Uma das grandes conquistas das Ray-Ban Meta pode estar se transformando em um problema para os óculos inteligentes: à primeira vista, eles parecem óculos comuns. No Reino Unido, estabelecimentos começaram a impor restrições ao dispositivo diante do receio de que clientes e funcionários sejam filmados sem perceber. O movimento inclui restaurantes, clubes privados, pubs e teatros, embora não exista uma regra única. Em alguns casos, usuários podem ser convidados a retirar os óculos. Em outros, a restrição está especificamente no uso da câmera e na gravação de terceiros sem autorização.
Isso significa que não existe um banimento geral das Ray-Ban Meta no Reino Unido. São decisões adotadas por determinados estabelecimentos privados, que estão estabelecendo suas próprias regras para lidar com uma categoria de dispositivo que torna a câmera muito menos evidente do que quando alguém aponta um smartphone.
De restaurantes sofisticados a pubs: as restrições não são iguais
Entre os estabelecimentos citados pelo jornal britânico The Guardian estão os restaurantes comandados por Jeremy King em Londres, os clubes privados Soho House, a rede de pubs Wetherspoons e os teatros operados pela ATG Entertainment. Jeremy King, responsável por estabelecimentos londrinos como Simpson’s in the Strand, Arlington e The Park, afirmou que os clientes não devem utilizar os óculos capazes de fazer gravações em seus restaurantes.
Nos clubes privados da Soho House, a regra existente contra filmagens também se aplica aos dispositivos. Segundo um porta-voz ouvido pelo Guardian, usuários podem ser convidados a retirar os óculos. A Wetherspoons adota uma posição um pouco diferente. A rede não está simplesmente proibindo clientes de entrarem usando Ray-Ban Meta: o problema está na gravação.
Tim Martin, fundador e presidente da companhia, disse que a regra geral dos pubs é impedir que clientes e funcionários sejam filmados sem permissão. Na avaliação do executivo, os óculos facilitam uma forma discreta de vigilância e, por isso, a orientação é desligar as câmeras. Nos teatros da ATG ocorre situação semelhante. Como filmar apresentações já é proibido, pessoas usando os óculos durante um espetáculo podem ser solicitadas a retirá-los.
Mais de 7 milhões de óculos com IA foram vendidos em um único ano
A EssilorLuxottica, dona da Ray-Ban e parceira da Meta no desenvolvimento dos dispositivos, informou que mais de 7 milhões de unidades de seus óculos com inteligência artificial foram vendidas em 2025. O número engloba as Ray-Ban Meta, lançadas em setembro de 2023, e as Oakley Meta, lançadas em junho de 2025.
O desempenho comercial já aparece inclusive nos resultados financeiros da companhia. Ao divulgar os números de 2025, a EssilorLuxottica atribuiu parte da aceleração de sua receita no segundo semestre ao negócio de óculos com IA desenvolvido em parceria com a Meta.
No primeiro trimestre de 2026, a empresa voltou a citar os óculos com IA e a força da marca Ray-Ban entre os fatores que ajudaram seu desempenho na América do Norte e na região que reúne Europa, Oriente Médio e África.
A Meta usa uma luz branca para avisar quando a câmera está gravando
As Ray-Ban Meta não foram projetadas para gravar sem qualquer indicação externa. Na parte frontal existe um LED branco que pisca quando o usuário registra uma fotografia ou vídeo. Segundo a Meta, a luz não pode simplesmente ser desativada: cobrir ou danificar o indicador faz com que a câmera seja desabilitada.
A companhia apresenta esse mecanismo como uma das proteções de privacidade incorporadas ao produto.
Em julho de 2026, a Meta voltou a explicar publicamente o funcionamento do indicador diante das dúvidas sobre seus óculos. A empresa afirma ainda que fotos e vídeos destinados à galeria permanecem privados até que o usuário decida importá-los para o telefone e eventualmente compartilhá-los.
A existência do LED, porém, não elimina a discussão enfrentada pelos estabelecimentos britânicos. Uma câmera de smartphone normalmente exige um gesto facilmente reconhecível. Nas Ray-Ban Meta, uma pequena luz na armação precisa comunicar a uma pessoa, que pode estar a alguns metros de distância e nem conhecer o funcionamento do dispositivo, que está sendo registrada.
O problema, portanto, não é simplesmente determinar se existe ou não um indicador de gravação. É saber se pessoas ao redor conseguem identificá-lo e compreender o que significa.
A mesma discussão já acompanhou o Google Glass
O conflito entre câmeras vestíveis e privacidade não começou com a Meta. Quando o Google Glass chegou às mãos dos primeiros usuários, há mais de uma década, o produto também enfrentou resistência em locais onde câmeras eram consideradas inadequadas. Cinemas, restaurantes e outros estabelecimentos chegaram a restringir o dispositivo.
Existe, porém, uma diferença importante entre os dois momentos.
O Google Glass tinha uma aparência tecnológica bastante característica. Era difícil confundi-lo com óculos convencionais. O Ray-Ban Meta caminham na direção oposta. A tecnologia foi incorporada a armações próximas dos modelos tradicionais da Ray-Ban, reduzindo a distância visual entre “óculos” e “computador vestível com câmera”.
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