A Polymarket deu o passo mais concreto do seu retorno aos Estados Unidos: lançou um aplicativo móvel disponível apenas para americanos por meio de lista de espera. O app marca a primeira vez que usuários dos EUA podem acessar a plataforma de apostas em blockchain oficialmente desde 2022, quando a empresa foi multada em US$ 1,4 milhão pela CFTC e forçada a bloquear o país. A volta foi possível após autorização regulatória obtida em 25 de novembro, mas acontece em meio a acusações de que um quarto do volume histórico da plataforma pode ser manipulado.
Como funciona o Polymarket?
Criada em 2020 por Shayne Coplan, a Polymarket é um “mercado de previsões descentralizado” construído na blockchain Polygon. Na prática, funciona assim: usuários compram tokens “sim” ou “não” sobre qualquer evento futuro — desde “Trump vence as eleições” até “Bitcoin atinge US$ 150 mil em 2025” ou “Taylor Swift termina com Travis Kelce”.
O preço desses tokens varia entre US$ 0 e US$ 1, refletindo a probabilidade que o mercado atribui ao evento. Quando o evento se resolve, quem apostou certo recebe US$ 1 por token; quem errou, perde tudo. As transações são feitas em USDC (stablecoin atrelada ao dólar) e validadas por contratos inteligentes, sem intermediário tradicional.
O aplicativo está disponível nas lojas iOS e Android, mas o acesso é controlado: interessados entram numa fila e são liberados gradualmente. A estratégia de lista de espera é comum em lançamentos tech que querem criar buzz e controlar carga nos servidores, mas também serve para a Polymarket testar compliance e processos de verificação sem abrir as comportas de uma vez. A empresa afirmou que o app segue todas as diretrizes da CFTC para mercados de previsão nos EUA.
A Polymarket movimentou US$ 4,1 bilhões só em outubro de 2025, quase empatando com a concorrente regulada Kalshi (US$ 4,4 bilhões). Na semana passada registrou US$ 961 milhões, próximo do pico de US$ 1 bilhão visto durante as eleições presidenciais americanas de 2024. Agora, com presença mobile e acesso direto ao maior mercado consumidor do mundo, a expectativa é que esse volume cresça ainda mais — para o bem ou para o mal.
O problema dos US$ 4,5 bilhões fictícios
Enquanto a Polymarket comemora o retorno triunfal aos EUA, pesquisadores da Universidade Columbia jogaram água fria na festa. Estudo divulgado em novembro de 2025 identificou que cerca de 25% do volume total de transações da plataforma pode ser “wash trading” — negociações fictícias entre carteiras controladas pela mesma pessoa para inflar artificialmente os números. De 1,26 milhão de carteiras analisadas, 14% mostraram padrões suspeitos: transações repetitivas, lucro ou prejuízo mínimos, e comportamento típico de quem está “farming” um possível airdrop de token.
O wash trading encontrou terreno fértil na Polymarket por três razões estruturais. Primeiro, a plataforma não exige KYC (verificação de identidade), então qualquer um pode criar múltiplas carteiras sem rastro. Segundo, até hoje a Polymarket não cobra taxas de transação, diferente de exchanges tradicionais onde esse tipo de manobra sai caro. E terceiro, há expectativa generalizada de que a empresa lance um token próprio no futuro, distribuído aos usuários mais ativos — um incentivo claro para inflacionar volume de forma artificial.
Os pesquisadores flagraram picos absurdos: em dezembro de 2024, quase 60% do volume semanal foi classificado como provável wash trading. O percentual caiu para menos de 5% em maio de 2025, mas voltou a subir para 20% em outubro. Mercados de esportes são os mais afetados: 45% do volume histórico nessa categoria é considerado suspeito, contra 17% em eleições e 3% em criptomoedas. No total, estimam que US$ 4,5 bilhões em transações sejam fictícias.
App nos EUA não resolve o problema de fundo
A autorização da CFTC foi possível porque a Polymarket comprou, em julho de 2025, uma bolsa de derivativos que já tinha uma carta de não-ação do órgão regulador. Isso permitiu operação limitada no país, e agora a entidade afiliada ganhou luz verde definitiva. Mas a aprovação regulatória não elimina os incentivos estruturais para manipulação: sem KYC robusto e com taxas zeradas, o problema persiste.
Shayne Coplan comemorou o lançamento como validação do modelo de “mercados de previsão descentralizados”, mas críticos apontam que a empresa precisa escolher entre ser uma plataforma cripto pura (anônima, sem intermediários) ou um produto financeiro regulado. Por enquanto, ela tenta ser os dois, e isso deixa brechas grandes. Os pesquisadores sugeriram que a própria Polymarket poderia aplicar algoritmos de detecção e excluir carteiras suspeitas de airdrops, mas isso exigiria abrir mão de parte do volume — e do hype — que a colocou no mapa.
A Polymarket se tornou termômetro para parte do ecossistema tech, especialmente em eventos como eleições e decisões de bancos centrais. Traders, VCs e veículos de mídia passaram a citar os preços da plataforma como “probabilidade real” de eventos futuros. Mas se um quarto do volume é fictício, até que ponto esses preços refletem sabedoria coletiva ou apenas especulação manipulada? O app nos EUA é uma vitória importante, mas a questão agora é se a empresa vai usar essa legitimidade para limpar a casa ou apenas para crescer mais rápido, problemas incluídos.
Esta postagem foi modificada pela última vez em 04/12/2025 00:29