Com os IPOs da OpenAI e da Anthropic se aproximando, os riscos da sempre comentada bolha da IA chegam ao ponto mais alto até agora. Pela primeira vez, essas empresas precisarão demonstrar retornos reais a acionistas públicos.
Este mês, uma empresa que não quis se identificar admitiu ter gasto mais de US$ 500 milhões em tokens do Claude em um único mês, rumores do setor apontam para a Microsoft. Semanas antes, o CTO da Uber gastou US$ 1.200 em tokens em duas horas durante uma apresentação interna. A empresa inteira tinha consumido todo o orçamento de IA para o ano em quatro meses. Esses dois episódios descrevem, com precisão cirúrgica, o problema central da indústria de IA em 2026: não é que a tecnologia não funcione, é que ninguém conseguiu ainda demonstrar que o custo de usá-la é menor do que o valor que ela gera.
US$ 725 bilhões em um ano
Amazon, Google, Microsoft e Meta vão gastar até US$ 725 bilhões em infraestrutura de IA só em 2026, o equivalente ao PIB da Suíça, em doze meses, para construir data centers e comprar GPUs. O Morgan Stanley estima que os gastos globais com data centers chegarão a US$ 2,9 trilhões até 2028
A proporção entre o dinheiro entra e o que sai nunca esteve tão distante. O grande problema não é que o investimento demore a retornar, esse é o funcionamento normal de qualquer ciclo de capital, a questão é a distorção. Um estudo do MIT estimou que 95% dos projetos de IA em empresas não geraram retorno financeiro mensurável.
O que os documentos da OpenAI mostram
O jornalista independente Ed Zitron obteve os documentos financeiros auditados da OpenAI, com autenticidade confirmada pelo Financial Times. E os números são os seguintes: receita de US$ 3,7 bilhões em 2024 e US$ 13,07 bilhões em 2025. O crescimento expressivo, mas os custos totais saíram de US$ 12,48 bilhões para US$ 34 bilhões no mesmo período, e o prejuízo operacional saltou de US$ 8,78 bilhões para US$ 20,92 bilhões.
Pesquisa e desenvolvimento consumiram US$ 19,18 bilhões em 2025, valor que, sozinho, já supera a receita total da empresa. Dos US$ 19,18 bilhões, US$ 10,59 bilhões foram para a Microsoft, que fornece a infraestrutura de treinamento dos modelos. O custo de manter o ChatGPT respondendo, inferência, servidores, operação, subiu de US$ 2,65 bilhões para US$ 7,5 bilhões no mesmo período.
Os gastos com marketing e vendas passaram de US$ 1,11 bilhão para US$ 5,73 bilhões. Esse número traduz a rotatividade de usuários para o Gemini e o Claude, a empresa precisa substituir quem sai. Para tentar equilibrar as contas, a OpenAI descontinuou o Sora seis meses após o lançamento e começou a inserir publicidade no ChatGPT.
As empresas que estão limitando o uso
A Uber foi a mais transparente. O CTO Praveen Neppalli Naga admitiu em abril de 2026 que a empresa havia consumido todo o orçamento anual destinado ao Claude Code antes do meio do ano. Em resposta, a empresa impôs um limite de US$ 1.500 por funcionário por ferramenta por mês, o que inclui o Claude Code e o Cursor, separadamente.
O paradoxo da Microsoft
A Microsoft avalia substituir parte dos modelos que alimentam o Copilot Cowork, seu assistente empresarial integrado ao Microsoft 365, pelo DeepSeek V4, um modelo de código aberto desenvolvido na China. A justificativa foi dada diretamente por Charles Lamanna, vice-presidente executivo da Microsoft para Copilot, Agentes e Plataformas, ao Axios: “Temos usuários que realizam centenas de tarefas por semana, o que é ótimo porque a produtividade deles é muito alta, mas a consequência é que os custos podem aumentar significativamente.
Se adotado, o DeepSeek rodaria integralmente na infraestrutura Azure, sem transferência de dados para fora dos sistemas da Microsoft. Mesmo assim, a decisão é um paradoxo que não passa em branco: dias antes, o governo Trump determinou que a Anthropic restringisse o acesso aos seus dois modelos mais recentes, Fable 5 e Mythos, a cidadãos não americanos, citando riscos de exploração por nações rivais, incluindo a China. O mesmo governo que tentou proibir o DeepSeek agora assiste a maior empresa de software do mundo avaliar integrá-lo ao produto que vende para empresas no mundo inteiro.
O CEO da Microsoft, Satya Nadella, publicou no X um artigo intitulado “Uma fronteira sem ecossistema é insustentável”, argumentando que empresas não deveriam depender de poucos fornecedores de IA. A Microsoft agora age exatamente nesse espírito, por necessidade de caixa.
— Satya Nadella (@satyanadella) June 14, 2026
O termômetro que se chama IPO
A OpenAI planeja abrir capital no quarto trimestre de 2026, com valuation estimado próximo de US$ 1 trilhão segundo o PitchBook, embora analistas do próprio PitchBook alertem que esse prazo pode passar para 2027. A empresa projeta um prejuízo líquido de US$ 14 bilhões em 2026 e não espera lucro antes de 2029. A Anthropic protocolou seu pedido confidencial de IPO junto à SEC em 1º de junho de 2026, logo após fechar uma rodada de US$ 65 bilhões na Série H a um valuation de US$ 965 bilhões.
O que foi a bolha da internet e por que a euforia com IA e robôs humanoides pode repetir o ciclo
Tradicionalmente, uma bolha funciona assim: todos os participantes sabem que as avaliações são excessivas, mas ninguém quer ser o primeiro a recuar, porque o custo de ficar de fora ainda parece maior do que o custo de entrar. Por exemplo, Mark Zuckerberg já disse que prefere jogar bilhões fora do que perder a corrida da IA.
Esses investimentos massivos trazem uma percepção para o mercado que a empresa não está parada, que segue em linha com o que é apontado como revolucionário, transformador. Em meio a euforia, algumas correções de rota e “banhos de agua fria” são impostos, e talvez até mesmo o estouro de uma nova bolha.