O governo Donald Trump acaba de transformar a guerra comercial com a China em uma batalha de silício e atuadores. Na última terça-feira (28), a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) publicou novas restrições que proíbem, com vigência imediata, a entrada de novos robôs humanoides, robôs quadrúpedes e inversores de energia conectados fabricados na China no mercado estadunidense. A Unitree, fabricante chinesa que responde por pouco menos de um quinto do mercado global de humanoides segundo a Counterpoint Research, figura entre as mais diretamente atingidas pela decisão.
Proibição imediata e com margem para punições retroativas
As regras publicadas pela FCC entram em vigor sem período de transição. Por ora, a proibição se aplica apenas a modelos que ainda não haviam sido lançados no mercado estadunidense, mas o texto deixa claro que o órgão possui autoridade para revogar autorizações de venda já concedidas, caso considere necessário. Ou seja: o que está nas prateleiras hoje pode sair delas amanhã, dependendo da avaliação da agência. O presidente da FCC, Brendan Carr, declarou em comunicado que “a FCC continuará fazendo sua parte para proteger as cadeias críticas de suprimentos dos Estados Unidos”.
O argumento oficial gira em torno de segurança nacional. Segundo o comunicado do órgão, esses equipamentos “podem criar vulnerabilidades na cadeia de suprimentos que poderiam interromper a segurança econômica e nacional dos Estados Unidos, além de criar riscos de cibersegurança que ameaçam a infraestrutura crítica americana”. A FCC ainda detalhou que os dispositivos “coletam dados que podem ser explorados por agentes maliciosos para vigiar americanos, ampliar as capacidades de serviços de inteligência estrangeiros ou assumir remotamente o controle dos robôs”. Não é retórica vaga: a agência cita como precedente o Volt Typhoon, campanha de ataques cibernéticos revelada em 2023, na qual hackers ligados à China usaram roteadores comprometidos para atacar infraestruturas críticas estadunidenses.
Unitree no centro da mira
A Unitree já vinha acumulando sinais de que essa decisão era questão de tempo. A empresa foi incluída pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos na lista de companhias supostamente vinculadas às forças armadas chinesas, um movimento que historicamente precede novas sanções. Ao mesmo tempo, a fabricante firmou uma parceria com a Nvidia para utilizar chips Blackwell na operação dos sistemas de IA embarcados em seus robôs, uma relação que adiciona complexidade política à situação: a Nvidia informou que os dados coletados pelos equipamentos permanecerão armazenados nos Estados Unidos e afirmou que os principais clientes da Unitree no país são instituições acadêmicas e centros de pesquisa. Essa distinção pode ou não ser suficiente para garantir tratamento diferenciado, mas não isenta a companhia das novas regras publicadas pela FCC.
O deputado republicano John Moolenaar, presidente do Comitê Especial da Câmara sobre a China e autor de propostas para submeter robôs chineses a revisões de segurança nacional, saudou a decisão afirmando que ela “fortalece tanto a segurança nacional quanto a indústria estadunidense de robótica”. A declaração é relevante porque sinaliza que o Congresso e o Executivo estão alinhados nesse vetor, o que reduz a chance de a medida ser revertida por pressão política interna.
Inversores de energia: o outro alvo da restrição
O segundo front da proibição atinge inversores de energia conectados, e aqui o peso econômico é ainda maior. A China é atualmente o maior produtor mundial desses equipamentos, liderada por empresas como Sungrow Power Supply e Huawei, que avançaram nos mercados ocidentais por meio de preços agressivos. Com a aceleração na construção de data centers nos Estados Unidos, a demanda por inversores, equipamentos essenciais para conectar fontes renováveis e sistemas de baterias às redes elétricas, cresce na mesma velocidade. Bloquear o fornecimento chinês nesse segmento é uma aposta de que a indústria doméstica ou fornecedores aliados conseguirão suprir o gap, algo que, por ora, está longe de ser garantido.
Segundo quatro fontes ouvidas pela Reuters, a expectativa é que a FCC conceda exceções para fornecedores não chineses, como já ocorreu em restrições recentes a drones e roteadores. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, já havia alertado que empresas chinesas de IA podem ser alvo de sanções adicionais caso sejam acusadas de roubo de propriedade intelectual estadunidense, o que aponta para um ambiente regulatório que tende a se tornar ainda mais restritivo nos próximos meses.
Fonte: reuters
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