A promessa parecia irresistível: produzir séries em poucos dias, eliminar boa parte dos custos com atores e cenários e colocar centenas de histórias no ar. Na China, porém, a explosão dos vídeos feitos com inteligência artificial está encontrando um problema bem humano: o público não consegue, e aparentemente nem quer, assistir a tudo isso.
Somente no primeiro semestre de 2026, 221,9 mil novas produções curtas feitas com IA chegaram ao Douyin, versão chinesa do TikTok. Juntas, acumularam cerca de 515,7 bilhões de visualizações. O número parece espetacular, até observarmos como essa audiência foi distribuída.
Apenas 1.055 produções ultrapassaram 100 milhões de visualizações, uma taxa de aproximadamente 0,48%.
De cada 77 produções, apenas uma chega ao nível de equilíbrio
Dados da DataEye citados pela imprensa chinesa utilizam 50 milhões de visualizações como uma referência para o ponto de equilíbrio financeiro dessas produções.
Considerando esse patamar, somente cerca de 1,3% dos títulos conseguiram chegar lá. Em outras palavras, para cada 77 novas produções publicadas, aproximadamente uma alcançou esse nível. O fenômeno ajuda a mostrar um efeito curioso da IA generativa: produzir ficou muito mais fácil, mas chamar atenção ficou muito mais difícil.
Uma produção de melhor qualidade feita com IA pode custar aproximadamente 800 a 1.500 yuans por minuto, segundo dados citados pelo The Paper, enquanto o ciclo de produção pode cair de várias semanas para poucos dias.
O resultado foi uma avalanche.
Dados da China Netcasting Services Association apontam que 367 mil microdramas chegaram às plataformas chinesas somente durante o primeiro semestre, com mais de 74% utilizando IA.
Os personagens começaram a ficar todos parecidos
Quantidade, entretanto, não resolveu outro problema: a repetição. Em entrevista reproduzida pelo GenK, Ngô Trần Thịnh, representante da HTV, chama atenção para uma característica cada vez mais perceptível dessas produções: personagens com rostos muito semelhantes, histórias previsíveis e os mesmos arquétipos sendo reutilizados continuamente.
Romances melodramáticos, traições, vinganças e personagens extremamente ricos aparecem repetidamente porque são fórmulas simples de reproduzir em escala.
Parte da semelhança visual estaria relacionada às limitações das próprias ferramentas, mas também à maneira como elas são usadas. Prompts semelhantes, reutilização de modelos visuais e pouco investimento em identidade dos personagens ajudam a criar a sensação de que diferentes produções saíram da mesma fábrica.
É justamente nesse ponto que aparece o termo “AI slop”, usado de forma depreciativa para definir conteúdo produzido em massa com IA, geralmente com pouco cuidado ou originalidade.
Produzir barato não significa ganhar dinheiro
Com milhares de criadores entrando no mercado, o dinheiro economizado na produção acaba sendo disputado em outro lugar: a atenção do público. O The Paper relata que o retorno obtido a cada 10 mil visualizações teria caído de aproximadamente 30 a 100 yuans no ano passado para apenas 5 a 10 yuans em 2026. Ao mesmo tempo, gastos com promoção e aquisição de audiência ganharam peso maior no orçamento.
A Reuters também identificou sinais de saturação nesse mercado, apesar dos incentivos governamentais e do rápido avanço das ferramentas chinesas de geração de vídeo.
Esta postagem foi modificada pela última vez em 01/10/2026 21:32