Quem pretende comprar um computador, celular ou outro eletrônico nos próximos meses pode continuar encontrando preços nada animadores. Durante a teleconferência de resultados da Apple, realizada nesta semana, o CEO Tim Cook descreveu a disparada nos preços das memórias como uma “enchente de cem anos”, sugerindo que a indústria atravessa um momento excepcional.
“Estamos vivendo o que eu descreveria como uma enchente de cem anos nos preços das memórias.”
O que Tim Cook quis dizer?
A expressão “100-year flood” é usada em inglês para descrever um evento extremamente raro e de grandes proporções. No caso, Cook utilizou a metáfora para ilustrar a forte alta nos preços das memórias DRAM e NAND, componentes presentes em smartphones, notebooks, SSDs, servidores e diversos outros dispositivos. Segundo o executivo, esse aumento representa uma situação fora do comum para a indústria.
O que está provocando a crise das memórias?
Grande parte da pressão vem da explosão da demanda por infraestrutura de inteligência artificial. Empresas como OpenAI, Microsoft, Meta, Google, Amazon e xAI continuam investindo bilhões de dólares na construção de novos data centers, que utilizam enormes quantidades de memória de alto desempenho. Ao mesmo tempo, fabricantes de memória passaram a direcionar parte da produção para atender esse mercado mais lucrativo, reduzindo a oferta disponível para outros segmentos. O resultado é um aumento de preços que afeta praticamente toda a cadeia de eletrônicos.
Nem a Apple conseguiu escapar da nova realidade do mercado de memória
O alerta de Tim Cook marca uma mudança importante na dinâmica da indústria. Durante anos, a Apple foi conhecida por seu enorme poder de negociação com fornecedores de componentes. Como uma das maiores compradoras de memória DRAM e NAND do mundo, a empresa conseguia fechar contratos de longo prazo, pressionar por preços mais baixos e, em muitos momentos, absorver oscilações do mercado sem repassá-las imediatamente aos consumidores. Esse cenário começou a mudar com a explosão da demanda por infraestrutura de inteligência artificial.
Executivos da Micron afirmaram que o setor vive uma situação inédita, os fabricantes de memória passaram a priorizar clientes ligados à IA, como empresas que constroem grandes data centers, reduzindo a disponibilidade de chips para fabricantes de eletrônicos de consumo. Segundo a companhia, anos de margens apertadas e pressão exercida por grandes compradores desestimularam investimentos na expansão da capacidade produtiva. Quando a corrida da IA acelerou, a oferta já não era suficiente para acompanhar a nova demanda.
O resultado é que até mesmo a Apple perdeu parte da vantagem que tradicionalmente tinha nas negociações. A empresa conseguiu adiar por algum tempo o impacto da alta dos custos, mas acabou sendo obrigada a reajustar preços de Macs e iPads e passou a admitir publicamente que a pressão sobre o mercado de memória é excepcional.
O mercado já teme uma crise de memória ainda maior em 2027
O setor começa a enxergar a possibilidade de um novo ciclo de escassez de memória que pode atingir seu ponto mais crítico em 2027. O principal motivo continua sendo a corrida global pela inteligência artificial. A construção de data centers para treinar e executar modelos cada vez maiores exige quantidades sem precedentes de memória DRAM de alta largura de banda (HBM), além de módulos DDR5 e soluções de armazenamento de alto desempenho. Ao mesmo tempo, os fabricantes passaram a direcionar parte significativa de sua capacidade produtiva para atender esse mercado, que oferece margens muito superiores às dos produtos voltados para PCs e smartphones.
Esse movimento cria um efeito em cascata. Como a expansão da capacidade de fabricação leva anos e exige investimentos bilionários, a oferta não consegue acompanhar rapidamente o crescimento da demanda. O resultado é um mercado mais apertado, com menor disponibilidade de memória para outros segmentos e maior poder de negociação para empresas como Micron, Samsung e SK hynix. Se o ritmo atual de investimentos em IA continuar e novos projetos de fábricas não entrarem em operação no prazo esperado, a pressão sobre preços poderá se intensificar nos próximos anos.
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Esta postagem foi modificada pela última vez em 31/07/2026 21:57