Sábado, 12 de outubro de 2024. Após 4 anos, finalmente, Chaves e Chapolin voltaram a ser exibidos na TV aberta no Brasil pelo canal responsável por consagrar os seriados no país: o SBT.
A exibição faz parte de um conjunto de novidades relacionadas à obra de Chespirito. A família de Bolaños, dona dos direitos das obras, e a Televisa, emissora responsável pelos registros em vídeo, chegaram a um acordo que permite a volta dos episódios. Esse acordo não se restringe à TV aberta e também contempla serviços de streaming, que já estão disputando pelos direitos de exibição.

Diferente do Multishow, que em 2018 exibiu os episódios de Chaves e Chapolin na ordem original de produção, o SBT optou por seu estilo característico: a aleatoriedade. Os episódios escolhidos foram os seguintes:
Chapolin:
13h20 – Chapolin: O abominável homem das neves (1976);
13h41 – Chapolin: História de bruxas (1976);
Chaves:
14h01 – Chaves: História de hoje: vamos todos a Acapulco – Parte 1 (1977);
14h23 – Chaves: Os farofeiros – Parte 2 (1977);
14h42 – Chaves: Os farofeiros – Parte 3 (1977).
Em resumo, tivemos Chapolin dormindo no sleeping bags, a bruxa baratuxa com seu clássico “parangaricutirimirruaro” e a icônica aventura de Chaves e sua turma em Acapulco (ou Guarujá, na versão brasileira).
Assim como muitos brasileiros, estava em frente à TV para assistir a esse retorno dos seriados. Parte disso é o sentimento de nostalgia. Assistir a essas aventuras na TV traz toda uma memória afetiva. Além disso, eu tinha uma dúvida: os episódios teriam algum tipo de tratamento de imagem, uma remasterização?
Como expliquei neste artigo, onde falo sobre aspectos técnicos dos seriados e os modelos de câmera usados, Chaves e Chapolin foram captados em tape e não em película. Então, nunca veremos uma remasterização comparável a alguns filmes antigos, baseados em um escaneamento dos negativos.
Há, porém, alternativas para melhorar a imagem, como ajustes no color grading e o uso de IA – uma solução cada vez mais popular, mas também polêmica.
A IA como muleta
A Televisa utilizou inteligência artificial em alguns episódios de Chaves e Chapolin transmitidos em sua plataforma de streaming, o VIX. E o SBT seguiu o mesmo caminho, embora tenha usado um processo interno.
Ao que parece, o SBT utilizou um processo interno para esse tratamento nos episódios, não é o mesmo utilizado pela Televisa. Basicamente o SBT pegou o lote de episódios antigos que tinha em mãos e passou por um filtro de IA.
E ficou bom? Não!
É importante dizer que muita gente nem liga para esses detalhes e está feliz só de ver os episódios. Totalmente compreensível. Mas também há uma parcela que está disposta a discutir sobre isso, é o nosso papel aqui, e acredito que você também esteja interessado nesse ponto.
O resultado foi um festival (não o da Boa Vizinhança) de anomalias na imagem: um peso excessivo na definição, transformando os atores em bonecos de cera, além de uma confusão visual entre elementos detalhados em primeiro plano e um blur estranho no fundo. Em Chaves houve até a perda de contraste em comparação com os episódios do lote antigo. As imagens estavam mais flats.


E não para por aí: o desfoque causado pelo movimento ao tentar dar mais fluidez ao vídeo resultou em um efeito fantasma pavoroso.
O que fica claro é a falta de uma curadoria humana no processo. Especialmente em Chaves, a impressão é de que tudo foi feito no automático, exportado e exibido sem nenhuma revisão mais cuidadosa.

Em Chapolin, no episódio do Abominável Homem das Neves, o resultado não foi de todo ruim, principalmente no grading de cor. Embora esteja um pouco saturado, algo que pode incomodar alguns, no geral as cores mais vivas deram um aspecto interessante às cenas, juntamente com um up nos detalhes através da IA.
Evidentemente ocorreram problemas pelo fato da IA estar atuando, principalmente na completa perda de detalhamento entre elementos do segundo plano.
Já no episódio História de bruxas, o SBT acabou errando no áudio, que parecia ter um leve eco, como se houvesse uma duplicação das trilhas – uma espécie de overdub nas falas.
Em Chaves há pouco o que se elogiar em relação a esse tratamento de imagem nos episódios. Alguns momentos foram constrangedores, como na icônica cena em que Chaves canta a música “Boa noite, Vizinhança”, com os demais personagens ao fundo, em volta da fogueira. Aliás, o que foi essa cena, hein? Tudo “lagado”, o vídeo estava em que, 10, 15 fps? É inconcebível que isso tenha passado batido pelo aval de alguém que viu o resultado e achou que estava ok para ser exibido. O vídeo também ficou bem escuro e o tom das cores também está ligeiramente diferente.
Em outras cenas o resultado foi igualmente cruel. Como no frame que capturamos para a imagem que abre o post. O rosto do pobre Chaves ficou parecido com o fisiculturista russo Giga Chad.
A ideia do uso pleno da IA para solucionar boa parte dos problemas relacionados a restauração de conteúdo antigo é uma verdadeira sandice, pelo menos até o momento.
Esse tipo de tratamento precisa estar aliado a bons profissionais que irão notar até que ponto o resultado é realmente consistente, e trabalhar em cima. Da mesma maneira como a restauração de filmes antigos, captados em película, exigem uma equipe de profissionais para remover artefatos deixados pelas películas, retrabalhar a coloração, etc.

Claro que tudo isso envolve custos, e não sabemos até que ponto SBT e Televisa estão dispostos a investir em uma remasterização realmente profissional. Talvez um bom color grading já funcionasse como uma ideia de remasterização, sem precisar recorrer a uma IA aleatória que acaba prejudicando a obra. Vamos torcer para que os próximos episódios exibidos recebam um tratamento melhor.
E você, assistiu à reestreia no SBT? O que achou do tratamento da imagem? Comente abaixo.
Aproveire também para assistir ao vídeo que fizemos relembrando um jogo criado por um desenvolvedor brasileiro que fez muito sucesso no Brasil, o clássico Street Chaves:




