O rádio tradicional pode parecer cada vez menos importante em uma época dominada por Spotify, YouTube Music e outros serviços de streaming. Na Europa, porém, emissoras estão se mobilizando para impedir que fabricantes simplesmente removam o receptor de rádio dos carros novos. Emissoras públicas, privadas e comunitárias da França se uniram para pedir à Comissão Europeia que a recepção de FM e DAB+ passe a ser obrigatória em todos os veículos novos vendidos na União Europeia. A iniciativa surge justamente quando algumas montadoras começaram a comercializar versões de entrada sem rádio convencional.
Alguns carros já são vendidos sem rádio
A mudança já pode ser vista em modelos disponíveis no mercado europeu. A Dacia, por exemplo, retirou o rádio da versão Essential do Spring. A Citroën adotou estratégia semelhante em determinadas versões do C3. A lógica é relativamente simples: eliminar o receptor reduz componentes, integração e custos de produção, algo especialmente importante em carros de entrada.
No lugar do rádio tradicional, o entretenimento passa a depender cada vez mais do smartphone, conexão de dados e serviços de streaming. O problema, segundo o setor radiofônico francês, é que isso transforma algo que tradicionalmente era gratuito e imediatamente acessível dentro do veículo em um serviço que pode depender de internet móvel, aplicativos ou até assinaturas.
Europa já exige DAB+, mas existe uma brecha
A União Europeia já possui uma regra relacionada ao assunto. Desde 2020, veículos novos equipados com um receptor de rádio precisam oferecer suporte ao DAB+, padrão de transmissão digital que vem sendo adotado em vários países europeus.
Existe, porém, uma brecha importante: a legislação determina como o rádio deve funcionar caso o veículo tenha um receptor instalado, mas não obriga o fabricante a colocar um rádio no carro.
Na prática, basta vender o automóvel sem o componente. É justamente esse ponto que as emissoras querem modificar. A proposta é que veículos das categorias M, N e L vendidos na União Europeia tenham obrigatoriamente receptores capazes de receber FM e DAB+, mantendo acesso direto às transmissões sem depender de internet.
Rádio também é visto como ferramenta de emergência
As emissoras argumentam que o rádio continua sendo uma das formas mais simples de distribuir informações para uma grande quantidade de pessoas durante emergências. Diferentemente de serviços de streaming, uma transmissão de rádio não exige conta, assinatura ou conexão de dados do usuário. Em situações de congestionamento das redes móveis, falhas de internet ou grandes emergências, isso pode se tornar particularmente importante.
Como exemplos, o setor cita situações recentes envolvendo apagões e incêndios na Europa, nas quais transmissões de rádio foram utilizadas para distribuir informações à população. A discussão agora pode entrar na chamada Digital Networks Act, legislação europeia que está em preparação e deve revisar diferentes regras relacionadas às comunicações no continente.
Por enquanto, a proposta ainda não significa que todos os carros europeus obrigatoriamente terão rádio. Mas a movimentação mostra que, mesmo depois de décadas e diante do avanço do streaming, o velho FM ainda pode acabar ganhando proteção por lei.