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Você sabia? A SEGA salvou a NVIDIA da falência nos anos 90; conheça essa história

Nos anos 90, a NVIDIA enfrentou dificuldades que quase a tiraram do mercado de GPUs, mas um contrato com a SEGA mudou o destino da empresa para sempre.

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Nota do Editor: Durante o recesso, estamos republicando matérias que foram destaque ao longo de 2025. Este conteúdo foi originalmente publicado em 24 de janeiro de 2025. Nossa cobertura regular retorna na próxima segunda-feira, 05 de janeiro de 2026. Abraço!


A Apple é sempre mencionada quando o tema envolve grandes reviravoltas corporativas. A gigante que despontou entre meados das décadas de 70 e 80 sofreu duros golpes que a quase levaram à falência na década de 90. Foi nessa década que Steve Jobs retornou para a companhia e ajudou a promover uma escalada impressionante, determinante para salvar a empresa, emplacando uma série de produtos que mudaram o mundo.

No entanto, há outra grande empresa de tecnologia que hoje também é destaque, mas que ficou à beira da falência justamente na década de sua fundação, a década de 90. Essa empresa é a NVIDIA, o titã que hoje domina com folga o mercado de GPUs e segue crescendo em uma velocidade impressionante devido à ascensão do mercado de inteligência artificial. A NVIDIA enfrentou problemas seríssimos com seus primeiros produtos, e podemos afirmar que a cláusula de um contrato com a SEGA, assim como um ato quase que improvável da gigante japonesa, acabou determinante para que a empresa de Jensen Huang seguisse de pé e continuasse na disputa. É sobre essa curiosa história que iremos falar neste artigo.

O Início: 1993

No fim do ano passado, foi lançado um livro chamado The NVIDIA Way (ainda sem tradução para o português), que ajuda a desmistificar por que a companhia vem despontando como uma das empresas de tecnologia mais importantes do mundo. Definitivamente, o acaso não está em jogo. Inúmeros desdobramentos deixam claro a gigantesca resiliência de Jensen Huang e da NVIDIA como corporação para se manter no mercado.

O primeiro capítulo do livro é intitulado “Pain and Suffering” (Dor e Sofrimento) e aborda a juventude de Huang, incluindo seu nascimento em Taiwan, a decisão de seus pais em manda-lo, juntamente com seu irmão, para Tacoma, Washington, e outros detalhes que antecedem a fundação da NVIDIA.

Mas esse nome “Dor e Sofrimento” também cabe perfeitamente para rotular os primeiros anos de mercado da NVIDIA. Fundada em fevereiro de 1993, por Jen-Hsun Huang, Chris Malachowsky e Curtis Priem, a NVIDIA entrou em um mercado extremamente competitivo. O setor de chips gráficos naquela época contava com 28 fornecedores, e, três anos depois, esse número subiu para 70.

Homem de camisa social azul sentado na beira de uma mesa em escritório com divisórias, cercado de livros, porta-retratos e uma bolsa preta
Jensen Huang

Embora hoje lembremos apenas dos grandes nomes — como a própria NVIDIA, a lendária 3DFX (posteriormente adquirida pela NVIDIA) e a ATI (incorporada pela AMD) — muitos outros concorrentes também fizeram parte desse universo de chips gráficos, como Matrox, Hercules, Cirrus Logic, Trident, S3 Graphics, entre outros.

A primeira aposta da NVIDIA para disputar nesse mercado foi o chip NV1, e ela tentou impulsionar esse produto através de uma parceria com a SEGA.

A SEGA Entra em Cena

Fachada do prédio vermelho da SEGA 1号館 em Akihabara, Tóquio, com outdoors de anime e pedestres na rua movimentada

Em 1994, a NVIDIA conseguiu uma apresentação com representantes da SEGA. O presidente da empresa na época, Shoichiro Irimajiri, ficou impressionado com a demonstração do chip NV1 (a NVIDIA gastou cerca de US$ 15 milhões para desenvolvê-lo).

A boa receptividade fez com que a SEGA concordasse em trabalhar com a NVIDIA para o seu próximo console, um sucessor para o Sega Saturn, plataforma que seria o Dreamcast. A ideia era que o console tivesse como grande atrativo do hardware o chip da NVIDIA, que seria o sucessor direto do NV1, chamado NV2. O acordo foi firmado em maio de 1995, e previa uma parceria de 5 anos de duração.

Console Sega Dreamcast branco ao lado de um controle com cabo e um Visual Memory (VMU) com tela, sobre fundo cinza

Tudo parecia tão promissor nessa parceria que a NVIDIA colocou uma condição: o NV2 seria desenvolvido especificamente para o console, em troca da SEGA apoiar o NV1 no mercado de PCs. A SEGA concordou e se comprometeu a portar diversos jogos originalmente desenvolvidos para o Saturn para o PC, com otimizações que tiravam proveito do NV1. Dentre os jogos, Virtua Fighter e Daytona USA foram alguns dos adaptados para o NV1.

Discos de jogo para PC da SEGA, como Virtua Fighter Remix e NASCAR Racing, sobre o manual de instalação SEGA PC

O chip NV1 foi revelado ao público em maio de 1995, enquanto o acordo que já estava selado com a SEGA foi exposto alguns meses depois, em julho. Já a primeira placa de vídeo da NVIDIA com o NV1, a Diamond Edge, chegou ao mercado em novembro daquele ano.

Placa de vídeo Diamond Edge 3D 3240 de 1995, com chip NVIDIA NV1 e conector VGA, exibida sobre fundo branco
Diamond Edge

Nos planos da NVIDIA, a parceria com a SEGA seria um grande holofote para o NV1, atrairia a atenção dos consumidores e da mídia para o chip. A SEGA seria o grande “vendedor” do NV1.

Tudo parecia realmente perfeito, mas o projeto desandou, e o próprio NV1 também não deu certo. Foi um grande fracasso comercial, principalmente devido à incompatibilidade com o padrão Sound Blaster e ao fato de que muitos desenvolvedores não viam necessidade em adaptar seus jogos ao padrão gráfico 3D da NVIDIA.

Divergência de Pensamentos

Um atrito envolvendo uma questão técnica comprometeu a parceria.

A NVIDIA adotava no NV1 um mapeamento de texturas conhecido como “forward texture mapping”, que utilizava quadriláteros em vez dos tradicionais triângulos para o mapeamento. Essa abordagem era inovadora, mas exigia que os desenvolvedores reescrevessem códigos para tirar proveito da tecnologia — o que naturalmente gerou resistência e acabou contribuindo para o fracasso comercial do NV1.

O NV2 seguiria o mesmo caminho, com o mapeamento de texturas quadráticas, na contramão da tendência dos triângulos. A SEGA não concordou com isso e solicitou que a NVIDIA adotasse o uso de triângulos, mas Huang preferiu manter sua tecnologia.

A boia de salvação.

Esse desencontro de visões levou a um desfecho catastrófico para a NVIDIA. Em 1996, a SEGA informou que não utilizaria mais o NV2 em seu próximo console (O Dreamcast acabou utilizando uma GPU desenvolvida pela NEC, a PowerVR2)

Essa decisão poderia ter sido fatal para a NVIDIA, que corria o risco de sucumbir como tantos outros nomes no mercado de chips gráficos. Contudo, uma cláusula no contrato inicial, e um apoio improvável da SEGA, em meio aos atritos, salvou a empresa.

Jensen Huang incluiu uma cláusula que previa uma garantia de US$ 1 milhão por parte da SEGA caso a NVIDIA conseguisse produzir um protótipo funcional do chip NV2 que coubesse em uma placa-mãe do tamanho da usada pelo SEGA Genesis (Mega Drive). A NVIDIA entregou o que estava previsto, e, com o cancelamento do contrato, os US$ 1 milhão foram pagos pela SEGA.

Além desse valor, outros US$ 5 milhões da SEGA foram alocados para a NVIDIA, numa compra de ações. Pura e simplesmente por que o presidente da SEGA acabou ficando tão interessado na história da NVIDIA e na persistência de Huang que ele via potencial para a empresa. Irimajiri conseguiu convencer a diretoria da SEGA que os US$ 5 milhões precisavam ser destinados para a NVIDIA. E assim foi feito. E a SEGA acabou sendo beneficiada anos depois, já que quando a NVIDIA abriu seu capital, em 1999, aqueles US$ 5 milhões viraram US$ 15 milhões.

O valor da cláusula do contrato, assim a decisão da SEGA em manter a compra de ações salvou a NVIDIA! E mesmo com esse valor, a empresa precisou enxugar custos naquela época, reduzindo sua equipe de mais de 100 funcionários para apenas 40. A NVIDIA também deixou de lado o NV2 e partiu diretamente para o NV3, lançado em 1997 sob o nome de Riva 128, dois anos antes de um produto que redefiniria a NVIDIA como empresa, a GeForce 256, baseada na GPU NV10.

Caixa da placa de vídeo ASUS AGP-V6600 com GeForce 256 de 32 MB, mostrando um menino de cabelo arrepiado gritando com os punhos cerrados

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Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br

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