The Last of Us influenciou a mudança de rumo de Resident Evil 7, revela ex-Capcom
Resident Evil 7 não nasceu do nada e a virada de 180 graus que a Capcom executou em relação ao caótico Resident Evil 6 teve uma inspiração clara: o sucesso estrondoso de The Last of Us, da Naughty Dog.
A revelação vem de Miguel Corti, ex-gerente sênior de produção global da Capcom, que foi a público no Bluesky detalhar os bastidores de um dos reposicionamentos mais importantes da história do survival horror.
De Call of Duty para The Last of Us
Miguel Corti explica que o jogo passou por várias iterações antes de chegar ao formato que conhecemos. No início do processo, o ponto de referência era o modo zumbi de Call of Duty, que havia construído uma comunidade robusta no começo dos anos 2010 e parecia um modelo óbvio para quem quisesse trabalhar com mortos-vivos. Só que o lançamento de The Last of Us absorveu boa parte dessa atenção e mudou o que o mercado considerava excelência no gênero.
“Pode surpreender você saber que o RE7 originalmente planejado passou por algumas iterações”, escreve Corti. “Em vez de tomar referências do CoD, todas elas vinham de The Last of Us, com até um mandato para focar em narrativa, já que esse parecia o único racional para fazer um jogo single-player.”
A pressão não vinha dos executivos, mas dos devs
O detalhe mais revelador do relato de Corti não é a influência em si, mas de onde partiu a pressão por mudança. Os executivos da Capcom estavam satisfeitos com o desempenho comercial de Resident Evil 6. Quem não estava eram os próprios desenvolvedores.
“Os devs queriam o reconhecimento da crítica que outros jogos estavam conquistando, especialmente porque muitos deles eram obviamente influenciados por Resident Evil”, afirma Corti.
Há uma ironia pesada nisso: a franquia que ajudou a moldar o survival horror moderno precisou olhar para seus próprios “filhos” para entender o que tinha errado. The Last of Us colhia elogios que o RE6 jamais viu, e parte desse DNA narrativo e de tensão atmosférica vinha exatamente do que a Capcom havia construído nos anos anteriores. O ciclo fechou de uma forma que provavelmente deixou mais de um desenvolvedor desconfortável.
RE6 como sombra e RE7 como resposta
O sexto episódio da franquia é um caso claro de excesso: múltiplos personagens, história confusa e uma conexão pouco clara com a mitologia estabelecida. A resposta com RE7 foi o oposto calculado: narrativa centralizada, perspectiva em primeira pessoa, atmosfera claustrofóbica e mais com ligações com a lore da saga. Corti confirma que o jogo “não só seria orientado por narrativa, como teria ainda mais conexões com o lore”.

As vendas de RE7 ficaram abaixo das de The Last of Us, mas isso é comparar qualquer jogo com um dos maiores fenômenos da história recente. O resultado prático foi inequívoco: a franquia recuperou credibilidade crítica, reacendeu o interesse da comunidade e pavimentou o caminho para Resident Evil Village e, mais recentemente, para Resident Evil Requiem.
Com o ecossistema de jogos single-player disputando espaço com serviços ao vivo e modelos de assinatura, a decisão da Capcom de apostar em narrativa e coesão criativa no RE7 parece ainda mais acertada.
O que o relato de Corti deixa claro é que viradas assim raramente nascem de ordens vindas de cima: elas nascem de equipes que conhecem o próprio legado e se recusam a vê-lo dilapidado por uma estratégia de mercado equivocada.
Fonte: GamesRadar
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