algumas providências adicionais para enganar o instalador do VMware. Essas providências estão bem descritas no wiki, então não foi nada muito desafiador. VMware instalado, máquina virtual reconhecida, tudo funcionando sem problemas.

Com o sistema plenamente funcional, todos os aplicativos que eu preciso ter funcionando estavam nos trilhos, e eu comecei a divertida tarefa de decorar o sistema. O novo tema Air do KDE 4.3 é legal, mas eu prefiro o Oxygen do KDE 4.2, então fiz a mudança e escolhi outra imagem como papel de parede, tirada do meu site de arte favorito, o Digital Blasphemy. Tive que adicionar mais alguns pacotes para conseguir os plasmoids que eu gosto de usar, como o Folder View (exibição de pastas). Aí as coisas ficaram mais interessantes.

Sou um grande fã do tema de decoração de janelas chamado skulpture”. O tema não vem com o KDE. SUSE, Mandriva, Fedora, Ubuntu e outros oferecem pacotes dele nos repositórios, mas não o Arch – procurei no Pacman e não achei nada. O mesmo vale para o plasmoid personalizável de meteorologia de que eu gosto (embora o código fonte esteja disponível no AUR, um repositório de pacotes com os fontes e scripts de compilação tocado por usuários). Sendo assim, segui a doutrina do Arch, baixei o código fonte e o compilei por conta própria. O processo foi simples e indolor depois que adicionei algumas bibliotecas necessárias, e me permitiu configurar um desktop bonito e altamente funcional, como ilustram as fotos abaixo.

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Um desktop Arch Linux personalizado com o KDE 4 (papel de parede (c) 2009 por Ryan Bliss, >Digital Blasphemy)

Aí temos a exibição da pasta Desktop, com links para pastas de documentos na máquina local e nos compartilhamentos de rede, e um conjunto modesto de plasmoids úteis. Eu configurei o painel extra no canto inferior direito para imitar a barra de ícones do Xfce ou do Enlightenment 17, para ter acesso mais conveniente aos aplicativos mais usados sem ter que ir até o menu K. Isso é um tapa-buraco enquanto espero pelo KDE 4.4, que vai restaurar a capacidade de clicar em qualquer lugar do desktop para exibir o menu de aplicativos.

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Mais personalizações do desktop do KDE 4 usando o Arch Linux (papel de parede (c) 2009 por Ryan Bliss, Digital Blasphemy)

O resultado

Minha instalação do Arch está em igualdade funcional com a configuração modelo do Ubuntu em termos de aplicativos e luxos adicionais. Posso tocar todas as minhas atividades diárias no Arch e eu o tenho usado para isso desde que concluí a configuração. Apesar de ter começado a usá-lo há poucos dias, já consigo reconhecer e admirar algumas diferenças.

No lado positivo, o Arch acabou com dois probleminhas irritantes que me incomodavam no Ubuntu. O primeiro é a lentidão para gravar em dispositivos USB: pouco depois de configurar o “Jaunty”, eu tentei copiar um vídeo para um cartão SDHC e fiquei me perguntando por que o sistema levou vinte minutos para copiar 2 GB de arquivos no meu computador Quad Core. Ao procurar pelo problema no Google, encontrei vários posts dizendo que se tratava de um bug conhecido nos kernels de 64 bits do Ubuntu. O bug existe desde a versão 8.04 (“Hardy Heron”) e ainda não foi corrigido. O kernel do Arch não tem esse bug; copiei os mesmos 2 GB para um cartão SDHC vazio pelo Arch e a cópia foi concluída em menos de três minutos. Fiquei altamente satisfeito.

Outro probleminha que me incomoda no Ubuntu é a reinicialização. Eu costumo montar vários compartilhamentos do Samba do meu servidor – o Samba é conveniente e acessível para quase tudo, enquanto o NFS tem problemas de gerenciamento bem conhecidos – e com o Ubuntu eu tinha que lembrar de desmontar os compartilhamentos antes de reinicializar, do contrário o sistema travava no meio do processo. Parece que o Ubuntu encerrava o serviço de rede antes de desmontar os sistemas de arquivos, o que fazia com que os compartilhamentos do Samba fossem perdidos e o sistema travasse. O Arch encerra tudo direitinho, evitando o problema.

Também posso dizer com certeza que o Arch inicia e roda mais rápido do que o Ubuntu que configurei no mesmo hardware. Isso, obviamente, se deve em grande parte ao fato de eu estar rodando um número bem menor de serviços. Para ser justo, o Ubuntu também iniciaria mais rápido se eu desabilitasse os serviços padrão de que eu não preciso. O mesmo vale para o carregamento do KDE, e o Arch abriu um desktop funcional bem mais rápido do que o Ubuntu porque não tem que carregar o Network Manager (para que isso em um computador desktop que só tem uma placa de rede?), os serviços de PIM e as outras coisas que vêm por padrão no Ubuntu. Eu poderia abrir o gerenciador de pacotes do Ubuntu e tirar o máximo dessas coisas que as dependências me permitissem tirar para melhorar o desempenho, mas com o Arch eu não preciso fazer isso.

Outra vantagem do Arch é que o software é bem atual. Tirando o Firefox, todos os aplicativos que eu instalei estão em suas versões atuais: OpenOffice.org 3.1, Thunderbird 2.0.0.22, KDE 4.3 etc. Como o Arch pode ser atualizado continuamente, fico na expectativa de receber o Thunderbird 3, o KDE 4.4 e versões mais recentes do Firefox quando elas forem lançadas, em vez de ter que esperar por uma nova versão atualizada da distro. No Ubuntu, que saiu em abril de 2009, eu tive que instalar o Firefox 3.5 e o OpenOffice.org 3.1 por conta própria a partir de repositórios alternativos, e se quisesse o KDE 4.3 ou o 4.4, teria que fazer o mesmo. Quanto mais você faz essas coisas, maiores ficam as chances de incompatibilidade.

No lado negativo, certamente deu mais trabalho botar o Arch configurado e operacional. Na verdade eu fiz quatro instalações: uma de testes em uma máquina virtual só para sentir como era o instalador, depois a instalação via rede que não deu certo, depois uma instalação básica que cancelei ao não conseguir seguir o guia de instruções oficiais, que é mais genérico e menos útil do que o guia para novatos, e finalmente a instalação que descrevi aqui, na qual estou trabalhando agora. O gerenciador de pacotes Pacman só funciona pela linha de comando; não há interface gráfica para pesquisar e navegar pelas listas de pacotes, e os usuários do Arch têm que se acostumar à capacidade de pesquisa do Pacman para encontrar o que querem. Digitar “pacman -Ss <termo de pesquisa> | less” já virou hábito para mim.

Se o trabalho extra vale a pena? Eu acho que sim, ao menos pela minha experiência até agora. O Arch é ágil e confiável, e o fato de poder ser atualizado continuamente significa que não vou ter que passar pela instalação outra vez neste computador se não quiser (tirando eventuais catástrofes com o hardware, é claro). O Arch se tornou a minha nova base de operações, e a partir dela vou continuar minha odisseia.

Créditos a Michael Raugh http://distrowatch.com
Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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