Entrevista com Chris Hildebrandt, do projeto Sidux

Entrevista com Chris Hildebrandt, do projeto Sidux
Interview with Chris Hildebrandt, the sidux project
Autor original: Ladislav Bodnar
Publicado originalmente no:
http://distrowatch.com
Tradução: Roberto Bechtlufft

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O projeto Sidux já desponta como uma das distribuições de maior destaque do ano. Com uma abordagem metódica, que visa transformar o Debian unstable em um desktop mais estável, ágil e agradável, muitos usuários estão descobrindo os prazeres de usarem as últimas novidades de uma grande distribuição, sem correr os riscos habituais de se usar um sistema que muda tão depressa. O DistroWatch conversou por email com Chris Hildebrandt, um dos fundadores do projeto, para descobrir os segredos do Sidux. Muito gentil, Chris falou por toda a equipe de desenvolvimento, enfatizando que o projeto não tem um líder, mas sim um time de membros equivalentes da comunidade: “O projeto Sidux não tem nem precisa de líderes; na verdade, uma de nossas maiores motivações para dar início ao Sidux foi provar que um projeto open source sério pode ser tocado pelo trabalho em equipe e pela cooperação de membros equivalentes da comunidade. Embora não seja um programador profissional, eu fui um dos fundadores e arquitetos do Sidux. Falo em nome de toda a equipe (que foi consultada sobre cada uma de suas perguntas), mas na verdade sou apenas um membro de pouca importância neste grupo maravilhoso de pessoas que estão criando o Sidux.”

DW: Chris, muito obrigado pela sua atenção. Para começar, você poderia se apresentar? Quantos anos você tem? Onde você mora? O que você faz para ganhar a vida?

CH: Eu nasci há 46 anos em Viena, na Áustria. Já vivi e trabalhei na Grécia, Alemanha, Suíça, Rússia e Estados Unidos. Já faz oito anos que voltei a Viena para trabalhar como consultor de gestão. Sou casado e feliz, e tenho três filhos. Além da família e do trabalho, também gasto boa parte do meu tempo livre trabalhando em diversos projetos open source. Com isso, a maioria dos meus outros hobbies desapareceu com o passar dos anos.

DW: Há quanto tempo você usa Linux? Que distribuições você já usou?

CH: Eu trabalho com servidores de hospedagem e desenvolvimento web, e já usei várias distribuições Linux para administrar e manter funcionando esses servidores. Como eu amo experimentar sistemas operacionais há uns trinta anos, já testei quase todas as distros disponíveis. Mas o desktop Linux é algo que só descobri há cinco anos. Depois de testar algumas distros famosas, eu logo me senti atraído pela beleza do Debian e seus derivados. Depois de usar o KNOPPIX e o SimplyMEPIS por um tempinho, achei meu lar no KANOTIX e acabei me envolvendo com o projeto. Mas desde que começamos o Sidux, é só ele que eu rodo nas minhas máquinas. Volta e meia eu dou uma olhada em outras distribuições, mais para ver o que elas fazem e como o fazem.

DW: Se eu me lembro bem, o Sidux começou como um fork do KANOTIX, quando o desenvolvimento do KANOTIX diminuiu a marcha e mudou do Debian Sid para o Debian stable. Mas como, exatamente, você chegou a esse ponto sem volta? Você tentou resolver suas diferenças com Jörg Schirottke (fundador do KANOTIX) ou simplesmente concluiu que a melhor maneira de lidar com suas opiniões conflitantes seria cada um ir para o seu lado?

CH: Quando o Sidux fez um ano eu aproveitei a oportunidade para escrever sobre as motivos da separação . Vários membros da equipe do Sidux também expressaram seus pontos de vista. Resumindo, passamos meses tentando resolver nossas diferenças, mas infelizmente não foi possível. Nunca houve um fork, mas sim um novo começo com aqueles que já se conheciam e que queriam continuar a trabalhar juntos.

DW: Vamos falar sobre o Sidux em si. Ele é um derivado do Debian unstable, o que às vezes pode ser complicado. Como você mantém o sistema estável? Você tem alguma rotina de testes específica?

CH: Sim, o milagre de converter o unstable em um sistema operacional estável e confiável para o dia-a-dia depende de muitos testes e correções. Nossa equipe de testes é formada por mais de cinqüenta pessoas que tentam estragar o Sidux todo dia, para torná-lo mais estável para os usuários. Aqueles que gostam de fazer testes estão convidados a se unirem a nós em nosso fórum e no IRC, para nos ajudarem nessa árdua tarefa. As correções são feitas de diversas maneiras, de preferência enviando bug reports aos mantenedores responsáveis do Debian ou patches diretamente aos autores dos pacotes em questão. Mais do que isso, a equipe de desenvolvimento busca sempre oferecer correções temporárias pelo repositório do Sidux até que pacotes corrigidos apareçam nos mirrors do Debian. Isso ajuda a garantir que as panes pelas quais o Sid é famoso não façam parte do “dist-upgrade” da maioria dos usuários do Sidux.

DW: E quanto ao kernel? Sei que o Sidux traz seu próprio kernel, mas no que ele difere do kernel do Debian? Ele tem alguns patches interessantes?

CH: Os kernels do Sidux são obra de Stefan Lippers-Hollmann (slh), um de nossos desenvolvedores mais importantes e bem informados. A partir do kernel original, ele combina importantes ajustes na configuração à inclusão de diversos patches, bem como de alguns drivers importantes. Isso é parte do segredo do Sidux para detectar mais e mais hardware a cada novo kernel. Toda a equipe de desenvolvimento está sempre ocupada analisando o feedback da comunidade e encontrando novos drivers que possamos implementar. Também acompanhamos cuidadosamente os projetos de desenvolvimento de drivers e nos envolvemos sempre que é legal e tecnologicamente possível.

DW: O Sidux tem algum código do KNOPPIX ou do KANOTIX? Talvez os módulos de detecção de hardware do KNOPPIX? Ou alguns patches do kernel do KANOTIX?

CH: Para nos mantermos fiéis aos nossos princípios quanto ao código e preservarmos 100% de compatibilidade com o Debian (e também para evitarmos problemas legais) nós desenvolvemos e utilizamos apenas código nosso. Nunca fomos um fork. Todos os pacotes e ferramentas do Sidux foram desenvolvidos pela nossa equipe. E como todo projeto verdadeiramente livre, todo o código do Sidux está disponível ao público. Disponibilizamos todos os fontes a cada lançamento e nossos repositórios SVN estão abertos a todos.

DW: O Sidux se enquadra na categoria dos live CDs instaláveis. Quem criou o instalador gráfico?

CH: Como ocorre com todas as ferramentas do Sidux, há scripts em nível de hardware que nos dão a funcionalidade, e uma interface é construída sobre eles. Os scripts de instalação foram criados e otimizados por toda a equipe de desenvolvimento, enquanto a interface gráfica é em boa parte obra de Horst Tritremmel (hjt).

DW: O arquivo sources.list do Sidux inclui dois repositórios – Debian Sid e Sidux sid, ambos habilitados por padrão. Qual é a diferença entre eles? É seguro adicionar o imprevisível repositório do Debian unstable? Posso atualizar meu Sidux regularmente e ter esperanças de que a viagem seja tranqüila? O que você recomenda aos que querem instalar o Sidux e mantê-lo atualizado?

CH: O Debian Sid é nossa fonte principal de pacotes, usamos todo o repositório do Debian como nossa base, que contém mais de 20.000 pacotes até agora. Os repositórios do Sidux complementam os do Debian com nossos programas e scripts, bem como com algumas correções temporárias. Fazemos de tudo para oferecer um lançamento que não pára, isto é, que seja um ponto de entrada em um momento específico do Debian sid, mas que pode e deve passar por um “dist-upgrade” regularmente. A viagem é tranqüila porque direcionamos os esforços de toda a nossa equipe para um objetivo: fazer do Debian stable um sistema operacional estável e confiável.

Eu recomendo “dist-upgrades” semanais, mas é sempre bom consultar nosso website antes de fazer isso. Também oferecemos scripts e ferramentas para tornar essa tarefa a mais simples possível para todos. Um deles é o script smxi, de Harald Hope (h2). Outros são o xadras e o Centro de Controle, de Fabian Wuertz.

DW: Minhas primeiras impressões visuais das primeiras versões do Sidux não foram muito boas. Mas dois anos depois, eis que ele traz um visual muito bonito (embora isso seja subjetivo), em especial devido ao novo tema, ao papel de parede e às cores leves do desktop. Quem é o responsável por isso?

CH: Temos muito orgulho de contar com pessoas tão talentosas em nossa equipe de arte. O tema do Eros, a última versão do Sidux, foi obra de Bernard Gray (clearly), já o design do Nyx, a nova versão, foi criado por ele, Daniel Prien (Daniel-S-P) e klaymen, e por toda a equipe de arte.

telaA arte sedutora é uma das características interessantes do Sidux 2008-01.

DW: Quantos outros desenvolvedores trabalham no Sidux?

CH: Há 13 desenvolvedores na equipe principal no momento, e umas dez ou vinte pessoas que contribuem com scripts, patches e outras coisas. Os desenvolvedores mais ativos no momento são Kel Modderman (kelmo), Joaquim Boura (x-un-i), slh e hjt.

Mas o Sidux é um projeto da comunidade e embora bom código seja importante, há muito trabalho vital que não envolve código e é realizado por um grupo cada vez maior de pessoas. Nosso maravilhoso manual é escrito e traduzido pela equipe de documentação, um grupo de mais de trinta pessoas coordenado por Trevor Walkley (bluewater), encarregado desse trabalho cansativo e complicado. Já mencionei a equipe de arte, que garante que o Sidux terá um belo visual mesmo ao seu olhar crítico ;-). Também temos a equipe de suporte, com mais de 20 pessoas lideradas por Ferdi Thommes (devil), que também é integrante de várias outras equipes (ele parece estar em todo lugar) e também da e.V, nossa sociedade sem fins lucrativos, respondendo a perguntas e ajudando aos usuários dia e noite no fórum e no IRC. Os membros da e.V (55 até o momento) são ótimos, e cuidam das nossas finanças, da loja, das atividades de marketing e apresentam o Sidux ao mundo.

Também há muita gente cuidando da comunicação e da comunidade, e algumas pessoas cuidando de nossos mirrors e servidores – em especial, Aedan Kelly (etorix).

DW: Quais são seus planos para o futuro? O Sidux vai seguir o Debian Sid para sempre ou você tem alguma surpresa interessante para nós?

CH: Sim, é seguro afirmar que o Sidux será sempre baseado no Debian sid. Consideramos o Sidux um Debian Sid com tempero ;-). Cada nova versão traz novas características e ferramentas. Temos um melhor suporte a desktops alternativos engatilhado; já vi um instalador para o Eee PC, um melhor suporte a instalações USB, um melhor suporte a hardware sem fio, e com certeza há muito mais a caminho. Por isso, devo fazer um pedido importante: quanto mais hardware pudermos testar, maior será a compatibilidade do Sidux. Gostaríamos muito de trabalhar com fabricantes de hardware, que nos forneceriam equipamentos para testes, para que pudéssemos oferecer uma boa compatibilidade de hardware que posteriormente se estenderia a todas as distribuições Linux.

Talvez vejamos uma interface gráfica para nossos scripts de masterização ser criada e documentada, o que permitiria a nossos usuários criar suas próprias versões do Sidux. Mas isso é mais para frente.

Adoramos surpreender nossos usuários. Então, experimente nossa última versão e curta as surpresas!

DW: Chris, muito obrigado por sua atenção, e boa sorte com seu projeto!

CH: Obrigado, mas o Sidux está longe de ser o “meu” projeto. Eu sou, entretanto, um orgulhoso membro da grande comunidade do Sidux.

Créditos a Ladislav Bodnarhttp://distrowatch.com
Tradução por Roberto Bechtlufft <robertobech at gmail.com>

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