Os tablets

Quando a Asus lançou o Eee PC em 2007, despertou uma grande curiosidade em torno do produto. Por alguns meses, a Asus vendeu tantos netbooks quanto conseguiu produzir e pareceu que os netbooks dominariam o mundo. Entretanto, quando a poeira baixou, as pessoas passaram a ver mais claramente as limitações dos netbooks e o interesse em torno deles caiu bastante, fazendo com que as coisas voltassem à normalidade.

Um fenômeno similar pode ser notado em torno dos tablets, com o agravante de que desta vez quem iniciou a onde foi a Apple, o que só aumentou o hype-factor. Depois do lançamento do iPad, praticamente todos os fabricantes passaram a apresentar projetos na área, no que se tornou uma nova corrida do ouro. Os novos modelos podem ser divididos em duas categorias: a dos que são baseados no Atom ou em outro processador x86 de baixo consumo, rodando o Windows e funcionando basicamente como um netbook sem teclado e os modelos baseados em processadores ARM, que rodam alguma distribuição Linux ou o Android.

A ideia dos tablets não é nova. Em 1998 a Apple lançou o Newton (que foi revolucionário sob diversos pontos de vista, mas não fez sucesso por ser muito caro) e em 2005 a Microsoft e Intel anunciaram o projeto Origami, que consistia em tablets (batizados de UMPCs) com tela sensível ao toque, com processadores Intel e Windows:

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O tablet da segunda foto poderia muito bem se passar por um novo lançamento da Asus/Sony/Toshiba/etc. para “oferecer um novo nível de experiência, elevando a um novo patamar o padrão de acesso à web e consumo de mídia”, mas é apenas um protótipo da plataforma Origami, que foi demonstrado no início de 2006 e não chegou a entrar em produção.

Em princípio a ideia dos UMPCs parecia boa: criar uma plataforma de PCs ultra-compactos, menores, mais leves e com uma maior autonomia que os notebooks, equipados com processadores dual-core, aceleração 3D, wireless e, opcionalmente, também a opção de se conectar à web via EDGE ou 3G. Com um UMPC, você teria um PC que poderia levar com você o tempo todo, carregando seus aplicativos e arquivos, o que permitiria que você se conectasse à web ou assistisse vídeos em qualquer lugar.

Apesar disso, o plano não deu muito certo. Os poucos modelos disponíveis inicialmente eram muito caros e as vendas ínfimas, tornando a plataforma mais um objeto de curiosidade, do que uma alternativa real. Para piorar, tínhamos ainda a questão dos softwares e da ergonomia. Os UMPCs da safra inicial eram baseados no Windows XP ou no Vista e rodavam os mesmos aplicativos que você usaria em uma PC de mesa. O problema é que as pequenas dimensões da tela e ausência de um teclado e mouse de verdade tornavam o conjunto bastante desconfortável de usar. Um bom exemplo é o Asus R2H, que chegou a ser vendido no Brasil por volta de 2007, porém sem muito sucesso:

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A ideia dos tablets foi revivida com o Amazon Kindle, que inaugurou um novo nicho, oferecendo uma plataforma para leitura de e-books. O Kindle é baseado em uma tela e-paper, que consome pouca energia e oferece uma experiência mais similar à leitura de um livro em papel. A desvantagem óbvia é que ela é monocromática, mas os livros também são.

O Kindle foi lançado em conjunto com uma plataforma de venda de conteúdo da própria Amazon, que já inclui quase 100.000 e-books (com preços em torno de US$ 10 para os mais conhecidos), além de assinaturas de jornais e revistas. Isso fez com que ele fizesse um relativo sucesso nos EUA, apesar do preço de US$ 359 (recentemente reduzido para US$ 259).

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Mais recentemente tivemos o lançamento do Kindle DX (com tela maior) e da versão internacional. Atualmente, o Kindle é tarifado como qualquer aparelho eletrônico, o que faz com que ele custe nada menos que R$ 1000 no Brasil. Entretanto, existe movimentação em torno de enquadrá-lo na categoria de livros e periódicos, o que eliminaria os impostos, reduzindo o preço pela metade.

O sucesso do Kindle inspirou o lançamento de outros leitores de e-books, como o Nook da Barney & Noble (também vendido apenas nos EUA) e outros modelos, que atraíram a atenção da Apple, levando ao lançamento do iPad:

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O iPad é baseado no chip Apple A4, um SoC personalizado, contendo um processador ARM de 1.0 GHz e um acelerador 3D. A tela é um LCD IPS de 9.7 polegadas, com uma resolução de 1024×768, iluminação LED e touchscreen.

Ele inclui de 16 a 64 GB de memória flash para armazenamento de dados (de acordo com a versão), Bluetooth, acelerômetro e usa um transmissor Wi-Fi como interface primária de conexão, com a opção de um transmissor 3G+GPS nas versões mais caras. Ele mede 24.3 x 19 cm (com 13.4 mm de espessura) e pesa 680 gramas, o que é o dobro do Kindle, mas bem menos que um netbook.

O uso da plataforma ARM foi essencial para reduzir o consumo elétrico, já que seria quase impossível oferecer 10 horas de autonomia em um aparelho deste tamanho usando o Atom.

Se você ele achou o iPad parecido com um iPod Touch, não está sozinho. Em essência ele é uma versão crescida do iPod, com uma tela maior e suporte a vídeos 720p, destinada à leitura de e-books, navegação web, áudio e jogos. O sistema operacional é o mesmo iPhone OS que dá vida ao iPod touch e ao iPhone 3G, equipado com versões de alta resolução do Google Maps (o GPS está disponível apenas nas versões com transmissor 3G), iPhoto e outros aplicativos.

Assim como no caso do Kindle, a maior parte da utilidade do iPad não está no hardware propriamente dito, mas sim no conteúdo para ele. A Apple integrou o iPad ao iTunes, permitindo que você tenha acesso às músicas e vídeos compradas através da loja e anunciou a iBookstore, destinada à venda de e-books e assinaturas digitais de livros e revistas.

Por outro lado, ele não é e nem será compatível com outras lojas de conteúdos, já que a Apple retém o controle sobre a plataforma. Em outras palavras, grande parte da utilidade do iPad é determinada pelo valor que o conteúdo do iTunes tem para você.

A navegação web funciona da mesma forma que no iPod ou iPhone, com o uso de gestos para a interface e de um teclado virtual para a digitação de texto. Entretanto o tamanho maior faz com que a ergonomia seja um pouco diferente, já que você não pode usar os dois polegares para digitar. Embora impressione nos primeiros minutos, a tela touchscreen acaba sendo mais cansativa que um mouse para uso prolongado, já que você precisa fazer movimentos bem maiores para usar a interface, ao mesmo tempo em que segura o iPad com a outra mão:

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A principal limitação do iPad diz respeito à plataforma de software, já que ele roda o iPhone OS, e não o MacOS X. Isso faz com que ele seja limitado aos aplicativos oferecidos através da AppStore, sem possibilidade de rodar aplicativos de desktop e nem de rodar o Windows através do Boot Camp, como seria possível em um MacBook. O próprio navegador é a versão móvel do Safari, sem suporte a flash.

No lugar dos aplicativos do MacOS X, o iPad é compatível com os aplicativos do iPhone, que podem rodar em um modo centralizado ou (no caso dos aplicativos compatíveis) em ela cheia, aproveitando a maior área da tela. As funções para criar aplicativos compatíveis foram introduzidas na última versão do SDK, exigindo adaptações nos aplicativos.

O grande problema é que assim como no iPhone não existe suporte a multitarefa, de forma que não existe a possibilidade de rodar os aplicativos em janelas e os aplicativos são constantemente abertos e encerrados conforme você alterna entre eles.

Pegando carona no anúncio do iPad, a HP anunciou o Slate, representante da nova classe de tablets baseadas no Windows, uma nova investida da Microsoft em torno da plataforma UMPC, desta vez com o Windows 7:

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Em resumo, o Slate é um netbook com tela touchscreen, que oferece um conjunto de softwares otimizados rodando sobre a velha interface do Windows. Ele tem a vantagem de ser um PC, capaz de rodar qualquer software e acessar periféricos externos sem limitações, mas por outro lado não oferece uma experiência de uso tão bem acabada, um conjunto de características que serão compartilhadas por outros tablets baseados na plataforma Wintel. Embora o formato seja similar, ele está também em uma faixa de preço bem diferente, com um preço de venda em torno de US$ 1000.

O quarto braço da corrida do ouro são os tablets baseados em processadores ARM, que pipocarão em grande quantidade nos próximos meses. A grande vantagem da plataforma ARM é o baixo consumo elétrico (até 10 vezes mais baixo que o da plataforma Pineview da Intel), o que permite o desenvolvimento de aparelhos menores e com uma maior autonomia de bateria, assim como o desenvolvimento de tablets de baixo custo com tela e-paper.

Graças ao nVidia Tegra e de outros chipsets com suporte à decodificação de vídeos h.264, muitos deles serão capazes de exibir vídeos HD (incluindo vídeos em Flash em alta resolução com aceleração via hardware, devido à nova versão do plugin da Adobe), mantendo um consumo elétrico relativamente baixo.

Um bom exemplo é este modelo da MSI, anunciado na última CES, que usa uma tela de 10″, é baseado no nVidia Tegra 2 e roda o Android:

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Do lado dos tablets com o Windows 7, teremos a divisão entre os modelos baseados nas versões dual-core do Atom e os baseados nas versões CULV do Core 2 Duo, que oferecem um desempenho consideravelmente superior e um consumo elétrico apenas pouca coisa superior. Por serem mais caros e consumirem mais energia que os ARM, ambos os processadores ficarão restritos aos tablets maiores e mais caros, que custarão a partir de US$ 499. Um bom exemplo é o Asus Eee Pad EP121, que possui uma tela de 12″:

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Visando dar combate aos modelos com o Android, a Microsoft lançou também o “Windows Embedded Compact 7”, que apesar no nome similar, não tem nada a ver com o Windows 7. Ele é apenas uma versão recauchutada do velho Windows CE, que recebeu uma interface atualizada, mas continua restrito a um conjunto limitado de aplicativos. Assim como o Android, ele roda sobre processadores ARM, o que permite o uso nos tablets mais compactos. Entretanto, as muitas limitações vão fazer com que ele interesse apenas aos desavisados. Um exemplo de aparelho baseado nele é o Asus Eee Pad EP101TC, que apesar das similaridades como irmão maior, é um tablet muito mais limitado e apenas US$ 100 mais barato:

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