CCE T31 no Linux

CCE T31 no Linux

Por ser um dos notebooks mais baratos disponíveis no mercado, o CCE T31 acabou se tornando um modelo bastante popular. Entretanto, tão numerosos quanto os compradores são os relatos de problemas ao tentar instalar outras distribuições Linux, que não sejam o Satux que vem pré-instalado, sobretudo problemas na configuração do vídeo e da placa wireless. Vamos então a um tutorial rápido com as dicas de como configurá-lo no Linux, pelo menos dentro do permitindo pelos drivers disponíveis.

Para quem não conhece, o T31 é um modelo com tela de 13″, que usa na verdade um gabinete para tela de 14″, resultando em uma borda em torno do LCD:

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É realmente difícil expressar em palavras o quão bizarro é ver um notebook com a marca “CCE”. Seria como se você comprasse um smartphone com a marca “Palmolive” ou uma caixa de sabão em pó com a marca “Microsoft”. É uma coisa que sua mente tem dificuldade em aceitar. 🙂

O segredo, que na verdade todos já sabem é que na verdade os notebooks não são produzidos pela CCE, mas sim por outros fabricantes. O T31, por exemplo, é fabricado pela Lite-On Technology (http://www.liteon.com), de Taiwan, que é na verdade um conglomerado de empresas menores. Assim como outros fabricantes, eles são especializados em produzir componentes e aparelhos em regime OEM, que são então revendidos por outras empresas, como no caso da CCE, que tira proveito da isenção fiscal na zona franca de Manaus para conseguir operar com uma carga de impostos mais baixa.

Como a Liteon é especializada em unidades ópticas e monitores de LCD, não seria de se estranhar que parte dos outros componentes usados sejam na verdade produzidos por outras empresas, criando um conjunto realmente global.

O T31 é um modelo de extremo baixo custo, que tem um preço sugerido de R$ 1199 mas que, devido aos descontos e promoções, pode ser encontrado por menos de 1000 reais em lojas de varejo, muitas vezes em 6 ou até 10 vezes sem juros.

As especificações são:

Processador: Celeron M540 (1.86 GHz, 1 MB de L2 e bus de 533 MHz)
Chipset: SiS 671/761
Vídeo: SiS Mirage 3 (onboard)
Tela: 13″, 1280×800
RAM: 1GB, DDR2 (um único soquete)
HD: 80 GB SATA
Drive: Combo (leitor DVD, gavador de CD)
Wireless: RTL8187B
Som, modem e rede 10/100, sem webcam
Leitor de cartões e 4 portas USB, sem outros slots de expansão
Peso: 2.5 kg, com a bateria

Embora esteja longe de ser um ultraportátil, ele é relativamente compacto e leve se comparado a modelos com tela de 15″. Aqui temos uma comparação com um Eee 701 para proporção:

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Para um notebook com esse preço ele surpreende em termos de construção e de acabamento. O gabinete é bem mais sólido e durável que os usados nos notebooks da Acer, por exemplo. O grande problema é a escolha dos componentes, mais especificamente o chipset SiS e a placa wireless.

Ele seria um bom modelo de notebook de baixo custo se utilizasse um chipset Intel e uma placa wireless mais compatível com o Linux, mas a combinação infeliz do chipset SiS com a RTL8187B acabou fazendo com que ele se tornasse um modelo não recomendável.

Outro porém é que, para baixar os custos, a Lite-On removeu todos os componentes que podia, simplificando ao máximo o projeto, uma tendência que já pode ser observada também em outros modelos de notebooks

A primeira vítima foi o slot PC-Card, que desapareceu sem deixar rastros. É raro que alguém ainda utilize uma placa PC-Card, ou mesmo uma placa ExpressCard hoje em dia, mas a falta dele restringe as opções de periféricos que você pode usar no T31.

A segunda vítima foi a placa wireless dedicada. Quase todos os notebooks usam placas Mini-PCI (uma versão miniaturizada de uma placa PCI tradicional, que usa um encaixe próprio) ou Express Mini (a versão miniaturizada do PCI Express), que pode ser substituída, assim como qualquer outro componente. Desde que não exista nenhuma trava ou incompatibilidade por parte do BIOS, você pode perfeitamente substituir a placa que veio pré-instalada, como nessa foto de um Acer 5050:

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Existem vários modelos de placas Mini-PCI e Express Mini no mercado, mas elas não são um componente comum, de forma que você só vai encontrá-las em lojas especializadas, ou nos sites de leilão. De qualquer forma, o uso de uma placa separada é desejável, pois permite que ela seja trocada em caso de defeito, ou caso você queira trocá-la por um modelo melhor ou mais bem suportado no Linux.

No caso do T31, entretanto, o chipset e os demais componentes da placa wireless foram integrados diretamente na placa-mãe e ligados no barramento USB. A escolha do chipset foi bastante infeliz, pois o RTL8187B é um dos chipsets wireless mais mal suportados no Linux.

É aqui que as decisões de remover o slot PC-Card e integrar a placa pesam. Se utilizassem uma placa dedicada, seria possível remediar o problema trocando a placa por outra, e, se houvesse um slot PC-Card você teria a opção de usar uma placa externa. Entretanto, como nenhuma das duas opções está disponível, sobram apenas as opções de ficar brigando com os drivers da RTL8187B, ou substituí-la por uma placa USB, ficando com um falo e uma antena espetados no notebook:

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O segundo problema é o chipset da SiS. O chipset SiS 671/761 não é nenhuma maravilha, mas apesar do baixo desempenho e da qualidade ruim ele até funciona. O grande problema é o chipset de vídeo, o SiS Mirage 3, que é simplesmente o chipset de vídeo pior suportado no Linux atualmente.

A combinação do Mirage 3 com a RTL8187B na mesma máquina representa um desafio formidável para qualquer um interessado em usar Linux. Isso faz com que ele seja um produto fortemente não recomendável, a menos que você pretenda usá-lo apenas como um PC para tarefas leves, rodando o Windows XP…

De qualquer forma, vamos às dicas de como remediar alguns dos problemas de suporte do T31 no Linux.

Em primeiro lugar, o T31 é vendido com o Satux pré-instalado, uma distribuição baseada no Debian Etch, que embora não seja livre de problemas, oferece a vantagem de já vir pré-configurada para o hardware da máquina, incluindo o driver para o vídeo e para a placa wireless. Você pode ler um mini-review dele aqui: https://www.hardware.com.br/dicas/satux.html

Uma observação é que o driver para a RTL8187B incluído no Satux é o mesmo driver que cito a seguir, que é instável e faz com que a placa pare de transmitir e perca a conexão depois de poucos megabytes transferidos. Ou seja, mesmo o Satux que vem pré-instalado não oferece suporte completo ao hardware da máquina.

Ao instalar qualquer distribuição Linux, o primeiro passo é ativar a opção “C3 function” no setup. Sem isso, a maioria das distribuições não consegue sequer concluir o boot, travando durante a detecção da controladora SATA.

Caso esteja curioso, a função C3 nada mais é do que uma opção de economia de energia do processador, que permite que ele entre em estado de baixo consumo enquanto está ocioso, economizando a carga das baterias. Ela não tem nada, absolutamente nada, a ver com a detecção da controladora SATA, nem com qualquer outro componente integrado. A necessidade de precisar mantê-la ativada para conseguir instalar o sistema mostra que o problema não é o C3, mas sim bugs por parte do BIOS. Podemos imaginar que no meio do emaranhado de código, desativar a opção C3 function altera também a configuração de outras opções ocultas, disparando o problema.

O problema seguinte é a configuração do vídeo. As placas com o SiS Mirage 3 simplesmente não possuem suporte oficial no Linux, o que faz com que seja utilizado o driver “vesa”, com resolução de apenas 800×600. O driver vesa é usado por padrão, justamente por que é o único que funciona usando os drivers padrão do X.org. Se você tentar mudar o driver de “vesa” para “sis” e a resolução para 1280×800 no xorg.conf, o X simplesmente deixa de abrir.

A única forma de utilizar o vídeo a 1280×800, com alguma aceleração de vídeo é usar os drivers desenvolvidos pelo Thomas Winischhofer, que entre 2005 e 2006 manteve um heróico esforço em desenvolver drivers 3D para chipsets de vídeo da SiS. Os drivers originais desenvolvidos por ele estão disponíveis no http://www.winischhofer.eu/linuxsisvga.shtml, mas não são atualizados desde 2006, o que faz com que não compilem nas distribuições atuais.

Pesquisando no Google por “sis 761 xorg driver” ou “sis mirage 3 xorg driver” você encontrará drivers vindos de diversas fontes, mas todos eles, nada mais são do que versões modificadas do driver do Winischhofer.

Por estranho que pareça, a única empresa que tem feito algum esforço no sentido de atualizar os drivers e oferecer suporte a eles é a Intel, que utiliza chipsets da SiS em algumas de suas placas mini-ITX, destinadas a PCs de baixo custo. Você pode encontrar tanto os binários quanto o código fonte no:
http://downloadcenter.intel.com

Dentro do pacote com os binários (o sis_drv_i386.tar.bz2), você encontra dois arquivos, o “sis_drv.so” e o “sis_drv.la”, que são os módulos pré-compilados para o X.org, que correspondem ao driver “sis”, especificado na configuração.

Embora sejam um bom ponto de partida, estes drivers da Intel estão longe do ideal, pois os binários funcionam apenas em versões específicas do X. Para a maioria das distribuições, o melhor caminho é baixar o código fonte e tentar compilá-los localmente (um processo complicado, já que muitas vezes é necessário fazer adaptações no código), ou pesquisar no Google por posts com versões pré-compiladas do driver. Um exemplo é este post (http://ubuntuforums.org/showpost.php?p=4697207&postcount=4) do Otto Domínguez, com módulos pré-compilados para o Ubuntu 8.04, que vamos usar como base. Vamos então aos passos necessários para configurá-lo.

O Ubuntu 8.04 inicializa normalmente, entretanto o vídeo sobe com o driver “vesa”, sem aceleração e com resolução de 800×600. Apesar disso, os componentes básicos do note são detectados, o que permite que você faça a instalação normalmente.

Depois de instalar, baixe o pacote que preparei com os módulos pré-compilados e um modelo pré-configurado do xorg.conf (já com a resolução em 1280×800 e teclado abnt2) para o T31:

Para usá-lo, os passos são os seguintes:

a) Descompacte o arquivo e copie os arquivos “sis_drv.so” e “sis_drv.la” da pasta usr/lib/xorg/modules/drivers para a pasta “/usr/lib/xorg/modules/drivers/” do sistema, substituindo os arquivos originais.

b) Copie o arquivo X11/xorg.conf para a pasta “/etc/X11/” do sistema, substituindo o arquivo original (faça backup antes).

c) Reinicie o X (pressionando Ctrl+Alt+Del) para que a alteração entre em vigor. Depois da alteração o vídeo deve subir com a resolução correta. SE não funcionar, experimente reiniciar a máquina.

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Os módulos podem funcionar em outras distribuições além do Ubuntu 8.04, mas isso varia de acordo com a versão do X usada. Existe também a opção de tentar compilar o driver você mesmo usando o código-fonte disponível na pasta “src” do arquivo.

Estes módulos oferecem apenas suporte 2D, com poucos recursos de aceleração. Eles estão longe do ideal, mas são os únicos disponíveis. Os drivers originais do Thomas Winischhofer incluem alguma aceleração 3D, mas o desempenho é muito baixo e os drivers bastante problemáticos, por isso não vale à pena perder muito tempo com eles. Se você precisa de suporte 3D no Linux, as únicas opções são os chipsets da Intel, nVidia e da AMD/ATI.

Depois de configurado o vídeo, sobre o problema da placa wireless, que no momento simplesmente não funciona perfeitamente no Linux. A Realtek não é especialmente famosa pela qualidade, mas ela tem feito um trabalho especialmente ruim com relação a este chipset em particular.

O RTL8187B nada mais é do que uma versão levemente modificada do chipset anterior, o RTL8187. Apesar de poucas, as diferenças foram suficientes para tornar os dois chipsets parcialmente incompatíveis. O grande problema é que a Realtek não atualizou os drivers, nem disponibilizou os detalhes sobre o novo chipset, criando a conhecida situação em que o fabricante não desenvolve o driver, nem disponibiliza informações que permitiriam que outros o fizessem.

Nesse tipo de situação, a solução mais simples seria ativar a placa usando o Ndiswrapper, como é tradicionalmente feito com placas Broadcom e Atheros. Entretanto, o uso do barramento USB e ouras mudanças no projeto fazem com que o RTL8187B simplesmente não funcione usando nenhum dos drivers windows disponíveis. A placa é até detectada, mas não transmite dados.

Sem outra opção, alguns desenvolvedores passaram então a trabalhar em versões modificadas do driver RTL8187, modificado para trabalhar com o RTL8187B. Como o trabalho é feito na base da tentativa e erro, o driver está longe de ser estável, mesmo incluindo os patches disponibilizados mais recentemente no:

A instalação deste driver é bastante problemática, pois é necessário baixar a versão correta, de acordo com o kernel em uso, aplicar o patch e só então poder prosseguir com a instalação. Caso esteja curioso, esta é o driver usado no Satux, que vem pré-instalado.

Com o driver instalado, a placa passa a ser detectada e a funcionar de forma aparentemente normal, mas alguns minutos de uso revelam que o driver é na verdade bastante instável, (sobretudo ao usar WPA), com a conexão caindo depois de transferir poucos megabytes de dados através da rede.

Uma forma de minimizar os problemas de instabilidade é reduzir a taxa de transmissão da rede para 5.5 megabits usando o iwconfig. Entretanto, mesmo esta opção desesperada apenas ameniza os problemas, não os resolve completamente:

$ sudo iwconfig wlan0 rate 5.5M fixed

Este mesmo driver foi incluído no Kernel 2.6.27 e vem pré-instalado no Ubuntu 8.10, entretanto, os problemas de instabilidade continuam.

Como este chipset está no mercado já a mais de um ano é provável que a solução continue indefinida por mais um bom tempo. Em outras palavras, se você pretende usar a placa wireless no Linux, não considere, em hipótese alguma a compra de aparelhos com placas baseadas no RTL8187B.

Caso sirva de consolo, a centralização dos periféricos em torno do USB trouxe uma mudança positiva, que é o leitor de cartões. Em vez de utilizar um leitor ligado ao barramento PCI, como acontece na maioria dos notebooks, o T31 utiliza um chipset genérico, ligado ao barramento USB. Isso permite que funcione diretamente no Linux, sem necessidade de drivers ou configurações adicionais.

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