Substituir funcionários por inteligência artificial pode produzir justamente o efeito contrário ao esperado. Uma análise liderada por Mark Ma, professor de Administração da Universidade de Pittsburgh, indica que demissões associadas a investimentos em IA podem reduzir o comprometimento e a produtividade dos funcionários que permanecem nas empresas.
O problema não estaria necessariamente na capacidade das ferramentas ou na falta de treinamento. A explicação passa pela reação dos trabalhadores ao perceberem colegas sendo dispensados enquanto a empresa anuncia novos investimentos em automação.
Em vez de enxergar a IA como ferramenta para trabalhar melhor, parte dos funcionários passa a considerá-la uma ameaça ao próprio emprego.
Funcionários passam a se proteger em vez de explorar a IA
Ma e sua equipe analisaram milhões de avaliações de satisfação profissional e compararam esses dados com anúncios corporativos de investimentos em IA e demissões.
Os pesquisadores encontraram uma associação temporal entre os dois acontecimentos: investimentos em produtos e serviços de IA eram seguidos, em alguns casos, por reduções de pessoal justificadas pela incorporação da tecnologia. Os dados, porém, não estabelecem que todo investimento em IA provoque demissões, uma distinção importante destacada no material.
A consequência aparece entre aqueles que conservam o emprego. Ao observar colegas sendo substituídos ou dispensados em nome da IA, trabalhadores podem reduzir seu comprometimento e direcionar mais energia para proteger a própria posição, em vez de experimentar novas ferramentas e procurar maneiras de aumentar a eficiência.
Esse fenômeno não começou com a inteligência artificial. Pesquisas anteriores sobre o chamado “survivor syndrome”, ou síndrome do sobrevivente após demissões, já relacionaram processos de downsizing à redução da identificação do funcionário com a empresa e, consequentemente, à queda de desempenho.
Investir em IA também não garante reação positiva na Bolsa
Existe outra expectativa que os dados colocam em dúvida: a de que anunciar grandes investimentos em inteligência artificial seja automaticamente recebido como boa notícia pelos investidores.
Segundo Ma, a reação do mercado foi negativa ou praticamente inexistente em mais da metade dos casos analisados.
Isso cria uma situação contraditória. A empresa investe em IA esperando aumentar eficiência, reduz funcionários para compensar custos ou reorganizar operações e, ao mesmo tempo, pode prejudicar justamente a disposição dos trabalhadores restantes para utilizar essas ferramentas.
O efeito também aparece em pesquisas mais amplas sobre demissões. Um relatório publicado em 2026 pela Pelgo aponta queda superior a 20% na produtividade após cortes conduzidos sem empatia, além de redução na confiança na liderança e aumento da intenção de deixar a empresa. Esses números não tratam exclusivamente de demissões causadas por IA, mas ajudam a contextualizar o problema.
A conclusão não é que empresas devam evitar inteligência artificial ou que demissões sempre eliminem os ganhos obtidos com automação. Os dados apontam para outra questão: a forma como a IA é introduzida também influencia o resultado.
Uma ferramenta capaz de economizar horas de trabalho pode perder parte desse benefício quando os funcionários passam a gastar energia tentando descobrir se serão os próximos a perder o emprego.