Muitas crianças começam a construir uma pegada digital antes mesmo de aprender a falar. No Brasil, 50% dos pais de menores de 18 anos afirmam ter publicado fotos ou vídeos em que o rosto dos filhos aparece antes que eles completassem três anos, segundo o Norton Insights Report: Connected Kids, levantamento divulgado pela Norton.
Essa exposição precoce contrasta com outra conclusão do estudo: 85% dos pais brasileiros dizem se preocupar com a possibilidade de fotos ou informações publicadas sobre os filhos causarem consequências negativas no futuro. Os dados colocam em evidência o chamado sharenting, termo usado para descrever o compartilhamento frequente, por pais e familiares, de fotos, vídeos e informações sobre crianças nas redes sociais.
Fotos começam a ser publicadas ainda no primeiro ano de vida
Segundo a pesquisa, 30% dos pais brasileiros publicaram pela primeira vez uma foto ou vídeo mostrando o rosto do filho depois do nascimento, mas antes de a criança completar um ano. Outros 20% fizeram a primeira publicação quando o filho tinha entre um e dois anos. Somados, os dois grupos representam metade dos pais entrevistados.
Na prática, isso significa que parte da identidade digital de uma criança pode começar a ser formada anos antes de ela própria criar uma conta em uma rede social ou ter condições de decidir o que gostaria de manter público.
Fotos de aniversários, viagens, atividades escolares e momentos cotidianos também podem revelar mais do que a imagem da criança. Uniformes, nomes de escolas, localização, placas de veículos e detalhes da rotina podem fornecer informações adicionais quando aparecem repetidamente nas publicações.
“Compartilhar uma foto em família pode parecer um momento passageiro, mas, online, esse conteúdo pode permanecer indefinidamente, circular além do público original e ganhar vida própria”, afirma Iskander Sanchez-Rola, diretor sênior de IA e Inovação da Norton.
Segundo o executivo, ferramentas de inteligência artificial acrescentam outra preocupação à discussão porque uma imagem disponível online não precisa apenas ser visualizada: ela também pode ser modificada ou reutilizada.
95% dos pais acham que crianças encontram conteúdo inadequado cedo demais
A preocupação dos pais não se limita às fotos que os próprios adultos publicam.
De acordo com o levantamento, 95% dos pais brasileiros acreditam que crianças são expostas cedo demais a conteúdos inadequados nas redes sociais.
Outro dado mostra que 36% afirmam que seus filhos já tiveram uma conta em uma rede social antes de atingir a idade mínima exigida pela plataforma.
Entre os riscos citados pelos pais estão:
- exposição a conteúdo adulto ou violento: 70%;
- recebimento de mensagens inadequadas: 66%;
- contato com desconhecidos: 65%;
- compartilhamento de informações pessoais: 55%;
- compartilhamento de fotos: 55%;
- compartilhamento da localização: 51%.
Os percentuais indicam que o receio dos responsáveis envolve tanto aquilo que as crianças encontram online quanto as informações que elas próprias — ou os adultos ao redor delas — colocam em circulação.
Sharenting pode criar uma identidade digital antes da criança poder escolher
A pegada digital de uma pessoa não é composta apenas pelo que ela publica diretamente.
Fotos, vídeos, nomes, locais frequentados e outros detalhes compartilhados por familiares também podem permanecer associados à criança por anos. Dependendo das configurações de privacidade e da circulação da publicação, esses conteúdos ainda podem ser salvos ou encaminhados para pessoas que estavam fora do público inicialmente pretendido. É justamente essa perda de controle posterior que torna o sharenting uma questão de privacidade, e não apenas uma discussão sobre etiqueta nas redes sociais.
Uma foto considerada engraçada ou inofensiva quando a criança tem dois anos, por exemplo, pode ser interpretada de maneira diferente quando ela estiver mais velha. O problema é que, nesse momento, retirar a publicação original não necessariamente elimina eventuais cópias que já tenham circulado.
Pais podem reduzir a exposição observando o que aparece ao redor da criança
A Norton recomenda que os responsáveis analisem a imagem inteira antes de fazer uma publicação. A orientação inclui procurar elementos capazes de revelar dados pessoais, como nome da escola, uniforme, endereço, documentos, placas de veículos e localização.
Outra recomendação é revisar periodicamente o público autorizado a visualizar as publicações e, quando possível, restringir fotos de crianças a grupos privados ou pessoas conhecidas. Também é indicado evitar a divulgação em tempo real de atividades recorrentes. Publicar continuamente onde a criança estuda, pratica esportes ou passa determinados horários pode acabar revelando padrões da rotina.
À medida que os filhos crescem, a recomendação é envolvê-los nas decisões sobre as próprias imagens. A prática pode dar à criança algum controle sobre sua identidade digital e servir como parte da educação sobre privacidade online.
Inteligência artificial adiciona um novo risco ao compartilhamento de imagens
O avanço de ferramentas capazes de gerar e editar imagens também altera o que pode acontecer depois que uma foto é publicada.
Segundo o estudo, 59% dos pais brasileiros afirmam já ter adotado alguma medida para reduzir possíveis riscos aos filhos relacionados a ferramentas ou conteúdos de inteligência artificial. O relatório não elimina o compartilhamento de fotos de família como prática, mas reforça que a decisão deve considerar algo além de quem consegue visualizar uma publicação naquele momento. Depois que uma imagem é colocada em circulação, ela pode ser salva, encaminhada, copiada ou modificada.
Ao mesmo tempo, 89% dos pais brasileiros entrevistados afirmaram sentir-se confortáveis para conversar com os filhos sobre riscos online, incluindo golpes, desconhecidos e conteúdo inadequado.
Essas conversas também podem incluir a própria privacidade: quais imagens devem ser publicadas, quem pode vê-las e quais informações aparentemente pequenas podem revelar detalhes da vida cotidiana.
O Norton Insights Report: Connected Kids também reúne dados sobre inteligência artificial, cyberbullying, redes sociais, jogos e outros riscos digitais enfrentados por crianças e adolescentes.