Desktop Publishing e Linux

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Desktop Publishing e Linux

Desktop Publishing é o termo utilizado pelos gráficos quando o processo de produção de um impresso é feito quase que totalmente ( e às vezes integralmente ) em um computador.

Conforme foram sendo desenvolvidas tecnologias que contribuíam com o aumento do poder computacional dos Pcs e Macs, mais e mais recursos foram adicionados aos softwares de DTP (Desktop Publishing) para que esses pudessem, cada vez mais, encurtar o caminho que vai da idéia na cabeça até o produto impresso.

Gerou-se então um grande número de aplicativos e que podem ser classificados da seguinte forma:

  • Programas de Processamento de Textos
  • Programas de Tratamento de Imagens
  • Programas de Ilustração
  • Programas de Diagramação
  • Programas de Fechamento de Arquivo

Muitos dos novos programas de DTP possuem recursos mistos, ou seja, um programa de Edição de Textos tem algumas ferramentas para ilustração, e programas de ilustração têm certas ferramentas de diagramação ou programas de tratamento de imagens apresentam algumas ferramentas de edição de textos, mas o recomendável é que cada programa seja utilizado para sua específica função, ou seja, o seu ponto forte, naquele onde a maioria dos seus recursos está focado.

Esta matéria não tem o intuito de ser nem um curso de projeto gráfico quanto menos um tutorial sobre cada um dos softwares envolvidos, apenas serve para indicar o caminho de quem esteja interessando na possibilidade de utilizar os programas disponíveis sob licença livre dentro do DTP.

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Programas de Processamento de Textos

Têm a função de armazenar os textos a serem diagramados e impressos. Embora tenham a capacidade de configuração de páginas e diversas formas de saída de impressão, no DTP profissional recomenda-se o uso desses programas apenas para efetuar a entrada dos textos, que muitas vezes podem conter dezenas ou centenas de páginas em um único arquivo, além do que tais programas têm recursos muito bons de correção ortográfica, o que ajuda a verificar o texto antes dele ser diretamente diagramado.

Programas como o OpenOffice Writer (no qual estou editando este texto), o Abiword e o Kwriter são ótimos exemplos dentro da comunidade Open Source. Não há grandes ajustes a serem feitos ao usar esses programas ao invés dos conhecidos aplicativos proprietários, já que o texto pode ser gravado como formato ASCII por exemplo, pois sua diagramação é controlada pelos aplicativos de diagramação, precisando apenas do “texto puro” para produzir o impresso.

Programas de Tratamento de Imagens

Esses aplicativos ocupam-se em criar efeitos especiais em fotos e aplicar correções ou ajustes de cor para os mais diversos processos de impressão.

Efeitos em bitmap requerem muito menos poder de processamento, são muito mais fáceis de se obter e apresentam um melhor resultado do que os efeitos fornecidos em programas de ilustração, por isso são altamente recomendados para a criação de imagens mais complexas e que necessitam de um tom mais realista, como fogo, água, tornar um texto com aspecto metálico, aplicar uma textura etc…

O GIMP é, de longe, o aplicativo gráfico mais conhecido na comunidade Open Source com essa função, além de ser uma das primeiras Killer Application da plataforma Linux, possuindo recursos comparáveis aos aplicativos proprietário profissionais com o mesmo enfoque.

Programas de Ilustração

Com essa classe de programas costuma-se criar imagens vetoriais, como logotipos , marcas e desenhos dos mais variados, além de servir para a criação de panfletos, catálogos, capas para CD e até embalagens. A sua principal característica a de trabalhar com informações vetoriais, ou seja, os elementos das ilustrações são obtidos através de cálculos matemáticos para retas, círculos, arcos e curvas belzier, tornando os desenhos escalonáveis, podendo ser manipulados das mais diversas formas sem perda de qualidade (diferentemente das imagens em bitmap).

Existem dois programas muito conhecidos, o primeiro deles é o Inkscape, um programa de ilustração muito bem desenvolvido, que pode pecar pela falta de efeitos automatizados, como os encontrados em vários softwares proprietários dessa categoria, mas compensa essa falta quando o assunto é ilustração em si: É extremamente simples desenhar e manipular formas no Inkscape, além de ter um bom controle de textos, preenchimentos e manipulação de nós.

Outra característica marcante do Inkscape é a vetorização de elementos em bitmap, que utiliza uma interface ao Poatrace e que consegue uma vetorização tão precisa e suave que deixa a maioria das ferramentas de vetorização proprietárias a ver navios.

O segundo programa já foi proprietário, mas agora é distribuído sob a licença GNU e se chama Xara-Lx. Com uma interface e ferramentas mais semelhantes aos softwares conhecidos do mercado, ele traz praticamente todos os efeitos que faltam no Inkscape, e é extremamente rápido, ou seja ele é um programa totalmente livre de ilustração com ferramentas profissionais para a área gráfica.

O Xala-Lx tem suporte a Spot-Colors (cores especiais, gerando uma separação diferente do CMYK comum) e uma boa gama de opções para o fechamento dos arquivos, que é uma das “pulgas atrás da orelha” que grande parte dos entusiastas do Open Source encontram ao tentar utilizar somente esses programas para a produção gráfica. Porém, nos próximos parágrafos, vamos ver como é possível se utilizar apenas das ferramentas disponíveis no Linux para se obter resultados satisfatórios em DTP.

index_html_m1a5a6357Xara-LX esse é um apoio de peso ao DTP no Linux

Programas de Diagramação

No DTP profissional, é comum termos o seguinte fluxo de trabalho:

Digitam-se os textos;
Tratam-se e editam-se as imagens;
Criam-se as Ilustrações;
Diagrama-se todos os elementos do impresso;
Fecha-se o arquivo.

Diagramar significa posicionar, nas páginas a serem impressas, todos os componentes do projeto, como os blocos de texto, as imagens e as ilustrações, além dos elementos que vão servir na hora de aparar as bordas e dobrar os cadernos (acabamento).

É através desses programas de Diagramação que se finaliza o projeto gráfico e a comunidade Open Source tem um grande representante desse quesito, o Scribus.

Ele tem todas as ferramentas necessárias para produzir catálogos, livros, revistas e toda a sorte de produtos gráficos. Graças a suas ótimas ferramentas de Fechamento de Arquivo, é no Scribus que se entrega à gráfica o famoso PDF, o formato de arquivo cada vez mais utilizado nos equipamentos High-End que geram as formas de impressão de praticamente todos os processos conhecidos.

Programas de Fechamento de Arquivo (Geração de PDF ou Ripagem)

Antes de mais nada, é preciso explicar o que vem a ser o Fechamento de Arquivos.

Quando os computadores passaram a ser interessantes para auxiliar na produção de impressos, existia um pandemônio de formatos de arquivos utilizados pelos dispositivos de saída, os quais necessitavam de um grande volume de processamento e grande banda de transmissão de dados, seja através de portas serias, paralelas ou mesmo pelos cabos de rede convencionais. Antigamente essas máquinas (leia-se impressoras de grande porte) interpretavam seus formatos de entrada (como o HP-GL, HP-GL2, PCL, DMP etc…) e cada máquina requeria que o computador que enviasse o arquivo a ele possuísse um driver, e isso ainda é comum hoje em dia quando falamos de impressoras domésticas, mas devida a altíssima resolução que esses equipamentos usam, que transitam entre 1200dpi e 4800dpi, necessitou-se da criação de um formato de arquivo padrão, que ao invés de interpretar as informações já rasterizadas (convertidas em bitmap) pelos driveres, fosse capaz de manter os elementos das páginas diagramadas em um formato único, não importando em si os comandos do dispositivo, ou seja, ao invés de receber uma imagem bit a bit de como a página é, essa informação passou a ser transmitida em instruções dos objetos que a compunham.

Nasceu então o PostScript, e com ele foram criados os Interpretadores PostScript, que recebem os arquivos nesse formato comum e transformam esses comandos de descrição de páginas no formato que o dispositivo usa.

Pode-se dizer que o nascimento do PostScript consolidou o Desktop Publishing, pois a padronização fez com que os equipamentos passassem a vir de fábrica com interpretadores PostScript. Caso esse interpretador fosse instalado diretamente na placa do equipamento, era conhecido como Hard RIP (Rip = Raster Image Processor), se fosse simplesmente um computador com um software dedicado a interpretar o PostScript recebido e converte-lo na linguagem do equipamento, então era conhecido como Soft RIP.

Os Hard Rips caíram em desuso devido aos altos custos e as grandes limitações de processamento e as dificuldades de atualização – Afinal era uma placa interna da máquina – dando lugar ao crescimento dos Soft Rips.

Devido também às diversas versões do PostScript, a atualização de um Soft Rip é crucial para que os dispostivos estejam sempre atualizados com os padrões da qualidade gráfica – Extremamente exigentes.

Porém, os Soft Rips, em sua unanimidade dentro da indústria gráfica, são tidos como os mais caros do segmento, pois chegam a custar EUR 40.000! E estamos falando de uma única licença, que roda em um computador exclusivamente dedicado a função de interpretar o PostScript para as máquinas.

Se você utiliza o Linux, muito, mas muito provavelmente você tem instalado em seu computador um programa capaz de executar todas as funções de um Soft Rip! E com a vantagem de ser livre e de contar com uma base de atualizações e correções robusta e eficiente. Estou falando do GhostScript.

Embora ele seja mais associado à geração de arquivos PDF, o Ghostscript é um poderoso Soft RIP, capaz de “ripar” (jargão gráfico referente a interpretar um arquivo postscript) arquivos PS, EPS e PDF das mais diversas versões e nas mais diversas resoluções e lineaturas.

Alguns desenvolvedores mal intencionados roubaram o Ghostscript e usaram o seu engine para criar Soft Rips comerciais (Daqueles de EUR 40.000) sem contribuir com a comunidade Open Source Graças a isso a licença do Ghostscript foi modificada, dividida em versões versões como a AFPL e a GNU, sendo a AFPL a que recebe mais atualizações e correções, porém, vetada para a distribuição comercial.

Finalizando o Fluxo de Produção gráfica no Linux, vemos que possuímos todas as ferramentas necessárias para gerar um produto impresso usando apenas ferramentas livres. Vamos agora ver um exemplo básico de como isso é possível, bem como dicas simples de utilização dos programas já citados.

E vamos fazer isso com esta matéria!

Primeira Parte: Os Textos

Como já foi dito, o texto foi digitado no OpenOffice Writer, sem muitos recursos, somente formatação de fontes e parágrafos, algo que o Scribus consegue interpretar, já que ele importa textos diretamente do formato odt.

index_html_76651f04Esta é a imagem deste mesmo texto sendo digitado… que paradoxo /O_o
Segunda Parte: Imagens e Ilustrações

No Inkscape, usando as ferramentas básicas, criamos uma pequena ilustração, na hora de salvar, poderíamos escolher formatos padrão vetorias como SVG, EPS ou AI, porém, como o desenho exemplo possui efeitos de gradiente e transparência, devemos rasterizar a imagem, já que justamente esses dois recursos do PostScript são extremamente problemáticos de se reproduzir. Exportamos então uma imagem com uma resolução considerável (300 ppi) que é a resolução ideal e ela será tratada como um elemento de bitmap.

index_html_5dd269c1Ilustração com o tema da matéria

Vamos criar também uma ilustração mais simples, sem efeitos avançados, apenas para demonstrar como importar arquivos vetoriais na diagramação. Neste caso salvamos esse logo em SVG

index_html_m1af33026Um desenho vetorial mais simples para ser usado no Scribus

No Gimp, usamos uma imagem em preto e branco e demos uma colorizada básica:

index_html_m739dd251Através de simples edição em camadas é possivel colorizar no Gimp sem muito esforço

Vamos pegar também nosso amigo Bill e fazê-lo sentir-se mais em casa 🙂

index_html_f369b35Correções de Cores e efeitos nas imagens são bem simples no Gimp.
Tá calor aí em baixo Bill?

CMYK ?!

Uma das maiores reclamações quanto a usar o Linux para DTP é que o seu maior expoente em edição de imagens, o Gimp, não trabalha com arquivos em formato CMYK, que na verdade seria um bitmap de 24 bits com profundidade de cor referente a Ciano, Magenta, Amarelo e Preto, que são as cores de processo usadas nos mais diversos tipos de impressão. Mas um pouco de pesquisa faria os desestimuladores ficarem quietinhos, já que, com apenas um comando, é possível converter o espaço de cor de qualquer imagem. Para quem tem o ImageMagick instalado (e a grande maioria das distribuições já tem) somente precisa digitar:

$ convert -colorspace cmyk imagemrgb imagemcmyk

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Diferença clara de contraste entre uma imagem RGB e outra em CMYK

Por exemplo, salvamos o desenho da menininha pensativa como “girl2.png”. O Gimp não trabalha com o espaço de cor CMYK a imagem ficou em RGB, o que causaria uma grave distorção das cores do impresso na hora da “ripagem” já que seria feita a separação em apenas 3 fôrmas de impressão (Ciano, Magenta e Amarelo), e são necessárias 4 (faltaria o Preto). Assim, digitamos o comando:

$ convert -colorspace cmyk “girl2.png” “girl2CMYK.png”

Se você ainda tiver um perfil ICC alvo a ser aplicado, então é muito simples embuti-lo na imagem na hora de converter para CMYK:

$ convert -colorspace cmyk -profile /home/usuario/perfis/heidelbergcoated.icc “girl2.png” “girl2CMYK.png”

Como a proposta aqui é a produção gráfica básica, deixemos de lado esses recursos de Gerenciamento de Cor, mas saiba que o Linux tem ótimas soluções quanto a isso também.

Terceira Parte: Diagramando e Fechando

Dentro do Scribus podemos configurar a formatação da nossa matéria. Tamanho da página, margens e tudo o mais. Incluímos blocos de texto, configuramos o número de colunas e espaçamentos, além dos blocos de texto que estão linkados entre as páginas.

Obtendo o conteúdo e sua formatação pelo arquivo feito do OpenOffice writer, temos vários modos de manipular os blocos de texto dentro das páginas.

Ao incluir as imagens podemos indicar que os textos fluem ao seu redor (muito comum em diagramação) e definir seu tamanho final com mais precisão.

Se quisermos importar um elemento vetorial simples (como aquele logotipo salvo em svg), é só clicar em Arquivo>Importar>Importar SVG e pronto.

O Scribus também tem boas opções de desenho vetorial, mas sua funcionalidade fica mais para criar quadros e elementos mais básicos.

Depois de definida a diagramação, exportamos o projeto em PDF, que é a forma atual mais garantida de que aquilo que foi projetado vai ser impresso sem problemas e com fidelidade.

As opções de exportação em PDF são bem interessantes, e apresentam o básico que se precisa para um bom fechamento de arquivo.

index_html_m5f62a6cfDiagramar Blocos de Texto, imagens e ilustrações, esta é a função do Scribus

Até este ponto, todo esse processo não tem haver diretamente com a gráfica, que cada vez mais está apenas recebendo o arquivo PDF e enviando ao seu RIP para que seja dada a saída em seus equipamentos, seja um impressora digital, ou para geração de filmes ou chapas de impressão Offset.

Mas se você quiser “Ripar” o arquivo em PDF para o seu equipamento doméstico ou mesmo para o seu gerador de chapas a laser, é aí que entra o GhostScript.

Para que seja gerada a saída corretamente, é preciso definir valores como lineatura, angulação de retícula e tipos de ponto. Quando as imagens que compõe o impresso já estão convertidas em cores de processo como o CMYK, basta passar ao GhostScript qual formato de rasterização ele deve usar ou a qual dispositivo ele deve mandar, existe uma gama enorme de dispositivos suportados pelo GhostScript, dentre eles os laseres baseados em PCL, que são a maioria dos dispositivos High-End do mercado.

Se você tiver tempo e disposição, pode simplesmente tentar desconectar seu equipamento do seu Soft Rip e ligá-lo em um micro com o Linux instalado e configurar sua saída pelo GhostScript até que você encontre os resultados desejados. O grande problema é que dificilmente você , ou seu chefe, vão querer parar sua produção para brincar com um equipamento de centenas de milhares de dólares 🙂

Aqui tem um simples exemplo de parte da imagem “Ripada” pelo GhostScript.

index_html_7dc3fb65Detalhe do resultado reticulado e em baixa resolução da saída do filme Preto, “ripado” pelo GhostScript. Se você possuir uma impressora a laser comum de 1200dpi, pode até gerar os tais Fotolitos para a geração de fôrmas de impressão.

Conclusão

Já existem ótimas ferramentas dentro da comunidade Open Source que atendem bem o mercado de produção gráfica, basta agora os designers e os envolvidos nos processos de produção lembrarem-se que a veia artística não pode estar presa a determinado programa. Que a criatividade e o talento não podem ser delimitados apenas ao que o mercado determina.

Já é hora dos produtores gráficos tirarem o cabresto e voltarem sua atenção, nem que por curiosidade, ao Linux, pois pode estar aí um grande diferencial de trabalho, dada a sua flexibilidade e possibilidades infinitas de adequação e melhorias.

E é bom que eles vejam logo, porque quanto mais o Linux vai se espalhando pelo mundo, mais perto chegará a hora em que a gráfica receberá de algum cliente uma revista feita no Scribus para ser impressa. O que a gráfica fará então? Vai se negar a fazer o serviço ou vai ter o re-trabalho de fazer tudo de novo?

Não seria melhor ela simplesmente mandar imprimir?

Celso Junior é programador, linuxista desde 1997 e estudante do último ano do curso superior em tecnologia gráfica da faculdade Senai Theobaldo de Nigris, em São Paulo.

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