Uma assessora de imprensa da OpenAI tentou encerrar abruptamente uma entrevista do CEO Sam Altman com a Vanity Fair no momento em que o editor Mark Guiducci trouxe à tona o suicídio de uma usuária do ChatGPT. O episódio expõe a dificuldade da empresa em lidar publicamente com as consequências mais sombrias de seus produtos.
Guiducci havia acabado de perguntar a Altman se ele conhecia Laura Reiley, jornalista que publicou um ensaio no The New York Times relatando as conversas da filha com o ChatGPT antes de ela tirar a própria vida. No meio da pergunta, a assessora cortou o editor: “Mark, temos dois minutos restantes. Quero ser respeitosa, mas gostaria de seguir em frente e falar um pouco sobre o futuro e o que está por vir.” Quando Guiducci sinalizou que terminaria a pergunta antes de mudar de assunto, ela insistiu: “Precisamos realmente sair daqui em um ou dois minutos.”
O movimento falhou. Guiducci conduziu a pergunta até o fim, e Altman respondeu. Questionado sobre se a OpenAI planeja usar conversas com o ChatGPT para moldar políticas de resposta a crises de saúde mental, o CEO disse: “Essas são algumas das perguntas mais difíceis que enfrentamos, ou que qualquer pessoa desenvolvendo essa tecnologia enfrenta. Devemos liberar dados privados das pessoas, em alguns de seus momentos mais difíceis, para pesquisadores? Acho que provavelmente não, sem o consentimento delas.”
Mark Guiducci: “Do you know who Laura Reiley is?”
Sam Altman: “I don't.”
Mark Guiducci: “She is a journalist. She wrote an essay in the ‘Times’ last year. Her daughter committed suicide after speaking to ChatGPT. ChatGPT did not tell her to kill herself—”
OpenAI Publicist:… pic.twitter.com/cE870oA3Se
— VANITY FAIR (@VanityFair) October 5, 2026
OpenAI tenta justificar a interrupção
Após o episódio repercutir, o porta-voz da OpenAI, Drew Pusateri, se pronunciou: “A entrevista estava se estendendo além do tempo previsto, razão pela qual acabamos pedindo para agendar ainda mais tempo para continuar a conversa depois que Sam abordou esse tópico criticamente importante.” A explicação logística acabou não convencendo: o timing da intervenção, precisamente quando o tema do suicídio foi levantado, acabou falando mais alto.
A questão da saúde mental e dos modelos de linguagem passou de preocupação teórica para um caso concreto. A resposta de Altman toca em um ponto importante: dados de conversas em momentos de crise têm valor imenso para pesquisadores de prevenção ao suicídio, mas liberá-los sem consentimento é uma violação ética grave.
O problema é que a OpenAI ainda não apresentou qualquer política estruturada para lidar com esse dilema, e agora essa tentativa de cortar o assunto em uma entrevista sugere que a empresa prefere não ter essa conversa em público.
Nas redes sociais, o público está dividido
As reações à entrevista de Sam Altman à Vanity Fair acabaram sendo bem divididas nas redes sociais. Muitos usuários criticaram a postura da assessora de imprensa da OpenAI, sendo que para parte do público, a tentativa de mudar de assunto pareceu uma estratégia de contenção de danos e reforçou a impressão de que a empresa quer evitar questionamentos sobre os possíveis riscos de seus produtos. Alguns usuários chegaram a pedir a demissão da assessora, considerando sua intervenção um erro de relações públicas.
Por outro lado, muitos defenderam Altman e acusaram a Vanity Fair de apresentar o episódio de maneira sensacionalista e descontextualizada. Segundo esses usuários, o CEO se dispôs a responder à pergunta e chegou a contrariar a própria assessora, que alegava que o tempo da entrevista estava acabando. Eles também destacaram que o vídeo completo mostra uma situação diferente da sugerida pelo trecho publicado, criticando o veículo por supostamente priorizar o engajamento em vez de apresentar o contexto integral.
Quanto a culpa do ChatGPT, usuários afirmam que o agente não pode ser responsabilizado automaticamente pelas decisões de seus usuários, enquanto outros consideraram a pergunta uma tentativa de atribuir culpa à empresa sem considerar todas as circunstâncias do caso.
Parte dos internautas defendeu que ferramentas como o ChatGPT deveriam identificar sinais de risco, evitar respostas que reforcem pensamentos suicidas e facilitar o contato com familiares, profissionais de saúde ou serviços de emergência.