Fotos de 1997 mostram Kojima, aos 33 anos, numa sala de aula da Konami, ensinando sobre criatividade

As fotografias circularam recentemente nas redes sociais e mostram Hideo Kojima segurando um microfone na frente de um quadro branco coberto de anotações em japonês, diante de uma sala cheia de jovens atentos. O registro é de 1997, ano em que ele conduziu a aula inaugural da Konami School em Kobe com o tema “Como as ideias nascem?

A escola que a Konami criou para formar seus próprios criadores

A escola era a Konami Computer Entertainment School Co., Ltd., uma instituição de formação profissional criada pela própria Konami em março de 1997 para treinar criadores de jogos. O modelo era estruturado em três frentes: design, programação e som, com mensalidades entre 800 mil e 1,2 milhão de ienes. Uma unidade em Tóquio foi aberta na primavera de 1998, e a de Kobe, onde Kojima deu a aula, já funcionava antes disso. Ex-alunos descrevem o espaço como equipado com PCs, sintetizadores Roland JP-8000, consoles de desenvolvimento PlayStation e uma sala de mixagem com mesa O2R

O que estava em jogo naquele palco em 1997

Em 1997, Kojima tinha 33 anos e já carregava uma história de resistência dentro da própria empresa que o contratou. Quando entrou na Konami em 1986, um projeto de jogo de guerra estava travado há dois anos sem resultado, veteranos tentavam, descartavam e recomeçavam, e havia uma lenda interna de que trabalhar naquele projeto poderia resultar em rebaixamento. O projeto foi passado para Kojima. Em entrevista à Nice Games em 1999, ele descreveu o que veio a seguir: “Eu queria fazer um jogo de ‘guerra’ que fosse mais sobre fuga. Vocês conhecem o filme ‘A Grande Fuga’? Imaginei um jogo baseado nesse conceito. Mas quando apresentei a ideia aos desenvolvedores mais experientes, eles foram bastante desdenhosos: ‘Não existe isso em jogos’.

A resistência chegou a um ponto em que Kojima considerou sair da Konami. “A resistência passivo-agressiva só piorou. Cheguei a um ponto de exaustão com essa corporação e estava pronto para sair. Mas depois de falar com um funcionário mais velho, uma nova oportunidade surgiu”, disse ele na mesma entrevista. As ideias foram aceitas, Metal Gear foi lançado para MSX2 em 1987 e para NES em 1988, e quando Kojima subiu naquele palco em Kobe dez anos depois, era o mesmo homem que quase não ficou para ver o que havia criado. A aula não era palestra de celebridade: era um profissional falando sobre o ato de criar a partir de quem esteve perto de desistir.

O quadro branco fotografado ao fundo revela o que Kojima estava ensinando com uma precisão maior do que a imagem em miniatura permite notar. No topo, uma sequência com setas: シナリオ → コントラ → 場初, ou seja, “cenário → conflito → cena inicial”. À esquerda, アニメ (anime) e 映画 (cinema/filme) aparecem com chaves apontando para マンガ (mangá) no centro, que por sua vez recebe uma seta de 小説 (romance/literatura), com a anotação (1人) — “uma pessoa” — logo abaixo. O diagrama não trata de mecânicas de jogo. Kojima ensinava criação narrativa pela lógica da linguagem visual japonesa: anime, cinema e literatura convergindo para o mangá como referência central do criador, com o indivíduo como ponto de síntese de todas essas influências — e faz sentido que fosse exatamente isso, dado que foi um filme, A Grande Fuga, a semente de Metal Gear anos antes.

De Metal Gear Solid ao fim conturbado com a Konami

Um ano após a aula na Konami School, Metal Gear Solid chegou ao PlayStation em 1998 e vendeu mais de 6 milhões de cópias, iniciando a fase mais celebrada da parceria entre Kojima e a empresa. Juntos, eles produziram a série completa de Metal Gear Solid e Zone of the Enders, entre outros títulos. O encerramento, porém, foi tumultuado: Metal Gear Solid V: The Phantom Pain enfrentou problemas graves de desenvolvimento, e Kojima deixou a Konami em 2015 em circunstâncias que nunca foram completamente esclarecidas publicamente por nenhuma das partes. Em 2015, ele fundou a Kojima Productions e lançou Death Stranding em 2019.

O que ficou da escola

A Konami School deixou de operar anos depois, sem uma data de encerramento publicamente documentada, mas seu legado aparece nos currículos de vários desenvolvedores que passaram pela empresa nos anos seguintes. A existência de uma escola interna desse porte, num período em que a indústria japonesa de jogos não tinha cursos universitários consolidados na área, reflete quanto a Konami apostou na formação própria de talentos durante a segunda metade dos anos 1990. O homem que quase saiu antes de lançar seu primeiro jogo acabou sendo o mesmo que abriu as portas dessa escola, e o diagrama que ele desenhou no quadro, com cinema, anime e mangá convergindo para uma única pessoa criadora, parece menos uma aula e mais uma autobiografia.

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Esta postagem foi modificada pela última vez em 12/04/2026 23:35

William R. Plaza: Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br