Donald Trump autorizou a venda do chip de inteligência artificial H200 da NVIDIA para a China. O anúncio foi feito pelo próprio presidente no Truth Social, depois de uma conversa com Xi Jinping. A condição: a NVIDIA precisa repassar 25% da receita dessas vendas para o governo dos Estados Unidos.
A decisão marca uma mudança brusca em relação às restrições impostas pela gestão Biden, que desde 2022 vinha limitando a exportação de chips avançados para a China em nome da segurança nacional. O H200 estava na lista proibida, deixando apenas o H20 — uma versão bem menos potente — como opção legal para o mercado chinês.
Um acordo inédito (e polêmico)
Esse modelo de “taxa sobre vendas” não tem precedente. No meio do ano, NVIDIA e AMD já haviam concordado em repassar 15% da receita de chips vendidos à China, um arranjo que especialistas à época chamaram de bizarro e com legalidade questionável. Agora, Trump elevou a fatia para 25% e transformou o acordo numa política oficial.
O Departamento de Comércio americano ainda precisa formalizar os detalhes, mas agências federais não costumam contrariar Trump. Segundo o presidente, a medida vai “apoiar empregos americanos, fortalecer a manufatura dos EUA e beneficiar os contribuintes”.
H200
O H200 é um chip de geração intermediária. Lançado há cerca de 18 meses, ele fica bem abaixo do desempenho dos modelos Blackwell e Rubin — as linhas mais recentes da NVIDIA, que continuam proibidas para a China. Em compensação, o H200 é muito mais poderoso que o H20, o único chip da NVIDIA que a China podia comprar legalmente até agora.
O H20 foi criado justamente para cumprir as regras de Biden: um chip “degradado” o suficiente para não violar os limites de desempenho estabelecidos pelos EUA. O problema é que a própria China começou a rejeitar o H20. Autoridades chinesas orientaram empresas a evitarem o modelo, alegando que ele não entregava capacidade suficiente.
Esse impasse abriu espaço para contrabando. Reportagens do Financial Times mostraram que chips mais avançados da Nvidia — incluindo o próprio H200 e até o B200, proibidíssimo — vinham entrando na China por meio de intermediários, com vendas na casa de US$ 1 bilhão só nos primeiros três meses após as sanções
O jogo de pressão entre Washington e Pequim
Trump apresentou a decisão como um meio-termo pragmático: não libera o topo de linha, mas também não deixa a China refém de fabricantes locais como a Huawei, que vem avançando rápido. O CEO da NVIDIA, Jensen Huang, chegou a dizer em maio que o chip da Huawei já é comparável ao H200 em algumas aplicações.
David Sacks, o czar de IA e criptomoedas de Trump, defende que vender chips mais avançados para a China pode tornar o país mais dependente da tecnologia americana e, portanto, mais vulnerável a futuras restrições caso necessário. É uma aposta arriscada. Parlamentares de ambos os partidos estão céticos. Na semana passada, republicanos e democratas apresentaram o SAFE CHIPS Act, uma lei que tentaria impedir Trump de afrouxar controles de exportação sem aprovação do Congresso
A NVIDIA, por sua vez, ganha acesso direto ao maior mercado de chips de IA do mundo. As ações da empresa subiram após o anúncio. Trump também sinalizou que o mesmo modelo de “corte de 25%” pode ser aplicado a AMD, Intel e outras empresas americanas.
