‘Atividades’ e os desktops orientados pelo contexto

Activities and the move to context-oriented desktops
Autor original: Bruce Byfield
Publicado originalmente no:
lwn.net
Tradução: Roberto Bechtlufft

Parece que a próxima palavra “quente” nos desktops vai ser “atividades”. Há boas chances de você ainda não ter ouvido falar em “atividades”, e caso tenha ouvido, talvez não tenha identificado um ponto em comum nos diferentes usos do termo. Mas o que todos os usos dessa palavra têm em comum é o fato de indicarem a mudança de um desktop estático para um que se transforma de acordo com as tarefas realizadas.

Qualquer definição mais exata é fugaz. O que importa é que as atividades já são parte do KDE 4, e devem se tornar mais proeminentes na versão 4.3, que vem por aí. O GNOME 3.0, que deve sair no ano que vem, também vai incluir seu próprio (e mais limitado) conceito do termo. Mas em qualquer implementação, o termo indica uma mudança no desktop, e os desenvolvedores do software livre estão na frente, mostrando o caminho.

O conceito de atividades se originou no Sugar, desktop desenvolvido pelo projeto OLPC (One Laptop Per Child). No Sugar, a palavra “atividades” é um sinônimo para “aplicativos”. Mas Gary C. Martin, um dos coordenadores da Equipe de Atividades do Sugar, explica que a mudança é mais do que semântica ou mero marketing. Como as atividades rodam dentro da estrutura colaborativa do Sugar, a intenção é a de que seu uso seja uma experiência muito diferente da que se tem ao executar um aplicativo isoladamente em um desktop tradicional.

Para mim, a parte mais importante das atividades é que elas combinam os conceitos de documentos, executáveis e de estado de colaboração em uma única interface de usuário, fácil de usar. Com o estado da atividade armazenado automaticamente no journal do sistema de arquivos, fica fácil retomar ou atuar sobre um trabalho realizado anteriormente, e tendo a colaboração em tempo real como recurso de primeira classe, o trabalho em equipe e o compartilhamento são fortemente encorajados.

Em outras palavras, as atividades do Sugar não se resumem a executar um aplicativo, ou a aprender como criar uma planilha ou uma apresentação. Em vez disso, elas foram concebidas para serem parte da experiência total de aprendizado que o Sugar foi desenvolvido para oferecer.

“A ideia não é produzir documentos com aplicativos”, explica Martin, “mas sim aprender ao realizar as atividades. As atividades são o coração do aprendizado com o Sugar. Elas permitem que uma sala de aula trabalhe em equipe, permitem ver o que os outros estão fazendo, compartilhando, aprendendo, sem nunca ignorar o trabalho de ninguém e permitindo a pais e professores refletir sobre esse trabalho.” Embora a mecânica de execução de uma atividade não seja tão diferente da execução de um aplicativo no GNOME ou no KDE, o que importa é o contexto em que esse aplicativo é usado.

A implementação do KDE

Parte da filosofia de desenvolvimento do KDE 4 é voltada para acomodar a crescente sofisticação dos usuários, de acordo com o veterano desenvolvedor do KDE, Aaron Seigo. Graças aos dispositivos móveis e aos consoles de videogame, muitos usuário – especialmente os mais jovens – se sentem limitados pelos desktops estáticos. O desktop tradicional também não é especialmente adequado para usos múltiplos e especializados, que vão da produtividade em escritório às redes sociais. O desktop ideal pode variar consideravelmente, dependendo do que a pessoa esteja fazendo: trabalhando, assistindo a aulas ou sociabilizando.

Mesmo em uma única atividade, as necessidades de uso de um desktop podem mudar, explica Seigo:

Vendo as pessoas usando seus computadores, nós percebemos que muitas pessoas que trabalham em mais de um projeto ao mesmo tempo reorganizavam seus ícones a cada projeto. Os designers gráficos, por exemplo, trabalhavam em dois ou três projetos. Ao trabalhar em um projeto, eles colocavam todos os ícones e arquivos com os quais iam trabalhar no desktop. Depois, quando acabavam aquele projeto, colocavam os ícones de volta em uma pasta que não estivesse à mostra no desktop e moviam todos os ícones do segundo projeto para o desktop.

Foi para simplificar a computação para esses usuários mais sofisticados que nasceu o conceito de atividades do KDE: desktops com seus próprios conjuntos de widgets, ícones e aplicativos, que podem ser alternados por atalhos de teclado, ou pelo uso da opção “afastar” do Desktop Toolkit, o ícone em formato de castanha de caju na parte superior direita do desktop.

Originalmente, esses desktops foram chamados de “recipientes” por Chani Armitage, a desenvolvedora que os implementou primeiro:

Mas eu não gostei da palavra ‘recipiente’, porque era muito técnica. Na época eu vinha usando o OLPC há algum tempo, e minha inspiração veio de lá. Nós meio que optamos por usar o termo e demos a ele um sentido levemente diferente do que eles usavam.

Em alguns aspectos, as atividades lembram os desktops virtuais, que o KDE e outros desktops vêm usando há anos. Seiko admite que “as duas ideias se completam”, mas ele sugere que a semelhança depende da forma como você usa os desktops virtuais. Se você os usa principalmente para separar as janelas – por exemplo, para manter um terminal virtual sempre a postos, ou para rodar um navegador web em tela cheia – não faz muita diferença optar pelos desktops virtuais ou pelas atividades.

Mas se você usa os desktops virtuais para tarefas diferentes, Seigo sugere que as atividades oferecem uma experiência superior, mais próxima dos dispositivos móveis e mais adequada a algumas das funcionalidades planejadas para a versão 4.4 do KDE (como veremos mais abaixo). Ainda assim, devido à demanda dos usuários, o KDE 4.2 permite que uma atividade seja vinculada a um desktop virtual específico por meio da alteração de uma configuração, e a versão final do KDE 4.3 incluirá uma configuração com essa mesma finalidade.

Seigo enfatiza que a maior visibilidade das atividades na versão 4.3 não tem a intenção de pressionar as pessoas a fazerem uso delas. “O que é realmente interessante nesse conceito é que é possível ignorá-lo completamente”, diz ele. “Ele fica totalmente fora do caminho.” Afinal, ele comenta, “para algumas pessoas, as metáforas atuais funcionam bem”, especialmente para aqueles que não carregam seus computadores por aí ou para quem os usa para obter uma produtividade básica.

A maior mudança anunciada pelas atividades, de acordo com Seigo, é que, ao contrário do que acontece no desktop tradicional, elas não forçam o usuário a seguir um único modo de trabalho para todas as tarefas:

A ideia não é mais a de forçar as pessoas a trabalharem de uma determinada maneira. Em vez disso, estamos tentando construir interfaces relevantes para os dispositivos nos quais o usuário vai usá-las, ou seja, que dependem de onde você está e de quem você é. Isso é algo que muita gente ainda não “captou”.

As pessoas estão pedindo mais flexibilidade, e do jeito que nos encontramos em termos de hardware, ela pode ser oferecida sem qualquer pressão sobre os recursos do sistema.

Os espaços de trabalho do GNOME 3.0

Possivelmente por causa do uso que a equipe do KDE faz do termo, a implementação de múltiplos espaços de trabalho (os desktops virtuais) está gerando alguma confusão quanto ao GNOME-Shell, que está previsto para se tornar a base do GNOME 3.0.

Pelo que foi implementado até agora, as atividades do GNOME-Shell são uma camada para a organização de espaços de trabalho e para a organização de grupos de janelas dentro deles. De muitas formas, isso lembra a visão de zoom do KDE. Mas algumas pessoas vêm se referindo incorretamente aos espaços de trabalho como se fossem atividades, uma mudança de referência que pode pegar, e que faz o GNOME 3 se parecer mais com o KDE 4.

Até agora, esses espaços de trabalho funcionam da mesma forma que nas versões recentes do GNOME e do KDE, sem capacidade de personalização individual, e nenhum plano para ampliar sua funcionalidade foi anunciado. Mas como ainda faltam dez meses para o lançamento previsto para o GNOME 3.0, isso pode mudar, especialmente se o uso das atividades do KDE se tornar muito popular. Nesse ponto, no entanto, mesmo se a referência for diferente, o uso do termo sugere que os desenvolvedores do GNOME também estejam pensando em computação contextualizada. E mesmo se a implementação se mantiver como está hoje, seu modo de camada continua representando uma menor ênfase no desktop único e estático.

Próximas atrações

A forma exata como o GNOME 3.0 vai implementar as atividades permanece incerta. Enquanto isso, os desenvolvedores do KDE já estão contemplando os desenvolvimentos futuros da computação contextualizada. Armitage falou sobre permitir que as atividades sejam desativadas e armazenadas. Talvez, ela imagina, os aplicativos possam se tornar mais contextualizados; o KMail, por exemplo, poderia ser configurado para usar um catálogo de endereços específico ao ser aberto em uma determina atividade.

Uma mudança que já está nos planos do KDE 4.4 é associar uma atividade a um local determinado usando a nova camada de localização geográfica do KDE. Um professor universitário, por exemplo, poderia ter uma atividade com suas observações e slides sendo aberta automaticamente quando o KDE fosse iniciado numa determinada sala de aula, e outra atividade com suas pesquisas sendo aberta quando o KDE fosse iniciado no escritório. “Você basicamente treinaria o computador”, diz Seigo. “Enquanto você se desloca, a interface vem até você.”

Entretanto, os diferentes usos do mesmo termo podem tornar menos claro o que cada projeto entende por “atividade”. Mas, como diz Seigo:

A ideia que une todos esses usos é um avanço rumo à computação orientada a tarefas. Nosso ponto de vista é o de que as tarefas são altamente contextuais: o que você está fazendo? Onde está fazendo? E quem é você?

Se as atividades, em qualquer forma, vão ou não dominar o desktop, ainda é incerto. É possível que elas sejam interessantes apenas para um grupo relativamente pequeno de usuários. Mas independente de seu sucesso, o fato de que a computação baseada no contexto esteja recebendo maior ênfase é uma mudança na forma como pensamos o desktop, e quem lidera essa mudança é o software livre. Os espaços de trabalho virtuais continuam não sendo o padrão no Windows, e os Spaces do OS X vêm desativados por padrão. Nos dois casos, o desktop estático continua sendo a norma.

“Não há mais ninguém experimentando essas coisas”, diz Seigo. “Não se vê nada no Windows nem no Mac. Essa uma inovação que pertence em grande parte ao software livre. E eu fico muito feliz em ver que nós estamos à frente nesse desenvolvimento, com o GNOME e o KDE.”

Créditos a Bruce Byfieldlwn.net
Tradução por Roberto Bechtlufft <roberto at bechtranslations.com>

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