No segundo trimestre de 2025, 44% de todos os smartphones enviados para os EUA foram fabricados na Índia. Vietnã aparece em seguida, com 30%, enquanto a China caiu para apenas 25% da fatia — um contraste gritante com o mesmo período do ano anterior, quando dominava 61% do mercado.
Esse salto não aconteceu por acaso. O volume de produção de smartphones na Índia cresceu 240% em relação a 2024, impulsionado por investimentos massivos de empresas como Apple, Samsung e Motorola. O país deixou de ser coadjuvante e se tornou o novo epicentro de fabricação para o mercado americano.
Tarifas e geopolítica: a dança dos custos
A mudança foi acelerada por tarifas comerciais sem precedentes. No auge da guerra econômica, os EUA chegaram a impor taxas de até 145% sobre eletrônicos chineses. Hoje esse número caiu para 30%, mas ainda mantém a China em desvantagem.
Enquanto isso, a Índia e o Vietnã surfaram na onda de realocação. Tarifa de 25% sobre produtos indianos e 20% sobre vietnamitas ainda é considerada menos agressiva do que a penalização histórica aplicada contra a China. Para fabricantes globais, o cálculo é simples: mesmo pagando impostos extras, produzir fora da China tornou-se mais previsível e seguro.
Trump pressiona: iPhones no centro da disputa
Donald Trump, em seu retorno à Casa Branca, adotou um tom duro contra o avanço da Índia. Em agosto, seu governo anunciou tarifa de 25% sobre produtos indianos e, poucos dias depois, elevou a alíquota para 50%, acrescentando uma “taxa de penalidade” ligada à compra de petróleo russo por Nova Délhi.
No centro da disputa está a Apple. A gigante de Cupertino vinha usando a Índia como peça-chave do seu plano “China+1”, deslocando cada vez mais produção de iPhones para fora do território chinês. Hoje, cerca de 14% dos iPhones já são montados em fábricas indianas, e esse número cresce rapidamente.
Apesar da escalada tarifária, analistas apontam que a empresa parece ter sido parcialmente poupada do impacto imediato, fruto da sua relevância estratégica e de negociações discretas com Washington.
Ainda assim, Trump teria sinalizado a Tim Cook que toleraria a produção na Índia, mas não o envio direto desses aparelhos para o mercado americano.
A resposta da Apple foi pragmática. Em abril de 2025, a companhia exportou 2,9 milhões de iPhones da Índia para os EUA, um salto de 76% em relação ao ano anterior. Para driblar as barreiras, a empresa chegou a fretar voos exclusivos, transportando 600 toneladas de dispositivos de Chennai para os Estados Unidos.
O contragolpe da Apple: US$ 100 bilhões nos EUA
No início do mês, em meio ao cenário de embates tarifários com a Índia e a China, a Apple anunciou um aporte adicional de US$ 100 bilhões em manufatura nos Estados Unidos, elevando seu compromisso total para US$ 600 bilhões ao longo dos próximos quatro anos
A iniciativa, batizada de American Manufacturing Program (AMP), visa reforçar a presença da cadeia produtiva nos EUA — com produção doméstica de componentes críticos, contratação de 20.000 trabalhadores diretos e incentivo a parceiros como Corning, Texas Instruments, Amkor, Broadcom, TSMC e outros.
Segundo analistas, o movimento é tanto um gesto estratégico quanto real — para aliviar possíveis tarifações punitivas, mas sem romper a base consolidada da produção na Ásia
No entanto, o sonho de Trump de ver a produção do iPhone sendo deslocada totalmente para os EUA não deve acontecer. Mover a montagem completa de iPhones para solo americano exigiria anos de investimentos, tornando os aparelhos consideravelmente mais caros — projeções indicam que o valor poderia ultrapassar US$ 3.500 por unidade.
Esse é o motivo que impede a Apple de fabricar iPhones nos EUA
O presente dourado que selou um pacto
Recentemente, durante uma cerimônia na Casa Branca, Tim Cook presenteou Donald Trump com uma peça única: um lacre de vidro produzido pela Corning em Kentucky, montado sobre uma base em ouro 24 quilates de Utah. Gravado com o nome do presidente e sutilmente assinado por Cook, o objeto serviu como metáfora visual do compromisso da Apple com a manufatura americana, ao mesmo tempo em que suavizava uma tensão política delicada



