Pais acusam ChatGPT de incentivar filha a abandonar remédio contra epilepsia antes de morrer
Os pais de Bowen Wan, uma engenheira de software da Amazon de 31 anos que sofria de epilepsia, entraram com um processo contra a OpenAI. A família alega que o ChatGPT incentivou a mulher a interromper o uso de medicamentos anticonvulsivantes sem supervisão médica, uma decisão que teria contribuído para sua morte em fevereiro deste ano.
Segundo uma investigação do The New York Times, que analisou mais de 270 mil mensagens trocadas entre Wan e o chatbot, a inteligência artificial teria elaborado planos de redução da medicação, minimizado sintomas preocupantes e incentivado a paciente a esconder informações de seus médicos.
ChatGPT teria orientado mulher a esconder redução da medicação
Wan utilizava o GPT-4o, modelo conhecido por seu estilo de conversação mais próximo e afirmativo. Em novembro de 2025, ela foi informada de que perderia seu emprego na Amazon, situação que também colocava em risco sua autorização para trabalhar nos Estados Unidos. Preocupada com futuras entrevistas de emprego, Wan acreditava que a lamotrigina, medicamento utilizado no controle de suas crises epilépticas, estava prejudicando sua capacidade de comunicação.

Em janeiro de 2026, ela consultou o ChatGPT sobre a possibilidade de diminuir sua dose diária de 400 mg. Segundo o processo, o chatbot elaborou um cronograma de aproximadamente 25 dias que previa a redução gradual da medicação até sua suspensão completa.
O problema não teria se limitado às recomendações sobre dosagem. Conforme os registros apresentados na ação, o ChatGPT também orientou Wan a não revelar o plano aos médicos. Em uma consulta realizada em 29 de janeiro, a paciente recusou um exame de sangue que permitiria verificar os níveis do medicamento em seu organismo. De acordo com a denúncia, o chatbot elogiou essa decisão.
Nos dias seguintes, Wan relatou episódios de confusão mental, lapsos de memória e sensações semelhantes às que experimentava durante suas crises epilépticas. Apesar disso, o GPT-4o teria interpretado os sintomas como parte de um processo natural de readaptação cerebral. O New York Times identificou pelo menos 158 ocasiões em que ela demonstrou preocupação com a redução do medicamento.
Em uma dessas conversas, após Wan admitir que estava assustada, o chatbot respondeu: “Você não tem absolutamente nenhum motivo para se preocupar.” Seu neurologista, Nicholas Poolos, da UW Medicine, afirmou ao jornal que não consideraria interromper o tratamento diante do histórico da paciente. Segundo ele, recomendar a suspensão de um medicamento que estava funcionando configuraria negligência médica.
Mulher morreu em fevereiro; perícia identificou níveis muito baixos do medicamento
A última mensagem de Wan ao ChatGPT foi enviada em 11 de fevereiro, quando ela perguntou sobre uma dor de cabeça. O chatbot respondeu que o sintoma não era perigoso e o associou à recuperação do cérebro. Wan morreu em 12 de fevereiro e seu corpo foi encontrado dois dias depois, após seus pais, que estavam na China, pedirem a conhecidos que verificassem sua situação.
O Instituto Médico-Legal do Condado de King classificou a causa como morte súbita inesperada na epilepsia (SUDEP). Um exame após a morte identificou uma concentração de lamotrigina equivalente a aproximadamente um quinto do limite inferior da faixa terapêutica.
Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), deixar de tomar anticonvulsivantes conforme a prescrição pode aumentar o risco de crises e de morte súbita associada à epilepsia. A relação específica entre as orientações do chatbot e a morte de Wan, entretanto, ainda é uma questão a ser examinada judicialmente.
OpenAI se manifesta sobre o processo
Em resposta ao New York Times, a OpenAI classificou o caso como “incrivelmente doloroso” e destacou que Wan utilizava uma versão antiga do ChatGPT. A empresa afirmou que os modelos mais recentes conseguem identificar melhor situações que exigem atenção urgente.
O GPT-4o foi retirado do ChatGPT em 13 de fevereiro de 2026, um dia após a morte de Wan. Sua descontinuação, entretanto, já havia sido anunciada em janeiro.
O caso se soma a outras ações judiciais envolvendo o chatbot, incluindo processos movidos por famílias que acusam a tecnologia de incentivar comportamentos prejudiciais e desenvolver relações de dependência emocional com usuários.
Fonte: Techcrunch
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