O Governo do Reino Unido publicou um documento de diretrizes orientando seus funcionários a não agradecerem às ferramentas de inteligência artificial após receberem respostas. O motivo não tem nada a ver com filosofia ou com o debate sobre consciência de máquinas: é uma questão de custo e impacto ambiental. Cada prompt desnecessário consome tokens, energia e dinheiro público, e um simples “obrigado” é, nesse contexto, desperdício.
O guia que trata educação como ineficiência
As diretrizes, publicadas na plataforma de IA do governo britânico sob o título “usando IA de forma ética e sustentável“, ainda estão em formato de rascunho e se apresentam como “um ponto de partida para apoiar sua jornada com IA“. Boa parte do conteúdo é senso comum para qualquer profissional minimamente informado: revisar os outputs com atenção para garantir precisão e ausência de viés, não inserir dados sensíveis que possam ser usados para treinamento dos modelos e manter a responsabilidade sobre o trabalho gerado, já que funcionários públicos, ao contrário de empresas de IA bilionárias, não têm a saída fácil de culpar um “agente rebelde”.
Mas é a seção de eficiência que chama atenção. O documento lista três práticas para reduzir o impacto ambiental do uso de IA:
- Mantenha os prompts curtos, claros e diretos
- Use o menor número de prompts possível (você não precisa dizer obrigado)
- Use IA apenas quando necessário
O parêntese é literal no documento original. O “você não precisa dizer obrigado” aparece como um lembrete quase desconfortável de que o reflexo social de agradecer a qualquer interlocutor, humano ou não, tem um custo real quando o interlocutor é um modelo de linguagem operando em regime de pagamento por token.
O contexto por trás da decisão
A orientação não surgiu do nada. O mercado de IA corporativa passou por uma virada relevante: depois de um período em que os provedores apostaram em assinaturas planas para conquistar adoção em massa, os custos operacionais forçaram uma migração para modelos de cobrança por token. O resultado foi que empresas e governos que adotaram IA de forma irrefletida começaram a receber faturas expressivas, sem necessariamente ter receita ou economia proporcional para justificar o gasto. O próprio documento britânico aconselha os funcionários a “considerar se uma ferramenta mais simples daria conta do trabalho, como uma planilha ou um mecanismo de busca“.
O paralelismo com a era do tokenmaxxing, quando a narrativa dominante era “use IA ou perca seu emprego“, é explícito. A realidade de 2026 é que o uso indiscriminado virou um problema fiscal e logístico, e governos estão sendo forçados a criar políticas de contenção para algo que, há pouco tempo, era apresentado como solução universal.
Educação ou antropomorfização: o debate sociológico
Há um ângulo que o documento do governo britânico deliberadamente evita, mas que está implícito na recomendação: o risco de antropomorfizar LLMs. Agradecer a uma IA não é apenas ineficiente do ponto de vista energético, é um sintoma de como os sistemas de linguagem foram projetados para simular uma conversa natural a ponto de ativar reflexos sociais nos usuários.
Em 2026, a discussão sobre os custos reais da IA, financeiros, ambientais e cognitivos, finalmente saiu dos fóruns especializados e chegou às políticas públicas. O que o Governo do Reino Unido está fazendo, ao tratar um “obrigado” automático como um problema a ser corrigido em diretrizes oficiais, é reconhecer, ainda que timidamente, que a adoção de IA sem fricção criou hábitos de uso que ninguém calculou direito.
Para o mercado corporativo, a mensagem prática é clara: o token tem preço, e cada interação conta.