Marty Kausas tem 28 anos, fundou a startup Pylon e quer construir uma empresa que abra capital valendo mais de US$ 10 bilhões. No ano passado, ele publicou em seu perfil no Linkedin que estava adotando uma rotina de trabalho de 92 horas por semana, e que fez isso nas últimas 3 semanas. “Isso não é para glamourizar ou incentivar, a gente só quer muito, muito ganhar”, diz ele.
Kausas não está sozinho. Esse perfil se repete entre jovens fundadores do Vale do Silício e tem um traço em comum: trabalho é lazer, e álcool ficou para trás.
A rotina de Kausas tinha horários definidos: de segunda a quinta, das 8h à 1h da manhã; sexta até as 19h; domingo das 13h à meia-noite. Sábado era o único dia de folga. No final do post, ele abriu vagas em vendas, marketing, design e engenharia. “Isso poderia ser você”, escreveu. Em agosto de 2025, a Pylon captou US$ 31 milhões em uma rodada Série B liderada pela Andreessen Horowitz e pela Bain Capital, totalizando US$ 51 milhões levantados e uma valuation estimada de US$ 365 milhões. A meta de US$ 10 bilhões ainda está distante, mas está em curso.
Trabalho como lazer
Emily Yuan, fundadora de startup no Vale do Silício, resumiu ao Wall Street Journal: “Por que ir a um bar se posso estar criando uma empresa?” Grande nomes do mercado, como Sam Altman, se posicionam publicamente contra o álcool. O resultado aparece nos eventos. Conferências de inteligência artificial em São Francisco não servem álcool. Michelle Fang, 26 anos, organizadora de eventos para fundadores, explicou ao Business Insider o motivo duplo: está fora de moda entre esse público, e parte significativa dos fundadores ainda tem menos de 21 anos, a idade mínima legal para beber nos EUA.
Miranda Nover, cofundadora da startup de fitness Fort, resumiu o comportamento: “Trabalhamos seis dias por semana, ficamos no escritório até as 21h, não bebemos, não saímos para festas.”
Sergey Brin, cofundador do Google, disse em 2025 que alcançar a inteligência artificial geral exigiria jornadas de 60 horas por semana, 12 horas diárias de segunda a sexta. Brin incentiva os funcionários a fazerem o mesmo, defendendo que a colaboração presencial é “a maneira perfeita de vencer a corrida da IA”. A fala gerou críticas, mas ilustra que a lógica das longas jornadas não é exclusiva dos fundadores mais jovens.
Na última década, a maioria dos países da OCDE registrou queda no consumo de álcool. A média per capita atingiu 8,5 litros de álcool puro em 2023, segundo o relatório Health at a Glance 2025 da OCDE. No Brasil, o movimento segue a mesma direção: entre jovens de 18 a 24 anos, o consumo regular caiu de 30,1% em 2006 para 24,8% em 2023, segundo o Observatório da Saúde Pública. Hoje, 45% da Geração Z brasileira consome álcool, contra 57% dos millennials, segundo pesquisa da MindMiners. O principal motivo declarado para beber menos no Brasil é falta de interesse (58%), não produtividade.
Games no lugar do bar
O padrão não é exclusivo do Vale do Silício. Uma pesquisa da Logitech G com 1.500 homens entre 18 e 24 anos na Austrália mostrou que 61% preferem interagir com amigos por partidas online a sair para beber, e quase metade (49%) considera positivo passar a noite jogando em grupo. Os motivos declarados foram custo mais baixo (54%), efeito relaxante de jogar (47%) e facilidade de organizar encontros online (42%), em comparação ao deslocamento e gasto com bebidas.
Esta postagem foi modificada pela última vez em 14/06/2026 13:05